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Com sete super-hotéis em operação,
mais sete com inauguração marcada, o
Brasil entra no circuito dos paraísos de férias
que oferecem fartura de diversão e
esportes em cenários de cartão-postal

Gisela Sekeff e Leonardo Coutinho

Com o dólar a quase 2 reais e o inverno castigando Nova York e a Europa, mais de 150 000 brasileiros com hábito de carimbar o passaporte vão gastar parte do orçamento das próximas férias de verão em refúgios exclusivos do litoral do país da caipirinha e da moqueca. São os resorts, um conceito de hotel que se implantou por aqui há pouco tempo. Os melhores resorts brasileiros, como seus similares famosos em outros países, parecem enormes navios de cruzeiro ancorados em recortes paradisíacos da costa. Eles oferecem diversão, lazer, esportes aquáticos e boa comida – mas principalmente segurança e atendimento de primeira. O hóspede isola-se do mundo real e mergulha num ambiente em que todos estão empenhados em garantir satisfação total para toda a família. O preço é menor que o de uma viagem ao exterior, mas, em alguns casos, é mais que o dobro do que pode custar uma temporada de praia em uma casa ou num hotel convencional. No tradicional Club Med Rio das Pedras, no Rio de Janeiro, um casal paga 3.496 reais pelo pacote semanal. O tempo de permanência também é menor. Em geral, fica-se uma semana num resort. Quem já foi sabe. Quando tudo dá certo, costuma ser uma experiência inesquecível.

Pelos critérios da Embratur, que classifica como resort o hotel no qual o turista pode entrar hoje e só colocar novamente o pé para fora no dia de ir embora, sem precisar sair para comer ou se divertir, há duas dezenas de opções desse tipo espalhadas pelo Brasil. Segundo as estimativas, somados, eles vão receber no decorrer de todo o próximo ano 1,3 milhão de turistas – quase a metade dos que viajarão para o exterior. Quando se fala em resort, os turistas são bem mais exigentes que a Embratur. Para quem conhece e freqüenta resorts, é bem menor o número de empreendimentos em funcionamento no Brasil que merecem essa classificação. São lugares capazes de atrair levas de turistas estrangeiros que atravessam oceanos, enfrentam as incertas conexões aéreas nacionais, rodam por estradas nem sempre muito conservadas e ainda passam por uma balsa antes de se refestelar numa rede, pedir uma água-de-coco e esquecer da vida até o dia de fazer o caminho de volta. No começo do ano, o Brasil tinha seis resorts de padrão internacional, como os de Cancún, no México, e os da Polinésia Francesa. Atualmente tem sete – todos visitados pelos repórteres de VEJA que fizeram esta reportagem. No ano que vem o Brasil ganhará mais sete de primeiríssima linha. É uma mostra da procura pelos resorts. Para o réveillon e o Natal, as poucas vagas restantes estão disponíveis em algumas agências de viagem. A oferta para o resto do período de férias de verão é maior.

Como investimento, os resorts têm uma característica singular. Exigem o desembolso imediato de uma montanha de dinheiro. São necessárias dezenas de milhões de dólares para domar a natureza, garantir uma área de conservação ao redor do hotel, construir prédios ou chalés com material que algumas vezes tem de ser levado de barco ou avião e, principalmente, treinar pessoas para atender com charme, classe e naturalidade turistas exigentes das mais diferentes nacionalidades. Uma vez instalado, o resort promete ao investidor um retorno garantido por décadas a fio sem muitos gastos subseqüentes. O mesmo não ocorre com os hotéis urbanos, que precisam ser constantemente reformados e modernizados. Foi esse cálculo que fizeram os donos do Complexo Turístico Costa do Sauípe, situado a 76 quilômetros ao norte do aeroporto de Salvador. Dois hotéis do complexo já estão recebendo hóspedes. Outros três começam a operar ainda neste verão. Sauípe espera atrair 200.000 turistas por ano até 2005. Não é um delírio. Cancún, com suas dezenas de resorts, hospeda 3 milhões de veranistas anualmente.

Os preços dos nacionais não são exatamente populares. Mesmo assim, estima-se que 12 milhões de brasileiros tenham uma renda familiar capaz de bancar uma semana por ano nessas ilhas de fantasia – ainda que pagando a prazo. O alvo mais preciso dos resorts são aquelas famílias que conseguem mandar os filhos para a Disney World nas férias de julho. Boa aposta. Só neste ano, 400.000 brasileiros foram ver o Mickey na Flórida. No mais novo desses locais, com roupas de cama ainda com os vincos das embalagens, a saudável rotina do descanso e do agito começou há pouco mais de um mês. No novíssimo SuperClubs Breezes, um dos cinco hotéis da Costa do Sauípe, no litoral norte da Bahia, há tantas atividades à disposição dos hóspedes que os recém-chegados podem ficar meio perdidos. São quinze quadras de tênis em todo o complexo. O centro náutico, de 200.000 metros quadrados, tem padrão internacional. O campo de golfe, com 66 hectares, é convidativo e vai acabar iniciando muitos brasileiros nesse esporte, que, por enquanto, parece coisa de gente bastante rica. O preço de 4.634 reais, por uma semana de hospedagem para duas pessoas, cobre todas as despesas, até mesmo o consumo de bebidas alcoólicas.

