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Meu guru é um filósofo

Montagem de Pepe Casals sobre foto de Olympio/ AP



Quer um guru? Norberto Bobbio. É um filósofo italiano. Tem 91 anos. Nesses 91 anos, sempre esteve do lado certo. Isso mesmo: nas escolhas fundamentais, nunca errou. Durante o fascismo, foi antifascista. Depois da II Guerra Mundial, foi socialista e anticomunista. Quando os socialistas foram pegos em flagrante, roubando desesperadamente, ele já estava, havia muito tempo, afastado do partido. Na semana passada, Bobbio deu uma entrevista dizendo que derrotar a direita italiana, nas eleições de 2001, é um "dever moral". A atriz Kim Basinger também disse algo semelhante, ameaçando abandonar os Estados Unidos em caso de vitória de Bush. Mas uma declaração de voto de Bobbio não equivale a uma de Kim Basinger ou à de um ator de novela brasileira. Se Bobbio diz um troço, é melhor segui-lo. Eu já disse: o homem acerta sempre. Um dos motivos de alarme para Bobbio é o governador da região do Lazio, que pertence à coligação de direita. Esse governador anunciou que pretendia criar uma comissão encarregada de reescrever os livros de História usados nas escolas do Lazio. De acordo com ele, os livros são marxistas e facciosos na análise do período fascista. O que os revisionistas de direita querem é equiparar os voluntários que combatiam o nazismo aos que o defendiam. Com o argumento furado de que houve vítimas inocentes dos dois lados.

Outro motivo de alarme para Bobbio é o clericalismo da direita. Exemplo: o atual ministro da Saúde italiano é um respeitado oncologista chamado Umberto Veronesi. Ele raciocina como médico, não como político. Por isso, vive assumindo posições em contraste com as do Vaticano. Ele é a favor da pílula abortiva, da experimentação com embriões humanos, da distribuição controlada de heroína, da administração de maconha nos tratamentos quimioterápicos. Recentemente, no Dia Mundial de Combate à Aids, Veronesi reclamou que o preço das camisinhas era alto demais. O Vaticano chiou, recordando que é proibido aos católicos usar camisinha. Até mesmo quando há risco de contágio por HIV. E a direita apóia.

A propósito do eterno conflito entre clericalismo e ciência, a Igreja voltou a organizar encontros para discutir a autenticidade do Santo Sudário. Ou seja: as manchas no lençol realmente foram deixadas pelo corpo de Cristo? Em 1988, laboratórios de Oxford, Tucson e Zurique pareciam ter esclarecido definitivamente a questão, datando o tecido do Santo Sudário entre 1260 e 1390. Na verdade, nem era preciso apelar para a ciência. O Santo Sudário apareceu pela primeira vez em 1354, na França. Quando o bispo de Troyes o enviou ao papa, disse que o tecido havia sido "pintado artificialmente de maneira engenhosa". Em 1389, o papa Clemente VII permitiu a exibição do Sudário, com a ordem de "dizer em alta voz, para impedir fraudes, que a dita representação não é o verdadeiro Sudário de Jesus Cristo, mas uma imitação do Sudário". O simples fato de discutir a autenticidade do Sudário, portanto, já é uma extravagância. Mas a História é meio tonta. É fácil enganá-la, ludibriá-la, retorcê-la de um lado e do outro. Bobbio tem razão em se preocupar com aqueles que querem manipular a História. Bobbio sempre tem razão.

 

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