Sergio Dutti
Com
sete super-hotéis em operação,
mais sete com inauguração marcada, o
Brasil entra no circuito dos paraísos de férias
que oferecem fartura de diversão e
esportes em cenários de cartão-postal
Gisela
Sekeff e Leonardo Coutinho
Com
o dólar a quase 2 reais e o inverno castigando Nova York
e a Europa, mais de 150 000 brasileiros com hábito de carimbar
o passaporte vão gastar parte do orçamento das próximas
férias de verão em refúgios exclusivos do litoral
do país da caipirinha e da moqueca. São os resorts,
um conceito de hotel que se implantou por aqui há pouco tempo.
Os melhores resorts brasileiros, como seus similares famosos em
outros países, parecem enormes navios de cruzeiro ancorados
em recortes paradisíacos da costa. Eles oferecem diversão,
lazer, esportes aquáticos e boa comida mas principalmente
segurança e atendimento de primeira. O hóspede isola-se
do mundo real e mergulha num ambiente em que todos estão
empenhados em garantir satisfação total para toda
a família. O preço é menor que o de uma viagem
ao exterior, mas, em alguns casos, é mais que o dobro do
que pode custar uma temporada de praia em uma casa ou num hotel
convencional. No tradicional Club Med Rio das Pedras, no Rio de
Janeiro, um casal paga 3.496 reais pelo pacote semanal. O tempo
de permanência também é menor. Em geral, fica-se
uma semana num resort. Quem já foi sabe. Quando tudo dá
certo, costuma ser uma experiência inesquecível.
Pelos critérios da Embratur, que classifica como resort o
hotel no qual o turista pode entrar hoje e só colocar novamente
o pé para fora no dia de ir embora, sem precisar sair para
comer ou se divertir, há duas dezenas de opções
desse tipo espalhadas pelo Brasil. Segundo as estimativas, somados,
eles vão receber no decorrer de todo o próximo ano
1,3 milhão de turistas quase a metade dos que viajarão
para o exterior. Quando se fala em resort, os turistas são
bem mais exigentes que a Embratur. Para quem conhece e freqüenta
resorts, é bem menor o número de empreendimentos em
funcionamento no Brasil que merecem essa classificação.
São lugares capazes de atrair levas de turistas estrangeiros
que atravessam oceanos, enfrentam as incertas conexões aéreas
nacionais, rodam por estradas nem sempre muito conservadas e ainda
passam por uma balsa antes de se refestelar numa rede, pedir uma
água-de-coco e esquecer da vida até o dia de fazer
o caminho de volta. No começo do ano, o Brasil tinha seis
resorts de padrão internacional, como os de Cancún,
no México, e os da Polinésia Francesa. Atualmente
tem sete todos visitados pelos repórteres de VEJA
que fizeram esta reportagem. No ano que vem o Brasil ganhará
mais sete de primeiríssima linha. É uma mostra da
procura pelos resorts. Para o réveillon e o Natal, as poucas
vagas restantes estão disponíveis em algumas agências
de viagem. A oferta para o resto do período de férias
de verão é maior.
Como
investimento, os resorts têm uma característica singular.
Exigem o desembolso imediato de uma montanha de dinheiro. São
necessárias dezenas de milhões de dólares para
domar a natureza, garantir uma área de conservação
ao redor do hotel, construir prédios ou chalés com
material que algumas vezes tem de ser levado de barco ou avião
e, principalmente, treinar pessoas para atender com charme, classe
e naturalidade turistas exigentes das mais diferentes nacionalidades.
Uma vez instalado, o resort promete ao investidor um retorno garantido
por décadas a fio sem muitos gastos subseqüentes. O
mesmo não ocorre com os hotéis urbanos, que precisam
ser constantemente reformados e modernizados. Foi esse cálculo
que fizeram os donos do Complexo Turístico Costa do Sauípe,
situado a 76 quilômetros ao norte do aeroporto de Salvador.
Dois hotéis do complexo já estão recebendo
hóspedes. Outros três começam a operar ainda
neste verão. Sauípe espera atrair 200.000 turistas
por ano até 2005. Não é um delírio.
Cancún, com suas dezenas de resorts, hospeda 3 milhões
de veranistas anualmente.
Os preços dos nacionais não são exatamente
populares. Mesmo assim, estima-se que 12 milhões de brasileiros
tenham uma renda familiar capaz de bancar uma semana por ano nessas
ilhas de fantasia ainda que pagando a prazo. O alvo mais
preciso dos resorts são aquelas famílias que conseguem
mandar os filhos para a Disney World nas férias de julho.