Na Costa do Sauípe estão sendo inaugurados ainda neste mês mais um hotel da rede Sofitel e um Renaissance. Em janeiro abre o Marriott Resort & Spa e desde setembro funcionam no complexo seis pousadas, com diárias a partir de 180 reais. Elas permitem usufruir algumas facilidades do resort, mas cobram pela maior parte dos programas e não têm restaurantes. Em compensação, ficam na chamada Vila Nova da Praia, que é o centro da agitação noturna do complexo, com restaurantes, lojas, sorveteria, shows e dezenas de outras atividades. Parece cenário de gravação de novela, com aquele artificialismo celebrizado pelo Epcot Center, da Disney, em Orlando, e levado a sua mais alta expressão nos hotéis-cassino de Las Vegas, onde se passeia por réplicas de ruas e praças de Paris e Nova York em que até o céu é uma contrafação. Estranho mas agradável, o efeito esperado pelos administradores do resort é exatamente este: isolar o turista da realidade que ele deixou ao embarcar rumo a um litoral que ele pensava existir só em sonho.

Outra característica que permite classificar um complexo turístico como resort é ter uma cor local, única, irrepetível. Os melhores resorts têm aquele ar inconfundível de parque temático. Os brasileiros, nesse particular, estão muito bem classificados. Cada um dos grandes resorts brasileiros tem atrativos únicos. Inaugurado há treze anos, o tradicional Transamérica Ilha de Comandatuba, localizado no sul da Bahia, perto de Ilhéus, possui seu próprio aeroporto, com capacidade para receber jatos da dimensão do Airbus. Um ponto forte do visual de Comandatuba é o jardim desenhado pelo paisagista americano Edward Stone Jr., que fez projetos para a Disney. A atmosfera é um pouco formal para um ambiente de praia. Mas não se vêem hóspedes reclamar desse detalhe do atendimento, que, aliás, é impecável. O turista é cercado por centenas de serviçais sorridentes e prontos para atender a seus pedidos, dispensando indistintamente a todos, velhos e moços, tratamento de "senhor" e "senhora".

O formalismo nos resorts pode parecer excessivo para um publicitário de 28 anos que está a fim de esquecer a tensão por uma semana em companhia de sua garota, de 22. A questão é que os resorts recebem hóspedes mais exigentes, como integrantes de convenções empresariais ou estrangeiros maiores de 50. Essa gente valoriza a atenção cerimoniosa. Trata-se ainda de uma clientela que aparece em todas as estações do ano, o que é decisivo para a rentabilidade do negócio. A maior aposta do Costa do Sauípe, por exemplo, é o turismo de eventos, que, pelo cálculo dos empreendedores, deve assegurar a margem de lucro esperada de 16% ao ano. Ou seja, tome convenção em cima de convenção. No verão, elas são bem menos freqüentes, pois a idéia é encher os quartos com clientes empresariais em épocas de baixa estação. Mas vale a pena checar antes. Não está nos cálculos de muitas famílias passar férias num hotel onde oito em cada dez hóspedes são executivos estressados ou corretores de imóveis premiados por seu desempenho nas vendas. Imagine, então, se chover.

O Club Med não é avô apenas dos resorts brasileiros, mas de todo o mundo. No primeiro deles, o Village Club, plantado na praia de Alcudia, na costa espanhola do Mar Mediterrâneo, há cinqüenta anos pelo belga ex-campeão de pólo aquático Gérard Bliz, os hóspedes dormiam em cabanas de lona montadas sob as árvores. Desse tempo, o que ficou foi o conceito do isolamento, cercado agora pelo conforto. No privilegiado litoral de Santa Catarina, o paraíso dos resorts tem o nome de Costão do Santinho. Pode evocar igreja ou terreiro de macumba, mas está entre os mais modernos hotéis brasileiros da categoria dos resorts. Muito freqüentado por argentinos e uruguaios, o Costão do Santinho se preparou para atrair clientela mesmo nos meses frios da Região Sul. Ele oferece um pacote de esportes radicais marítimos para seduzir a turma de jovens que, com seus macacões de neoprene, enfrenta qualquer mar ou clima. Para os menos aventureiros, o resort tem piscina e banheiras de hidromassagem aquecidas instaladas numa área coberta com vista para uma das belas paisagens do litoral sul.

