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Tal pai, tal filho

Nem médico nem engenheiro. Quem segue a
carreira dos pais agora são os filhos de artistas

Silvia Rogar

 
Fotos Selmy Yassuda
Julia e papai José Mayer: três anos de preparação para estrear no teatro

Parece coisa da Idade Média, quando pais passavam para filhos o ofício, as ferramentas e a vaga na corporação profissional. Na safra recente de artistas e esportistas que buscam seu lugar ao sol há estilos diversos e talentos heterogêneos, unidos por um traço comum: todos seguem exemplos domésticos. Na música, o rol inclui desde os iniciantes Jairzinho e Luciana Mello (filhos de Jair Rodrigues) até a recém-consagrada Bebel Gilberto (João Gilberto e Miúcha), passando pelas mechadas Sarah, Nãna e Zabelê (Baby do Brasil e Pepeu Gomes). Nos palcos e telas, o elenco é composto de Dandara Ohana (Cláudia Ohana), Leandra Leal (Ângela Leal), Gabriela Duarte (Regina Duarte), Julia Drumond (José Mayer) e outras crias com pedigree. Dar uma força aos filhos é um impulso ancestral, mas o surto sucessório do momento obedece às mudanças no conceito de arte e esporte como profissão. Há cinqüenta anos, esportistas e artistas tinham para seus filhos os mesmos objetivos profissionais que todos os outros pais – queriam que fossem médicos ou advogados. Cantar e jogar bola dava fama, sim, mas não rendia nem dinheiro sério nem reconhecimento social. Com as transformações no mundo do entretenimento e no do esporte, altamente profissionalizados e movidos a cifras astronômicas, o jogo virou.


Maria Clara e Isabel: aos 17 anos, patrocínio que a mãe não teve na seleção de vôlei

"São os atrativos da indústria da fama, típica dos anos 90. Os filhos vêem um bom exemplo dos pais, num mercado cada vez maior e mais sólido", diz Aluizio Trinta, professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisador dessas mudanças no meio artístico. Maria Clara Salgado, quase um clone da mãe, Isabel, é uma prova disso. Quando Isabel, hoje com 40 anos, entrou para a Seleção Brasileira de Vôlei, não ganhava nada. Aos 17 anos, ferinha em formação do vôlei de praia, a filha já tem três patrocinadores. Faz até dupla com uma antiga colega de Isabel, a veterana Jacqueline, 38 anos.

Herança genética – Quem ouve um herdeiro ouve todos: papai famoso abre portas, mas é preciso talento para se manter lá dentro e todo o resto da ladainha. "A comparação é inevitável e a cobrança, muito grande", diz Jairzinho, que começou menino (aos 7 anos, era da Turma do Balão Mágico), largou tudo no meio do caminho, foi estudar jornalismo e deixou o curso três meses depois para retornar à arte. Hoje, ele está com outros "filhos de" no Projeto Artistas Reunidos, que tem também sua irmã Luciana e as proles de Wilson Simonal (Wilson Simoninha e Max de Castro) e Elis Regina (Pedro Mariano e o produtor João Marcello Bôscoli). "Não preparei ninguém para me suceder. Só joguei álcool onde já tinha fogo", afirma Jair, o pai.


Tufvesson e mamãe Glorinha: infância nos desfiles de grandes maisons na Europa

No caso do estilista carioca Carlos Tufvesson, 33 anos, o combustível foi sendo aspergido em elegantíssimas doses. A mãe estilista, Glorinha Pires Rebello, sonhava que ele administrasse seus negócios. Mas o rapaz tomou gosto pela costura depois de passar a infância percorrendo o circuito da moda européia e agora faz sucesso com os vestidos de noiva e modelos de festa, que não saem por menos de 5.000 reais. "Desde cedo o Carlos conseguia identificar o estilo das grandes maisons", gaba-se Glorinha. Em 1991, Tufvesson decidiu estudar moda na escola Domus, em Milão. Na volta, começou a produzir peças para o alternativo Mercado Mundo Mix – o que quase matou Glorinha de ódio. Hoje, cada um segue seu trabalho, em ateliês sob o mesmo teto. Há vinte, trinta anos, quem incentivaria um filho a ser estilista de moda? Pois o sucesso dos pais, Glória Coelho e Reinaldo Lourenço, é tanto que, aos 10 anos, Pedro já vislumbra uma carreira similar. Ele tem aula particular de modelagem e, na semana passada, promoveu o desfile de sua primeira "coleção". "Foi só uma brincadeira", insiste Glória. "A moda sempre foi muito natural para o Pedro. Mas ainda é muito cedo para ele decidir o que vai ser."

Na ânsia de da uma força aos rebentos, os pais podem pisar na bola. É clássico o caso de Sofia Coppola, filha do diretor Francis Ford, que enterrou a carreira de atriz em uma criticadíssima atuação em O Poderoso Chefão III. Sofia tinha apenas 18 anos e nenhuma experiência. Neste ano, aos 29, foi a hora da revanche: ganhou altos elogios como diretora de As Virgens Suicidas. Até chegar lá, burilou a herança genética com cursos de cinema. Dar uma boa formação é outra vantagem competitiva oferecida aos pimpolhos por pais famosos. Jairzinho estudou produção musical na escola americana Berklee. Zabelê, filha de Baby do Brasil, passou três anos em Nova York tendo aulas de dança e canto. "Na minha época havia muito improviso e viver de teatro era uma loucura", lembra o ator e ex-professor de português José Mayer, 52 anos. Sua filha, Julia Drumond, 16 anos, antes de estrear a primeira peça profissional num teatro do Rio, há duas semanas, fez três anos de teatro e aulas de canto. Se depender de papai, está com a vida feita. "Ela tem muito talento", baba-se Mayer.

 

 

 

 

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