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Foto NASA

Bia Barbosa

NASA/AFP
NASA/AP
Nas crateras (quatro delas) de Marte (no topo) foram fotografadas formações espetaculares (à dir.): rastros de água no solo

Cada vez que algum cientista quer informações precisas sobre o passado remoto da Terra, procura rochas antigas que guardem sinais de eras longínquas. É exatamente isso que os pesquisadores da Nasa, a agência espacial americana, estão fazendo nos estudos que realizam em Marte com a sonda Mars Global Surveyor. Na semana passada, uma equipe de astrônomos, geólogos e especialistas em processamento de imagens revelou fotografias espetaculares de várias crateras marcianas, tiradas pela nave a uma altitude média de 370 quilômetros. São retratos de ranhuras, desfiladeiros e vales com uma definição nunca vista antes, em que facilmente se percebem diversas camadas de sedimentos depositados nos últimos 3,5 bilhões de anos. Pela configuração peculiar desse relevo, os pesquisadores acreditam tratar-se de leitos de antigos lagos e mares, que teriam sido bastante comuns numa paisagem hoje ressequida e arenosa. Mais: se a vida existiu algum dia em Marte, seus vestígios serão encontrados também nesses lugares. Há seis meses, a mesma equipe declarou ter detectado sinais de existência de água subterrânea no planeta. As novas fotografias reforçam a hipótese de que há bilhões de anos Marte foi bem parecido com a Terra.

Os cientistas escolheram a dedo as regiões recém-fotografadas. Desde que a sonda Mariner 9 entrou na órbita de Marte, há três décadas, e tirou as primeiras fotografias do planeta, percebeu-se que havia algo de interessante em alguns pontos, como a região conhecida por Vale Marineris, próxima ao equador do planeta. As fotos eram muito precárias, mas davam sinais de que as rochas sedimentares estavam por lá. Com a capacidade de identificar desde sua órbita objetos do tamanho de um ônibus, a câmara Mars Orbiter conseguiu imagens comparáveis às fotos aéreas tiradas por geólogos para planejar a exploração de rochas sedimentares na Terra. Alguns dos desfiladeiros analisados chegam a ter 3 quilômetros de altura com centenas de camadas de sedimentos acumuladas no decorrer dos séculos. Somente na região do Desfiladeiro de Candor, há mais de 100 formações geológicas desse tipo, cada uma com camadas horizontais de espessura quase idêntica. Esse padrão uniforme, repetido muitas vezes, mostra que a deposição dos sedimentos foi interrompida em intervalos regulares. "São tão uniformes que é impossível que se tenham formado sem a ajuda da água", explica Michael Malin, um dos coordenadores do estudo.

Ainda faltam muitas peças no imenso quebra-cabeça que é o passado geológico marciano. Os cientistas têm de descobrir de onde vieram originalmente os sedimentos depositados em camadas e como foram transportados para o lugar onde estão hoje. Eles ainda não conseguiram identificar rastros de correntes e canais próximos desses desfiladeiros. Acredita-se que esses antigos rios tenham sido apagados do solo marciano pela erosão. Mas, mesmo com as evidências fotográficas, ainda é grande o número de astrônomos e geólogos céticos em relação à hipótese de a água ter existido em Marte. Eles dizem que as peculiaridades atmosféricas do planeta podem ter aumentado a capacidade do ar de carregar de um lado para outro a poeira produzida por impactos mais fortes. Com isso, as espetaculares formações teriam sido feitas a seco mesmo. "Essas discussões tornam Marte cada vez mais enigmático e ao mesmo tempo mais atraente", diz Kenneth Edgett, que conduziu as pesquisas com Malin. A Nasa deve usar as novas imagens para estabelecer os alvos de futuras missões. Uma sonda, a Mars Odyssey, será enviada no próximo ano. Depois seguirão duas naves-robôs, que pousam no planeta em 2003. A agência espacial americana planeja ainda lançar em cinco anos outra potente sonda somente para procurar água. Mas atingir qualquer uma das regiões detalhadas nas fotos não será tarefa fácil. Crateras e precipícios são terrenos desaconselhados para pouso. Mesmo quando se usa o mais resistente equipamento, são grandes as probabilidades de ele se esborrachar contra um paredão.

 

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