Boa aposta. Só neste ano, 400.000 brasileiros foram ver o
Mickey na Flórida. No mais novo desses locais, com roupas
de cama ainda com os vincos das embalagens, a saudável rotina
do descanso e do agito começou há pouco mais de um
mês. No novíssimo SuperClubs Breezes, um dos cinco
hotéis da Costa do Sauípe, no litoral norte da Bahia,
há tantas atividades à disposição dos
hóspedes que os recém-chegados podem ficar meio perdidos.
São quinze quadras de tênis em todo o complexo. O centro
náutico, de 200.000 metros quadrados, tem padrão internacional.
O campo de golfe, com 66 hectares, é convidativo e vai acabar
iniciando muitos brasileiros nesse esporte, que, por enquanto, parece
coisa de gente bastante rica. O preço de 4.634 reais, por
uma semana de hospedagem para duas pessoas, cobre todas as despesas,
até mesmo o consumo de bebidas alcoólicas.
Na
Costa do Sauípe estão sendo inaugurados ainda neste
mês mais um hotel da rede Sofitel e um Renaissance. Em janeiro
abre o Marriott Resort & Spa e desde setembro funcionam no complexo
seis pousadas, com diárias a partir de 180 reais. Elas permitem
usufruir algumas facilidades do resort, mas cobram pela maior parte
dos programas e não têm restaurantes. Em compensação,
ficam na chamada Vila Nova da Praia, que é o centro da agitação
noturna do complexo, com restaurantes, lojas, sorveteria, shows
e dezenas de outras atividades. Parece cenário de gravação
de novela, com aquele artificialismo celebrizado pelo Epcot Center,
da Disney, em Orlando, e levado a sua mais alta expressão
nos hotéis-cassino de Las Vegas, onde se passeia por réplicas
de ruas e praças de Paris e Nova York em que até o
céu é uma contrafação. Estranho mas
agradável, o efeito esperado pelos administradores do resort
é exatamente este: isolar o turista da realidade que ele
deixou ao embarcar rumo a um litoral que ele pensava existir só
em sonho.
Outra característica que permite classificar um complexo
turístico como resort é ter uma cor local, única,
irrepetível. Os melhores resorts têm aquele ar inconfundível
de parque temático. Os brasileiros, nesse particular, estão
muito bem classificados. Cada um dos grandes resorts brasileiros
tem atrativos únicos. Inaugurado há treze anos, o
tradicional Transamérica Ilha de Comandatuba, localizado
no sul da Bahia, perto de Ilhéus, possui seu próprio
aeroporto, com capacidade para receber jatos da dimensão
do Airbus. Um ponto forte do visual de Comandatuba é o jardim
desenhado pelo paisagista americano Edward Stone Jr., que fez projetos
para a Disney. A atmosfera é um pouco formal para um ambiente
de praia. Mas não se vêem hóspedes reclamar
desse detalhe do atendimento, que, aliás, é impecável.
O turista é cercado por centenas de serviçais sorridentes
e prontos para atender a seus pedidos, dispensando indistintamente
a todos, velhos e moços, tratamento de "senhor" e "senhora".
O
formalismo nos resorts pode parecer excessivo para um publicitário
de 28 anos que está a fim de esquecer a tensão por
uma semana em companhia de sua garota, de 22. A questão é
que os resorts recebem hóspedes mais exigentes, como integrantes
de convenções empresariais ou estrangeiros maiores
de 50. Essa gente valoriza a atenção cerimoniosa.
Trata-se ainda de uma clientela que aparece em todas as estações
do ano, o que é decisivo para a rentabilidade do negócio.
A maior aposta do Costa do Sauípe, por exemplo, é
o turismo de eventos, que, pelo cálculo dos empreendedores,
deve assegurar a margem de lucro esperada de 16% ao ano. Ou seja,
tome convenção em cima de convenção.
No verão, elas são bem menos freqüentes, pois
a idéia é encher os quartos com clientes empresariais
em épocas de baixa estação. Mas vale a pena
checar antes. Não está nos cálculos de muitas
famílias passar férias num hotel onde oito em cada
dez hóspedes são executivos estressados ou corretores
de imóveis premiados por seu desempenho nas vendas. Imagine,
então, se chover.
O Club Med não é avô apenas dos resorts brasileiros,
mas de todo o mundo. No primeiro deles, o Village Club, plantado
na praia de Alcudia, na costa espanhola do Mar Mediterrâneo,
há cinqüenta anos pelo belga ex-campeão de pólo
aquático Gérard Bliz, os hóspedes dormiam em
cabanas de lona montadas sob as árvores. Desse tempo, o que
ficou foi o conceito do isolamento, cercado agora pelo conforto.