O Brasil turístico passou pela fase dos campings, dos hotéis-fazenda, dos refúgios de montanha sem nunca verdadeiramente ter atingido um nível internacional nessas áreas. Com os resorts está se passando um fenômeno bem mais sólido. Cada um deles que se ergue em algum ponto do litoral tem vocação para atrair turistas estrangeiros. Obter receita em dólar é a aposta básica deles. Com preços semelhantes aos cobrados pelos grandes resorts internacionais, eles esperam atrair, num primeiro momento, os turistas brasileiros, especialmente os de São Paulo. No momento, algo como sete em cada dez hóspedes dos resorts são brasileiros ou visitantes dos países do Mercosul. A expectativa, especialmente nos maiores complexos, é que essa relação se inverta com o tempo. Europeus, americanos e, talvez, até turistas asiáticos podem se animar a atravessar o mundo para pegar uma corzinha no Brasil. Chieko Aoki, uma figura legendária da hotelaria que foi dona da cadeia Caesar Park e da rede internacional Westin, agora se dedica aos resorts. Para isso, obteve o apoio financeiro fabuloso da Funcef, o fundo de pensão dos funcionários da Caixa Econômica Federal. "Para atrair estrangeiros será preciso oferecer serviço e paisagem com que eles realmente se emocionem", diz Chieko.

Para os brasileiros, estressados pelo clima violento das grandes cidades, a sensação de férias com segurança já é um atrativo em si mesmo. E isso os resorts oferecem com eficiência. Do ponto de vista da busca da segurança, resorts são empreendimentos da mesma natureza dos condomínios urbanos fechados. As férias têm outro sabor quando se sabe que ao levantar de manhã não será necessário atravessar o portão para enfrentar o mundo lá fora, aquele mundo que pode ter um risco de vida à espera do incauto na esquina ali da frente. Há outros confortos. Em todos os resorts, monitores cuidam das crianças todo o tempo. Também não é preciso carregar a carteira para pagar as coisas que se vai consumindo durante o dia. É tudo na conta.

Encravada numa área de preservação ambiental, a Praia do Forte, na Bahia, é vizinha de areia do Projeto Tamar, aquele famoso ninhal de tartarugas gigantes, e tem nas imediações outras reservas ecológicas pelas quais o hóspede pode passear a pé ou a cavalo. As construções locais não ultrapassam 12 metros, que é a altura média do coqueiral. Plantam-se cinco novos coqueiros para cada um que seja derrubado, há muito material natural na decoração e a praia não tem luz artificial, para não espantar as tartarugas que desovam na areia à noite.

Os freqüentadores de resorts têm uma devoção de colecionador pelo tema. Falam de detalhes. São exigentes. Como para os bebedores de uísque, não basta dizer que o líquido é escocês. Ele vai querer saber a idade, a região de procedência, a destilaria, o tipo de blend ou se é um puro-malte. Enfim, sua decisão sobre a qualidade vai ser tomada com base em um detalhe que, muito provavelmente, escapa a quem não é do ramo. Os freqüentadores do Transamérica da Ilha de Comandatuba contam com admiração, por exemplo, que no restaurante as travessas de pratos quentes têm sua temperatura tomada periodicamente por uma atendente cuja única missão é assegurar que durante todo o período de refeições os alimentos estejam no ponto ideal. No Club Med, os GOs borrifam água fria nos jogadores de vôlei de praia e distribuem de hora em hora frutas em pedaços para quem está à beira da piscina. Freqüentadores de resort experimentam todas as novidades, mas sempre voltam àquele que consideram seu predileto. Têm lá suas manias. "Todo resort precisa de uns três anos para amadurecer", diz a atriz Carolina Ferraz. "Nos novos nem os coqueiros atingiram a altura ideal que dá sombra e refresca."

 

Clique nas imagens para mais informações sobre os resorts

Blue Tree Park Cabo de Santo Agostinho
Litoral sul de Pernambuco
298 apartamentos em seis níveis de acomodação

SuperClubs Breezes Costa do Sauípe
Litoral norte da Bahia
324 apartamentos em cinco níveis de acomodação

Praia do Forte Eco-Resort
Litoral norte da Bahia
250 apartamentos em três níveis de acomodação

Club Med Itaparica
Baía de Todos os Santos

330 apartamentos em um nível de acomodação
Transamérica Ilha de Comandatuba
Litoral sul da Bahia

370 apartamentos em oito níveis de acomodação
Club Med Rio das Pedras
Litoral sul do Rio de Janeiro
324 apartamentos em três níveis de acomodação
Costão do Santinho
Florianópolis

353 apartamentos em cinco níveis de acomodação

 

Com reportagem de Diogo Schelp, Liége Fuentes,
Nahara Bauchwitz e Ronaldo França

 

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