Magnatas do
milênio
Livro
compara o perfil de dez pessoas
muito ricas,
de Gêngis Khan a Bill Gates
Maurício
Oliveira
Reprodução/Enc. Mirador
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Divulgação
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| Da
conquista de territórios à disputa de mercados globais: o asiático
Gêngis Khan (acima) rivaliza com Bill Gates |
O
planeta mudou muito no decorrer do milênio, mas algo se manteve
intocável: a fascinação pela idéia de
acumular riqueza. Sob a forma de ouro, propriedades territoriais,
jóias, imóveis, indústrias, meios de transporte
ou ações, houve sempre um seleto grupo que conseguiu
torná-la real. Assim, cada época teve o seu Bill Gates,
alguém que descobriu o mapa do tesouro antes dos outros e
conseguiu juntar fortuna suficiente para figurar no topo da lista
das pessoas mais ricas de seu tempo, caso tivesse havido um ranking
desse tipo ao longo dos séculos. Um bom mosaico dessa galeria,
com dez personagens que simbolizaram a opulência a cada 100
anos, é o que mostra o livro The Rich and How They Got
That Way (algo como Os Ricos e Como Eles Chegaram Lá),
de autoria da americana Cynthia Crossen, lançado nos Estados
Unidos pela editora Random House.
Da
série, um dos mais conhecidos do grande público é
o asiático Gêngis Khan (1162-1227), conquistador de
terras que organizou o poderosíssimo império mongol
a partir de um clã nômade. Seus domínios estenderam-se
por territórios da China, Irã, Iraque, Coréia
e Rússia. A galeria de perfis contempla o africano Mansa
Musa (?-1332), líder de uma nação onde se localiza
o atual Mali que enriqueceu com o comércio de ouro no século
XIV. Outro é o alemão Jacob Fugger (1459-1526), banqueiro
cortejado por papas e monarcas, a quem se atribui a difusão
de uma das molas mestras da economia: o crédito, nada menos.
Já o escocês John Law (1671-1729) aprendeu a ganhar
dinheiro nos momentos de instabilidade econômica na Europa,
atuando como financista na França. Há também
o inglês Richard Arkwright (1732-1792), um dos precursores
da Revolução Industrial, que multiplicou a produtividade
de suas fábricas têxteis ao criar uma máquina
de fiar algodão. A única mulher é a americana
Hetty Green (1834-1916), especuladora de muito sucesso em Wall Street.
Por último, desponta o americano Bill Gates, contemporâneo
que revolucionou os negócios na informática.
"Para
ficar muito rico, é preciso uma combinação
rara: ter algo fantástico para vender e um mundo que queira
comprar isso", resume Cynthia Crossen. Nesse ponto, a forma como
a fortuna de Bill Gates foi construída lembra a estratégia
usada por outro integrante da lista dos dez, o papa Alexandre VI
(1431-1503). Ambos enriqueceram comercializando produtos cobiçados
por multidões. No caso de Gates, programas para computadores
pessoais. Já Alexandre VI vendia indulgências plenárias,
no século XV, a quem estivesse interessado em passar menos
tempo no purgatório, antes de seguir para o céu.
Entre
figuras tão díspares há muito mais semelhanças
do que se possa supor. Além de enxergar oportunidades onde
os outros só viam obstáculos, nenhum dos ricaços
incluídos no livro amealhou suas posses trabalhando para
outros em um emprego convencional. Todos demonstraram grande capacidade
de liderança e tiveram temperamento forte ao lidar com súditos,
subalternos ou empregados. Nenhum se aposentou. Atitudes excessivamente
egocêntricas foram comuns entre eles, mas é impossível
identificar quanto desse atributo se deveu à influência
dos bens acumulados afinal, o poder e a fama costumam andar
lado a lado com a abundância material.
Quanto
à destinação dada à fortuna nos dez
casos estudados pela autora Cynthia Crossen, prevalecem os sovinas
sobre os esbanjadores. Gêngis Khan, por exemplo, não
gostava de objetos de luxo. Vivia sempre com o mesmo casaco e alimentava-se
da comida servida também aos soldados. Mesmo depois de ser
considerado o homem mais rico de sua era, Richard Arkwright, que
na infância conheceu a pobreza como 13º filho de um barbeiro
analfabeto, continuava trabalhando quinze horas por dia em sua fábrica,
rotina que manteve até a morte, aos 59 anos. "Fiz homens
trocarem os hábitos irregulares aos quais estavam acostumados
pela condição de constante regularidade, a regularidade
de um autômato", Arkwright se vangloriava. Paradoxalmente,
ao conceber a produção em série antes da Revolução
Industrial, ele foi um dos responsáveis pelo nascimento da
sociedade de consumo.
