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Edição 1 777 - 13 de novembro de 2002
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Para curar a dor

Anos depois do assassinato de sua
noiva, o diretor
Brad Silberling faz
uma "autobiografia emocional"

Isabela Boscov

 
Gyllenhaal, Hoffman e Susan, em Vida que Segue:
a perda que une


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Em 1989, a noiva do diretor Brad Silberling – a atriz Rebecca Schaeffer, de 21 anos – foi morta a tiros na porta de sua própria casa por um fã obcecado que obtivera seu endereço no departamento de trânsito. Silberling mal conhecia os pais de Rebecca, mas, na esteira da tragédia, os três se tornaram íntimos. "Nosso relacionamento foi de zero a 100 em alguns dias. Para mim, o pai e a mãe de Rebecca eram como uma versão em estéreo dela – a personalidade, o humor, estava tudo lá", diz o diretor. Juntos, os três reagiram à perda fazendo uma bem-sucedida campanha por leis que restringissem com mais eficácia o acesso de pessoas como o assassino de Rebecca a informações sobre suas vítimas. Agora, Silberling, de 39 anos, completa essa etapa com o que chama de uma "autobiografia emocional". Vida que Segue (Moonlight Mile, Estados Unidos, 2002), que estréia nesta sexta-feira no país, trata dos vínculos complexos que se formam entre o casal de meia-idade Benjamin e Jo-Jo (Dustin Hoffman e Susan Sarandon) e Joe (Jake Gyllenhaal), o noivo de sua filha única, quando esta é assassinada pelo marido ciumento de uma garçonete simplesmente por estar ao lado da moça. Joe se muda para a casa dos sogros, compartilha com eles as miudezas do dia-a-dia e até entra no ramo de imóveis com Benjamin. Ocupa, ao mesmo tempo, dois lugares: o da filha perdida e o do filho que nunca houve. Joe se acomoda na situação por compaixão e por não ter a menor idéia de que rumo dar à vida. Os seus sogros, por sua vez, se apossam do rapaz, numa tentativa de adiar o luto e torná-lo suportável.

Vida que Segue se rende a muitas das armadilhas comuns a esse tema – por exemplo, a inevitável cena climática de tribunal e as desavenças criadas pela entrada de uma outra moça na vida de Joe. Em contrapartida, Silberling conhece em primeira mão as tábuas de salvação a que as pessoas se agarram diante de uma perda tão inconsolável. Por isso, não faltam a seu filme humor e mesmo uma certa nostalgia. Passado no início dos anos 70, Vida que Segue faz excelente uso de canções da época, a começar pela balada dos Rolling Stones que empresta ao filme seu título original. E não por acaso o personagem de Dustin Hoffman se chama Benjamin, como o que ele interpretou em 1967 em A Primeira Noite de um Homem, no qual entrava aos trancos e barrancos no mundo adulto. Na visão de Silberling, também a perda é, à sua maneira, um rito de passagem.

   
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