É bom ter
cuidado
Médicos
alertam para os perigos
do Lipostabil, a
injeção antigordura
que virou uma febre
Anna Paula
Buchalla
Fotos André Nazareth/Strana/Rogério
Voltan
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| As
atrizes Rita Guedes e Paula Burlamaqui: com elas, tudo indica, deu
certo |
A mais nova
febre nas clínicas de estética atende pelo nome de Lipostabil,
ou "lipo light". Injeções do produto vêm sendo usadas
para eliminar aqueles persistentes pneuzinhos de gordura nas costas, abdome
e culotes. Feito a partir de uma substância retirada da soja, a
fosfatidilcolina, o Lipostabil derrete as células adiposas da região
onde é aplicado. Que ele funciona, funciona, como atestam as atrizes
Paula Burlamaqui e Rita Guedes, que se submeteram ao tratamento-padrão
de uma injeção semanal, ao longo de um mês. Mas o
recurso é encarado com muitas reservas pelos médicos
os sérios, entenda-se. O motivo é que não existem
estudos clínicos que garantam a segurança das injeções
de Lipostabil e descrevam seus efeitos a médio e longo prazo.
Nos Estados
Unidos, o Lipostabil não é aprovado pelo FDA, a agência
de controle de remédios e alimentos. A Sociedade Americana de Cirurgia
Plástica alertou para o fato de que o único estudo sobre
a utilização com fins estéticos da substância,
feito com trinta pessoas, não tem validade científica. Os
médicos americanos lançaram perguntas que nenhum entusiasta
do Lipostabil sabe responder com precisão. As três mais importantes
são: como evitar que uma quantidade exagerada de gordura seja dissolvida?
De que forma essa gordura é eliminada do organismo? Como ter certeza
de que a droga não destrói outros tecidos além das
células adiposas?
O
Lipostabil foi sintetizado na década de 50. Destinava-se ao tratamento
de doenças cardiovasculares causadas pelo acúmulo de placas
de gordura nas artérias. Com o aparecimento de remédios
mais potentes, ele foi praticamente deixado de lado. Nos anos 90, o Lipostabil
ressurgiu como a "lipo light". De quem foi a idéia, ninguém
sabe. Especula-se que tudo começou na Itália, um dos poucos
países que ainda produzem a droga. É de lá que sai
boa parte dos carregamentos que entram de forma ilegal no Brasil, já
que a comercialização do produto industrializado não
é autorizada pelo Ministério da Saúde. Evidentemente,
ninguém se incomoda com a contravenção. O Lipostabil
é vendido até mesmo em academias de ginástica e salões
de cabeleireiros. "Aplicado por gente despreparada, pode ser um perigo",
adverte Carlos Eduardo Nazar, presidente da Sociedade Médica Brasileira
de Intradermoterapia.
Em defesa
da injeção antigordura, alguns médicos costumam citar
o caso do Botox. Até que a toxina botulínica recebesse o
aval científico para o tratamento das rugas do rosto, levou-se
mais de uma década. Ocorre que a utilização do Botox
surgiu de evidências claras. Uma vez aplicado para tratamento de
tiques nervosos, os cientistas observaram que um dos seus efeitos colaterais
era a diminuição dos vincos da face. Ele então passou
a ser adotado para esse fim. Já o uso estético do Lipostabil
partiu apenas de um achismo. O de que se era eficiente para derreter a
gordura presente nos vasos sanguíneos devia ser bom também
para acabar com a gordura localizada nas pernas, barriga e culotes. Não
é assim que as coisas funcionam na medicina de verdade.
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