Também
era uma notória mão-de-vaca a financista Hetty Green,
rainha do mercado americano de ações no final do século
XIX e batizada de "Bruxa de Wall Street". Quando o filho machucou
o joelho, rodou pelos hospitais de caridade de Nova York à
procura de atendimento gratuito. Na verdade, ela parecia interessada
apenas em acumular dinheiro e em se divertir com o jogo lucrativo
da compra e venda de ações. Determinada, abriu caminho
numa sociedade marcada pelo machismo. "Quando entro numa briga,
geralmente há um funeral, e nunca foi o meu", exagerava.
Ao morrer de fato, havia multiplicado por dez a herança de
10 milhões de dólares recebida do pai e de uma tia.
No
extremo oposto, está Machmud de Ghazni (971-1030), saqueador
que morava na região do atual Afeganistão. Em seu
castelo, sentava-se num trono incrustado de jóias, resultado
de três anos de trabalho dos artesãos locais. Seu séquito
incluía poetas que encadeavam versos para entretê-lo,
sem falar nos guardas uniformizados para protegê-lo. Depois
de uma batalha, voltava a Ghazni, onde expunha orgulhosamente o
produto dos saques feitos pelo exército de milhares de homens,
cavalos e elefantes, em pilhagens que chegavam aos templos e fortes
da Índia. Também não se pode dizer que era
monástica a vida do papa Alexandre VI, com base na leitura
do diário de um mestre-de-cerimônias da corte. Ali,
há episódios picantes, como um jantar em que castanhas
foram espalhadas pelo chão e donzelas nuas se ajoelhavam
para catá-las. Alexandre VI notabilizou-se por descolar postos
invejáveis para a parentalha no acolhedor cabide da Igreja,
pioneiro no empreguismo que grassaria pelos séculos.
Se
os perfilados estivessem aqui hoje, disponíveis para palestras,
certamente teriam muito a ensinar aos jovens que sonham com fortunas.
O primeiro mandamento do asiático Machmud seria: "Nunca desista".
Ele suportou 72 ferimentos em batalhas nas quatro décadas
de carreira. Certa vez, derrubou tantos soldados durante um confronto
que o sangue inimigo fez sua mão ficar grudada no cabo da
espada. Do africano Mansa Musa, é possível extrair
a máxima: "Mantenha a autoridade". Para garantir a aura de
superioridade, jamais dava ordens pessoalmente, sussurrando-as para
que um porta-voz repetisse em voz alta. Meticuloso, o papa Alexandre
VI, aquele que vendia indulgências, decretaria: "Planeje a
longo prazo". O comerciante chinês Howqua (1769-1843) daria
um conselho exótico naqueles tempos: "Aprenda outra língua".
Para facilitar o encontro entre compradores e vendedores de lados
opostos do planeta, numa época em que raros chineses falavam
inglês ou francês e vice-versa, essa foi uma de suas
principais armas.
Editora
sênior do The Wall Street Journal, Cynthia Crossen
já teve publicado no Brasil o livro O Fundo Falso das
Pesquisas (Editora Revan), que aborda o uso de pesquisas, tanto
as eleitorais quanto as científicas, para influenciar a opinião
pública. O livro atual suscita uma questão sempre
interessante quando se trata de historiar a vida dos milionários
a de comparar as fortunas em épocas, culturas e geografias
tão diferentes. Ao iniciar a pesquisa, a autora pretendia
criar um ambicioso ranking das cinqüenta pessoas mais ricas
do milênio, mas logo percebeu que seria impossível.
Como saber se Bill Gates, o homem de 60 bilhões de dólares,
é mais ou menos rico do que foi Gêngis Khan, cujos
domínios territoriais incluíam um bom pedaço
do globo terrestre? Teoricamente, tudo o que havia dentro desses
territórios pertencia a Gêngis Khan. Segundo ela, as
mudanças sociais trazidas pela consolidação
do conceito de riqueza transformaram o mundo profundamente ao longo
deste milênio. "Mil anos atrás, luxo era possuir um
casaco longo o suficiente para cobrir os joelhos e ter mais de uma
xícara para a família. Hoje, significa comprar uma
caixa de 10.000 dólares para guardar
um relógio de 250.000 dólares",
compara Cynthia Crossen. Riqueza, como tudo, é coisa muito
relativa.
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