No privilegiado litoral de Santa Catarina, o paraíso dos
resorts tem o nome de Costão do Santinho. Pode evocar igreja
ou terreiro de macumba, mas está entre os mais modernos hotéis
brasileiros da categoria dos resorts. Muito freqüentado por
argentinos e uruguaios, o Costão do Santinho se preparou
para atrair clientela mesmo nos meses frios da Região Sul.
Ele oferece um pacote de esportes radicais marítimos para
seduzir a turma de jovens que, com seus macacões de neoprene,
enfrenta qualquer mar ou clima. Para os menos aventureiros, o resort
tem piscina e banheiras de hidromassagem aquecidas instaladas numa
área coberta com vista para uma das belas paisagens do litoral
sul.
O
Brasil turístico passou pela fase dos campings, dos hotéis-fazenda,
dos refúgios de montanha sem nunca verdadeiramente ter atingido
um nível internacional nessas áreas. Com os resorts
está se passando um fenômeno bem mais sólido.
Cada um deles que se ergue em algum ponto do litoral tem vocação
para atrair turistas estrangeiros. Obter receita em dólar
é a aposta básica deles. Com preços semelhantes
aos cobrados pelos grandes resorts internacionais, eles esperam
atrair, num primeiro momento, os turistas brasileiros, especialmente
os de São Paulo. No momento, algo como sete em cada dez hóspedes
dos resorts são brasileiros ou visitantes dos países
do Mercosul. A expectativa, especialmente nos maiores complexos,
é que essa relação se inverta com o tempo.
Europeus, americanos e, talvez, até turistas asiáticos
podem se animar a atravessar o mundo para pegar uma corzinha no
Brasil. Chieko Aoki, uma figura legendária da hotelaria que
foi dona da cadeia Caesar Park e da rede internacional Westin, agora
se dedica aos resorts. Para isso, obteve o apoio financeiro fabuloso
da Funcef, o fundo de pensão dos funcionários da Caixa
Econômica Federal. "Para atrair estrangeiros será preciso
oferecer serviço e paisagem com que eles realmente se emocionem",
diz Chieko.
Para os brasileiros, estressados pelo clima violento das grandes
cidades, a sensação de férias com segurança
já é um atrativo em si mesmo. E isso os resorts oferecem
com eficiência. Do ponto de vista da busca da segurança,
resorts são empreendimentos da mesma natureza dos condomínios
urbanos fechados. As férias têm outro sabor quando
se sabe que ao levantar de manhã não será necessário
atravessar o portão para enfrentar o mundo lá fora,
aquele mundo que pode ter um risco de vida à espera do incauto
na esquina ali da frente. Há outros confortos. Em todos os
resorts, monitores cuidam das crianças todo o tempo. Também
não é preciso carregar a carteira para pagar as coisas
que se vai consumindo durante o dia. É tudo na conta.
Encravada numa área de preservação ambiental,
a Praia do Forte, na Bahia, é vizinha de areia do Projeto
Tamar, aquele famoso ninhal de tartarugas gigantes, e tem nas imediações
outras reservas ecológicas pelas quais o hóspede pode
passear a pé ou a cavalo. As construções locais
não ultrapassam 12 metros, que é a altura média
do coqueiral. Plantam-se cinco novos coqueiros para cada um que
seja derrubado, há muito material natural na decoração
e a praia não tem luz artificial, para não espantar
as tartarugas que desovam na areia à noite.
Os
freqüentadores de resorts têm uma devoção
de colecionador pelo tema. Falam de detalhes. São exigentes.
Como para os bebedores de uísque, não basta dizer
que o líquido é escocês. Ele vai querer saber
a idade, a região de procedência, a destilaria, o tipo
de blend ou se é um puro-malte. Enfim, sua decisão
sobre a qualidade vai ser tomada com base em um detalhe que, muito
provavelmente, escapa a quem não é do ramo. Os freqüentadores
do Transamérica da Ilha de Comandatuba contam com admiração,
por exemplo, que no restaurante as travessas de pratos quentes têm
sua temperatura tomada periodicamente por uma atendente cuja única
missão é assegurar que durante todo o período
de refeições os alimentos estejam no ponto ideal.
No Club Med, os GOs borrifam água fria nos jogadores de vôlei
de praia e distribuem de hora em hora frutas em pedaços para
quem está à beira da piscina. Freqüentadores
de resort experimentam todas as novidades, mas sempre voltam àquele
que consideram seu predileto. Têm lá suas manias. "Todo
resort precisa de uns três anos para amadurecer", diz a atriz
Carolina Ferraz. "Nos novos nem os coqueiros atingiram a altura
ideal que dá sombra e refresca."
Com
reportagem de Diogo Schelp, Liége Fuentes,
Nahara Bauchwitz e Ronaldo França

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