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Edição 1 777 - 13 de novembro de 2002
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Os novos marinheiros

A vida num barco tem muito lazer,
pouco conforto e alguns perigos

Adriana Negreiros

 
Fernando Vivas
Helio Magalhães
Os casais Sandra e Hélio (à esq.) e Geraldo e Valéria: pouca roupa a bordo, para economizar espaço, e viagem de seis anos ao redor do mundo

Em abril passado, o casal carioca Geraldo Ormerod, de 57 anos, e Valéria Bueno, de 52, despediu-se dos filhos para iniciar um passeio de veleiro. O roteiro: África, Europa, América do Norte e Caribe. O tempo da viagem: seis anos. Mais de 30.000 famílias também estão nos oceanos neste momento, morando em barcos, dividindo espaços exíguos, cozinhando no balanço das ondas, dando duro com motores e cordas – mas ao mesmo tempo se divertindo e conhecendo muitas das paisagens mais bonitas do planeta. O conforto é pouco, mas o quintal muda todos os dias, gostam de ressaltar os cruzeiristas, como são chamados esses viajantes. Na melhor das hipóteses, pode-se ter a bordo cama, banheiro, minigeladeira, fogão, armários de mantimentos e, com muita sofisticação, computador, máquina de lavar roupa e DVD. Energia solar ou gerada por bateria alimenta os aparelhos elétricos.

O típico cruzeirista é um ex-estressado. Alguém que, cansado da correria das grandes cidades, resolveu mudar radicalmente de vida. Bom exemplo é o jornalista Walter Garcia, 39 anos, que há cinco mora no veleiro Sindbad com a mulher, Cristiane, 34 anos, e a filha, Mayara, de 8 anos. Ele trabalhava tanto, inclusive nos fins de semana, que a filha pequena o rejeitava como um desconhecido. No pior momento, teve um choque anafilático ao se internar para cuidar do stress. Aí pediu demissão, aprendeu a navegar, juntou as economias e convenceu a mulher, psicóloga, a fechar sua clínica. A filha passou a estudar pela internet, em escolas que oferecem ensino a distância. A bordo, Garcia opera uma espécie de agência de notícias, distribuindo informações sobre os locais que visita. Mas o que eles mais fazem mesmo é turismo. Há poucos dias, depois de uma temporada no litoral cearense, partiram para o Maranhão.

Geraldo e Valéria Ormerod também trocaram seu casarão de 400 metros quadrados pelos 9 do barco Vadyo só para fugir da vida urbana. Economista, pós-graduado em administração financeira, ele havia sido executivo de multinacional. Ela tocava uma loja de roupas. Terno, para ele, e sapato alto, para ela, eram uniformes – peças que doaram a entidades filantrópicas. "Não precisamos desse tipo de roupa no barco, e muito menos para andar de ônibus nas cidades onde paramos", diz Valéria. O casal gastou 60.000 dólares na compra do barco e nos preparativos para a viagem, incluindo cursos de primeiros socorros e compra de material de bordo. O veleiro tem um instrumento chamado epirb, espécie de alarme que, ao ser disparado, aciona um serviço de resgate dos Estados Unidos que mantém equipes em todo o mundo. De passagem na última semana por Salvador, o casal planeja estar em Nova York no próximo Natal.


Átila Bohm
Átila e a filha Erica: tropeços em terra firme e andar firme na embarcação


Uma embarcação que permita esse tipo de aventura não custa menos de 20.000 dólares. Uma simples janelinha para refrescar as noites de sono pode ultrapassar os 1.000 dólares. Comida e água se compram em grandes quantidades e, para frutas e legumes, é preciso saber escolher muitos produtos ainda verdes, que amadureçam depois de um certo tempo de viagem. Com tanta coisa a armazenar, o espaço é o elemento mais valioso dentro do barco. Velejadores geralmente só têm um par de tênis, para não ocupar lugar. Para roupas, a regra é a mesma, e deve-se lavá-las o menos possível, para não gastar água nem tomar muito espaço armazenando sabão. "Para economizar, fico sempre nua ou de biquíni quando estou em alto-mar", conta a professora Sandra Alemar, de 41 anos. Ela vivia em Maraú, no sul da Bahia, e há dois anos viaja com o velejador Hélio Magalhães, 41 anos, a quem conheceu quando ele fez uma escala em sua cidade. Num dos estirões mais longos, Magalhães passou 45 dias sem ver terra, navegando de São Paulo às Ilhas Canárias.

A terapeuta ocupacional Claudia Schmidt, 29 anos, numa história parecida, apaixonou-se por um velejador, o ex-comerciante gaúcho Átila Böhm, 41 anos, e foi viver no mar. Poucos meses depois estava grávida. Erica Böhm, hoje com 3 anos, nasceu em Ubatuba. Aos 3 meses já estava a bordo, com bonecas, mamadeiras e fraldas. Um mês depois deu seu primeiro mergulho, ao lado do pai. Aprendeu a andar e correr com firmeza pelo convés, em alto-mar – e cambaleava quando pisava em terra firme. Há poucos meses, o casal comprou um apartamento em Salvador, mas não abandonou o barco. De terça a quinta-feira, Erica vai para a escola. Na sexta, embarca com os pais e só volta na segunda-feira. "Ela parece bem feliz vivendo assim", diz o pai.

A vida embarcada tem alguns perigos. Numa ocasião, em Porto Seguro, Walter Garcia foi desenroscar a vela no alto do mastro e acabou enlaçado pelas cordas, em mar revolto. Foi salvo por tripulantes de outro barco. Geraldo e Valéria Ormerod já se viram em rota de colisão com um pesqueiro, de madrugada. Se não estivessem atentos, teriam batido. Um inimigo comum dos velejadores são os enjôos. Contra eles, levam-se a bordo até remédios para labirintite. "Apesar dos sustos, corre-se muito mais risco vivendo nas grandes cidades", compara Hélio Magalhães.

   
 
   
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