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De gênio e louco...

Nobel chega à 97ª premiação com histórico
de muitos acertos e algumas gafes terríveis

Quando Alfred Nobel, o inventor da dinamite, usou sua imensa fortuna para criar um prêmio internacional para cientistas e escritores, queria que fosse o mais importante de todo o planeta. O Prêmio Nobel, cuja 97ª edição será entregue em festa de gala neste domingo, tornou-se realmente um símbolo olímpico do que há de melhor na produção científica do século XX. Concedido a estrelas de primeira grandeza como Albert Einstein, tem respeitabilidade suficiente para transformar em semideuses os laureados. "Os premiados viram automaticamente sábios universais, são convidados a falar sobre pobreza, crime, religião, política ou arte", resume o historiador Burton Feldman no livro Prêmio Nobel: Uma História de Gênios, Controvérsia e Prestígio, que acaba de ser lançado nos Estados Unidos. Isso funciona muito bem se o agraciado conserva intacto seu prestígio científico ou se dedica a obras meritórias. É o caso de Linus Pauling, Nobel de Química em 1954 e da Paz em 1962 por sua oposição à bomba de hidrogênio. Não é raro, porém, o premiado revelar-se um falastrão ou expor o lado negro de sua personalidade.

A mais importante das medalhas sempre esteve cercada de disputas pouco nobres, controvérsias e fofocas. Continua prestigiada como nunca, ditando os rumos da ciência moderna. Mas não tem como apagar de sua história que seus organizadores já honraram cientistas que não mereciam, desprezaram outros por puro preconceito e alimentaram vaidades que se tornaram perigosamente danosas à ciência. O Nobel tem o mérito de destacar o avanço do conhecimento. Também serve, contudo, para lembrar que muitas vezes se considerou como supra-sumo da ciência algo que mais tarde seria reputado como bobagem. O português Antonio Egas Moniz foi premiado por ter inventado a lobotomia, uma técnica que mutilou milhares de pessoas e hoje está totalmente desacreditada. Outro foi premiado por sustentar que a sífilis podia ser tratada infectando-se o paciente com malária, uma asneira. Premiado aos 34 anos pela descoberta da configuração da molécula de DNA, o americano James Watson poucas vezes voltou a um laboratório para fazer pesquisa. Mas o Nobel serviu-lhe de plataforma para uma carreira de conferencista, em que expõe como verdades científicas especulações excêntricas. Há alguns anos, no início do Projeto Genoma Humano, que dirigiu por curto período, disse que o Japão deveria ser bombardeado de novo por hesitar em apoiar a colossal pesquisa, concluída em junho. Neste ano, se pôs a sustentar, sem nenhuma comprovação sólida, que o sol é um potente afrodisíaco. Isso significa, segundo ele, que latinos, por serem mais morenos, são mais propensos ao ato sexual que os branquelos anglo-saxões.

O físico americano William Shockley levou a medalha em 1956 por inventar o transistor. Revelou-se então um racista militante. No fim dos anos 60, dedicou-se a provar, por meio de testes, que era possível que os negros fossem menos inteligentes que os brancos. Fundamentava-se numa teoria genética completamente torta: como os negros tinham prole mais numerosa, estariam regredindo do ponto de vista evolutivo. Entre outros absurdos, defendeu que pessoas de QI baixo deveriam ser estimuladas a passar por cirurgias de esterilização para não legar burrice às gerações futuras. Em 1980, aos 70 anos, voltou ao noticiário por ter doado sêmen a uma clínica interessada em vender espermatozóides de gênios para serem usados em inseminação artificial. Shockley morreu em 1989 e a clínica fechou em 1997 sem que nunca se tivesse notícia de algum bebê que tenha nascido de sua doação.

Parte da aura do Nobel se deve ao mistério que cerca a escolha, feita por um seleto grupo de acadêmicos escandinavos. Não discutem candidatos em público e suas decisões uma vez divulgadas são irrevogáveis, aconteça o que acontecer. Na cerimônia, a medalha de ouro, o diploma e o cheque de quase 1 milhão de dólares vêm das mãos do rei da Suécia, Carlos Gustavo, o que confere um caráter ainda mais aristocrático ao prêmio. Pelo menos uma vez, o marido da rainha Silvia deu a mão a um cientista (Daniel Carleton Gajdusek, Nobel de Medicina em 1976) que seria acusado de pedofilia vinte anos depois de re Desde cedo, os acadêmicos escandinavos davam seus escorregões. Em 1912 preteriram o genial Max Planck, um dos pais da física moderna, para premiar o sueco e anônimo Nils Dalén, criador de um novo sistema para faróis de iluminação costeira. Corrigiram o erro seis anos depois, em 1918, ao premiar Planck.

Nesse ano, cometeram outra gafe de proporções colossais. Eles laurearam o químico alemão Fritz Haber, inventor da bomba de gás venenoso que matou milhares de pessoas na I Guerra. Haber levou a medalha porque a técnica também era útil para produzir adubos. "Em tempos de paz, o cientista pertence ao mundo; na guerra, à sua nação", costumava dizer. O constrangimento foi tão grande que a família real sueca não compareceu à premiação. Dois anos depois, em sua obsessão por ajudar a Alemanha a se pôr em pé, Haber tentou arrumar um jeito para tirar ouro do fundo do mar para pagar as reparações devidas a outros países. É lógico que não conseguiu nada. Com o ego inflado por um Nobel, acabou se transformando num dos primeiros cientistas a sofrer de frustração provocada por um desmedido excesso de autoconfiança.

 

Daniel Carleton Gajdusek
Medicina, 1976

Quando fez suas pesquisas em virologia
na Micronésia, convidou vários meninos para morar nos Estados Unidos. Foi condenado em 1997, acusado de abusar sexualmente de um deles.



Kary Mullis
Química, 1993

Mullis foi premiado por multiplicar
amostras de DNA e criar o
método PCR.
Mas perdeu a
credibilidade ao endossar a hipótese de que o HIV não provoca a Aids.



James Watson
Medicina, 1962

Aos 72 anos, Watson ainda provoca polêmicas quando abre a boca. Já sugeriu que o Japão voltasse a ser bombardeado e que as pessoas tomassem mais sol para melhorar seu desempenho sexual.



William Shockley
Física, 1956

Criador do transistor, Shockley assombrou os colegas ao sustentar que os negros tinham QI inferior ao dos brancos e ao propor que as pessoas de menor inteligência fossem esterilizadas.



Antonio Egas Moniz
Medicina, 1949

Criou a lobotomia, uma operação que mutilava o cérebro para curar a ansiedade e os problemas de comportamento. Era tão cruel, controversa e ineficaz que foi abandonada pelos médicos.

 

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