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Os novos marinheiros
A vida
num barco tem muito lazer,
pouco
conforto e alguns perigos
Adriana Negreiros
Fernando Vivas
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Helio Magalhães
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| Os
casais Sandra e Hélio (à esq.) e Geraldo e Valéria:
pouca roupa a bordo, para economizar espaço, e viagem de seis
anos ao redor do mundo |
Em
abril passado, o casal carioca Geraldo Ormerod, de 57 anos, e Valéria
Bueno, de 52, despediu-se dos filhos para iniciar um passeio de veleiro.
O roteiro: África, Europa, América do Norte e Caribe. O
tempo da viagem: seis anos. Mais de 30.000
famílias também estão nos oceanos neste momento,
morando em barcos, dividindo espaços exíguos, cozinhando
no balanço das ondas, dando duro com motores e cordas mas
ao mesmo tempo se divertindo e conhecendo muitas das paisagens mais bonitas
do planeta. O conforto é pouco, mas o quintal muda todos os dias,
gostam de ressaltar os cruzeiristas, como são chamados esses viajantes.
Na melhor das hipóteses, pode-se ter a bordo cama, banheiro, minigeladeira,
fogão, armários de mantimentos e, com muita sofisticação,
computador, máquina de lavar roupa e DVD. Energia solar ou gerada
por bateria alimenta os aparelhos elétricos.
O típico
cruzeirista é um ex-estressado. Alguém que, cansado da correria
das grandes cidades, resolveu mudar radicalmente de vida. Bom exemplo
é o jornalista Walter Garcia, 39 anos, que há cinco mora
no veleiro Sindbad com a mulher, Cristiane, 34 anos, e a filha,
Mayara, de 8 anos. Ele trabalhava tanto, inclusive nos fins de semana,
que a filha pequena o rejeitava como um desconhecido. No pior momento,
teve um choque anafilático ao se internar para cuidar do stress.
Aí pediu demissão, aprendeu a navegar, juntou as economias
e convenceu a mulher, psicóloga, a fechar sua clínica. A
filha passou a estudar pela internet, em escolas que oferecem ensino a
distância. A bordo, Garcia opera uma espécie de agência
de notícias, distribuindo informações sobre os locais
que visita. Mas o que eles mais fazem mesmo é turismo. Há
poucos dias, depois de uma temporada no litoral cearense, partiram para
o Maranhão.
Geraldo
e Valéria Ormerod também trocaram seu casarão de
400 metros quadrados pelos 9 do barco Vadyo só para fugir
da vida urbana. Economista, pós-graduado em administração
financeira, ele havia sido executivo de multinacional. Ela tocava uma
loja de roupas. Terno, para ele, e sapato alto, para ela, eram uniformes
peças que doaram a entidades filantrópicas. "Não
precisamos desse tipo de roupa no barco, e muito menos para andar de ônibus
nas cidades onde paramos", diz Valéria. O casal gastou 60.000
dólares na compra do barco e nos preparativos para a viagem, incluindo
cursos de primeiros socorros e compra de material de bordo. O veleiro
tem um instrumento chamado epirb, espécie de alarme que, ao ser
disparado, aciona um serviço de resgate dos Estados Unidos que
mantém equipes em todo o mundo. De passagem na última semana
por Salvador, o casal planeja estar em Nova York no próximo Natal.
Átila Bohm
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| Átila
e a filha Erica: tropeços em terra firme e andar firme na embarcação
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Uma embarcação que permita esse tipo de aventura não
custa menos de 20.000 dólares. Uma simples
janelinha para refrescar as noites de sono pode ultrapassar os 1.000
dólares. Comida e água se compram em grandes quantidades
e, para frutas e legumes, é preciso saber escolher muitos produtos
ainda verdes, que amadureçam depois de um certo tempo de viagem.
Com tanta coisa a armazenar, o espaço é o elemento mais
valioso dentro do barco. Velejadores geralmente só têm um
par de tênis, para não ocupar lugar. Para roupas, a regra
é a mesma, e deve-se lavá-las o menos possível, para
não gastar água nem tomar muito espaço armazenando
sabão. "Para economizar, fico sempre nua ou de biquíni quando
estou em alto-mar", conta a professora Sandra Alemar, de 41 anos. Ela
vivia em Maraú, no sul da Bahia, e há dois anos viaja com
o velejador Hélio Magalhães, 41 anos, a quem conheceu quando
ele fez uma escala em sua cidade. Num dos estirões mais longos,
Magalhães passou 45 dias sem ver terra, navegando de São
Paulo às Ilhas Canárias.
A terapeuta
ocupacional Claudia Schmidt, 29 anos, numa história parecida, apaixonou-se
por um velejador, o ex-comerciante gaúcho Átila Böhm,
41 anos, e foi viver no mar. Poucos meses depois estava grávida.
Erica Böhm, hoje com 3 anos, nasceu em Ubatuba. Aos 3 meses já
estava a bordo, com bonecas, mamadeiras e fraldas. Um mês depois
deu seu primeiro mergulho, ao lado do pai. Aprendeu a andar e correr com
firmeza pelo convés, em alto-mar e cambaleava quando pisava
em terra firme. Há poucos meses, o casal comprou um apartamento
em Salvador, mas não abandonou o barco. De terça a quinta-feira,
Erica vai para a escola. Na sexta, embarca com os pais e só volta
na segunda-feira. "Ela parece bem feliz vivendo assim", diz o pai.
A vida embarcada
tem alguns perigos. Numa ocasião, em Porto Seguro, Walter Garcia
foi desenroscar a vela no alto do mastro e acabou enlaçado pelas
cordas, em mar revolto. Foi salvo por tripulantes de outro barco. Geraldo
e Valéria Ormerod já se viram em rota de colisão
com um pesqueiro, de madrugada. Se não estivessem atentos, teriam
batido. Um inimigo comum dos velejadores são os enjôos. Contra
eles, levam-se a bordo até remédios para labirintite. "Apesar
dos sustos, corre-se muito mais risco vivendo nas grandes cidades", compara
Hélio Magalhães.
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