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Edição 1 777 - 13 de novembro de 2002
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Sobre os partidos,
depois da eleição

PSDB e PT encenam um
bipartidarismo de fato,
PFL e PMDB precisam de
um
porteiro na entrada

Já há três eleições, a disputa presidencial se dá entre PT e PSDB, o PT sempre com Luiz Inácio Lula da Silva e o PSDB com Fernando Henrique Cardoso, duas vezes, e José Serra na terceira. Não é por acaso. São os dois únicos partidos que exibem um projeto nacional. Ao PFL e ao PMDB, os outros dois partidos grandes, não tem restado senão acoplar-se ao projeto dos outros. Desenhou-se um bipartidarismo de fato no plano da disputa presidencial.

Até onde a vista alcança, só uma empreitada do gênero cavaleiro solitário, como foi a de Fernando Collor, treze anos atrás, ou, de certa forma, a de Ciro Gomes, agora – de alguém que, com destemor e caradurismo, sorte e uma dose de carisma, se apresente como "novidade", como descompromissado renovador da política, audaz combatente da mesmice –, seria capaz de romper o predomínio dos dois partidos e interromper-lhes uma série que ameaça prolongar-se. Mesmo assim, não se vislumbra como semelhante franco-atirador, depois de eleger-se, possa governar sem o amparo de um dos dois partidos – só eles têm os quadros, as idéias e as bases sociais capazes de viabilizar uma gestão em nível nacional. Sendo assim, se há essa exclusividade, entre PT e PSDB, dos meios para exercer o poder nacional, e se, em conseqüência, desenhou-se, na política nacional – e mesmo na política de alguns dos principais Estados –, uma polaridade entre os dois, nada mais natural que, quando um salta para o pólo do governo, o outro salte para o da oposição.

Especulou-se, nos últimos meses, sobre um governo de aliança entre PT e PSDB. Analistas de respeito, como o brilhante Eduardo Giannetti da Fonseca, o preconizaram. Assentadas as coisas, percebe-se que, a não ser num quadro de grave crise, ou, mais que isso, de comoção nacional, em que se imponha um governo de união do tipo dos que se fazem em Israel, tal aliança é impossível. Por uma razão singela: PT e PSDB são partidos fortes demais, senhores demais de si mesmos, e rivais demais, um do outro, para se conformarem um ao papel de segundo do outro. Os dois só aceitam mandar. É verdade que os dois têm pontos em comum. O principal é serem ambos partidos do avanço, contra o atraso do fisiologismo, do clientelismo e do coronelismo. Mas política é poder. A briga é de poder. Sendo assim, o lugar de um sempre tem de ser aquele que não está ocupado pelo outro. Talvez, como anunciam seus próceres, inclusive o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso, o PSDB não venha a fazer ao PT oposição tão cerrada quanto o PT lhe fez. Mas, assim como o PT estabeleceu-se como o núcleo duro da oposição ao PSDB, no governo que se finda, cabe ao PSDB, pela ordem natural das coisas, instituir-se em núcleo duro da oposição ao PT, naquele que se iniciará em janeiro.

O PT é o mais importante partido brasileiro. Já era, em termos qualitativos: o mais organizado, o mais consistente, o mais disciplinado. Depois das últimas eleições, é o mais importante também em termos quantitativos. O PT não só ganhou a Presidência e aumentou consideravelmente a bancada no Congresso. Também teve desempenho nada menos que portentoso nas eleições para governador, apesar de ter ganhado poucas delas. O que mais se tem enfatizado é o fato de ter vencido só em Mato Grosso do Sul, no Piauí e no Acre. Feitas as contas, porém, verifica-se que, somadas as votações dos oito candidatos que conseguiu colocar no segundo turno, nos Estados e no Distrito Federal, se chega a 15 975 055 votos. Esse total é apenas pouco menor que os 16 804 172 do PSDB, e maior que a soma dos votos de todos os outros partidos, sempre tendo como parâmetro o segundo turno das eleições nos Estados. O PT perdeu por muito pouco no Ceará, Pará e Distrito Federal. Foi para o segundo turno em São Paulo, desbancando o malufismo e consolidando, aí também, o quadro de polaridade com o PSDB. Teve a segunda votação também em Minas, apesar de não se ter classificado para o segundo turno, e, na Bahia, impôs-se como principal adversário do carlismo.

O PT, com seu crescimento constante, eleição após eleição, apresenta um desafio aos demais partidos. Ou investem, também eles, em organização e coerência, ou se condenam ao abismo. O PSDB se salva, por apresentar uma proposta discernível e pela qualidade de seus quadros. Já o PFL e o PMDB, para ter alguma chance de sobrevida, poderiam começar por controlar a porta de entrada. O PFL já teve em suas fileiras um homem que fazia picadinho dos inimigos. E é representado, no Espírito Santo, por gente suspeita de dupla militância: meio período no partido e meio no crime organizado. O senador Bornhausen passou a campanha a olhar para cima, na patética busca de uma saída para a orfandade do partido na eleição presidencial. Poderia passar a olhar para baixo, no esforço de selecionar melhor os correligionários. Seria um começo. Equivaleria a ameaçar o PT num terreno, o da ética, em que, aos olhos do eleitorado, é campeão.

   
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