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Sobre
os partidos,
depois da eleição
PSDB
e PT encenam
um
bipartidarismo
de
fato,
PFL
e PMDB precisam
de
um porteiro
na
entrada
Já há três eleições, a disputa presidencial
se dá entre PT e PSDB, o PT sempre com Luiz Inácio Lula
da Silva e o PSDB com Fernando Henrique Cardoso, duas vezes, e José
Serra na terceira. Não é por acaso. São os dois únicos
partidos que exibem um projeto nacional. Ao PFL e ao PMDB, os outros dois
partidos grandes, não tem restado senão acoplar-se ao projeto
dos outros. Desenhou-se um bipartidarismo de fato no plano da disputa
presidencial.
Até onde a vista alcança, só uma empreitada do gênero
cavaleiro solitário, como foi a de Fernando Collor, treze anos
atrás, ou, de certa forma, a de Ciro Gomes, agora de alguém
que, com destemor e caradurismo, sorte e uma dose de carisma, se apresente
como "novidade", como descompromissado renovador da política, audaz
combatente da mesmice , seria capaz de romper o predomínio
dos dois partidos e interromper-lhes uma série que ameaça
prolongar-se. Mesmo assim, não se vislumbra como semelhante franco-atirador,
depois de eleger-se, possa governar sem o amparo de um dos dois partidos
só eles têm os quadros, as idéias e as bases
sociais capazes de viabilizar uma gestão em nível nacional.
Sendo assim, se há essa exclusividade, entre PT e PSDB, dos meios
para exercer o poder nacional, e se, em conseqüência, desenhou-se,
na política nacional e mesmo na política de alguns
dos principais Estados , uma polaridade entre os dois, nada mais
natural que, quando um salta para o pólo do governo, o outro salte
para o da oposição.
Especulou-se, nos últimos meses, sobre um governo de aliança
entre PT e PSDB. Analistas de respeito, como o brilhante Eduardo Giannetti
da Fonseca, o preconizaram. Assentadas as coisas, percebe-se que, a não
ser num quadro de grave crise, ou, mais que isso, de comoção
nacional, em que se imponha um governo de união do tipo dos que
se fazem em Israel, tal aliança é impossível. Por
uma razão singela: PT e PSDB são partidos fortes demais,
senhores demais de si mesmos, e rivais demais, um do outro, para se conformarem
um ao papel de segundo do outro. Os dois só aceitam mandar. É
verdade que os dois têm pontos em comum. O principal é serem
ambos partidos do avanço, contra o atraso do fisiologismo, do clientelismo
e do coronelismo. Mas política é poder. A briga é
de poder. Sendo assim, o lugar de um sempre tem de ser aquele que não
está ocupado pelo outro. Talvez, como anunciam seus próceres,
inclusive o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso, o PSDB
não venha a fazer ao PT oposição tão cerrada
quanto o PT lhe fez. Mas, assim como o PT estabeleceu-se como o núcleo
duro da oposição ao PSDB, no governo que se finda, cabe
ao PSDB, pela ordem natural das coisas, instituir-se em núcleo
duro da oposição ao PT, naquele que se iniciará em
janeiro.
O
PT é o mais importante partido brasileiro. Já era, em termos
qualitativos: o mais organizado, o mais consistente, o mais disciplinado.
Depois das últimas eleições, é o mais importante
também em termos quantitativos. O PT não só ganhou
a Presidência e aumentou consideravelmente a bancada no Congresso.
Também teve desempenho nada menos que portentoso nas eleições
para governador, apesar de ter ganhado poucas delas. O que mais se tem
enfatizado é o fato de ter vencido só em Mato Grosso do
Sul, no Piauí e no Acre. Feitas as contas, porém, verifica-se
que, somadas as votações dos oito candidatos que conseguiu
colocar no segundo turno, nos Estados e no Distrito Federal, se chega
a 15 975 055 votos. Esse total é apenas pouco menor que os 16 804
172 do PSDB, e maior que a soma dos votos de todos os outros partidos,
sempre tendo como parâmetro o segundo turno das eleições
nos Estados. O PT perdeu por muito pouco no Ceará, Pará
e Distrito Federal. Foi para o segundo turno em São Paulo, desbancando
o malufismo e consolidando, aí também, o quadro de polaridade
com o PSDB. Teve a segunda votação também em Minas,
apesar de não se ter classificado para o segundo turno, e, na Bahia,
impôs-se como principal adversário do carlismo.
O PT, com seu crescimento constante, eleição após
eleição, apresenta um desafio aos demais partidos. Ou investem,
também eles, em organização e coerência, ou
se condenam ao abismo. O PSDB se salva, por apresentar uma proposta discernível
e pela qualidade de seus quadros. Já o PFL e o PMDB, para ter alguma
chance de sobrevida, poderiam começar por controlar a porta de
entrada. O PFL já teve em suas fileiras um homem que fazia picadinho
dos inimigos. E é representado, no Espírito Santo, por gente
suspeita de dupla militância: meio período no partido e meio
no crime organizado. O senador Bornhausen passou a campanha a olhar para
cima, na patética busca de uma saída para a orfandade do
partido na eleição presidencial. Poderia passar a olhar
para baixo, no esforço de selecionar melhor os correligionários.
Seria um começo. Equivaleria a ameaçar o PT num terreno,
o da ética, em que, aos olhos do eleitorado, é campeão.
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