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Outro motivo de alarme para Bobbio é o clericalismo da direita. Exemplo: o atual ministro da Saúde italiano é um respeitado oncologista chamado Umberto Veronesi. Ele raciocina como médico, não como político. Por isso, vive assumindo posições em contraste com as do Vaticano. Ele é a favor da pílula abortiva, da experimentação com embriões humanos, da distribuição controlada de heroína, da administração de maconha nos tratamentos quimioterápicos. Recentemente, no Dia Mundial de Combate à Aids, Veronesi reclamou que o preço das camisinhas era alto demais. O Vaticano chiou, recordando que é proibido aos católicos usar camisinha. Até mesmo quando há risco de contágio por HIV. E a direita apóia. A propósito do eterno conflito entre clericalismo e ciência, a Igreja voltou a organizar encontros para discutir a autenticidade do Santo Sudário. Ou seja: as manchas no lençol realmente foram deixadas pelo corpo de Cristo? Em 1988, laboratórios de Oxford, Tucson e Zurique pareciam ter esclarecido definitivamente a questão, datando o tecido do Santo Sudário entre 1260 e 1390. Na verdade, nem era preciso apelar para a ciência. O Santo Sudário apareceu pela primeira vez em 1354, na França. Quando o bispo de Troyes o enviou ao papa, disse que o tecido havia sido "pintado artificialmente de maneira engenhosa". Em 1389, o papa Clemente VII permitiu a exibição do Sudário, com a ordem de "dizer em alta voz, para impedir fraudes, que a dita representação não é o verdadeiro Sudário de Jesus Cristo, mas uma imitação do Sudário". O simples fato de discutir a autenticidade do Sudário, portanto, já é uma extravagância. Mas a História é meio tonta. É fácil enganá-la, ludibriá-la, retorcê-la de um lado e do outro. Bobbio tem razão em se preocupar com aqueles que querem manipular a História. Bobbio sempre tem razão.
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