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Ter ou não ter rugas,
eis a decisão

O dilema dos artistas é descobrir
até que ponto podem alisar o rosto
sem perder a expressão

Silvia Rogar

 
Rodrigo Queiroz
Ronaldo Ceravolo
Eliane (plástica em volta dos olhos) e Rosamaria (de tudo um pouco): Botox na testa, não


Veja também
Dos arquivos de VEJA
Reportagem de 31/7/2002: as utilidades do Botox
Reportagem de 20/5/1998: "Retoque sem faca"
Reportagem da edição especial VEJA Sua Saúde: pele, a maior vitrine do tempo
Reportagem de 8/3/2000: "Na idade da beleza"

Confessar, elas não confessam (e eles, menos ainda). Mas raridade hoje em dia é encontrar artista conhecido com mais de 40 anos que nunca tenha enfrentado sua dose de toxina botulínica no afã de rejuvenescer. Seja em Hollywood, seja no Projac, passar pelo bisturi ou por injeções de Botox antes de começar um novo trabalho tornou-se quase tão obrigatório quanto estudar o personagem. A aparência, exageros à parte, pode melhorar, mas até que ponto o puxa-estica interfere no desempenho profissional de quem vive, em boa parte, de sua expressão facial? De tão disseminada a prática, o assunto já causa cenhos franzidos no meio artístico. Recentemente, diretores de peso, como Baz Luhrmann, de Moulin Rouge, e Martin Scorsese, desancaram publicamente o Botox, que estaria, segundo eles, criando uma geração de artistas sem expressão. "Não posso compreender por que alguém que se considera ator se priva da capacidade de ter expressão facial", desdenhou Scorsese.

A autora de novelas Maria Adelaide Amaral, que confessa plástica na região dos olhos e lifting no pescoço mas renega Botox, diz que não aconselha suas amigas atrizes a injetar a substância. "Algumas estão exagerando tanto que até para o autor definir o personagem fica difícil: a pessoa não tem cara nem de avó nem de mãe", critica. A atriz Rosamaria Murtinho, que não diz a idade por nada neste mundo mas está por volta dos 65, já fez quase tudo: toxina botulínica entre as sobrancelhas e na região dos olhos, preenchimento dos sulcos ao redor da boca, lifting no rosto e plástica nas pálpebras e no pescoço. Mas ressalva: nunca, jamais, alisou a testa. "Botox aí, nem pensar", garante. Para alisar a pele, a toxina relaxa a musculatura, deixando-a paralisada. A expressão de olímpica serenidade pode passar despercebida no dia-a-dia, mas explode com os closes da televisão ou do cinema. "Os músculos frontais, que vão das sobrancelhas até a linha dos cabelos, são responsáveis por grande parte da expressão facial. Por isso, precisam ficar naturais", diz a dermatologista Dóris Hexsel, do Rio de Janeiro. A atriz Zezé Polessa usou Botox entre as sobrancelhas e na lateral dos olhos quando foi convocada para ser a Amapola, de Porto dos Milagres, no ano passado. "Foi uma dose pequena, porque tinha medo de ficar com cara de porta. Para um personagem leve, como o que eu fiz, ajudou a relaxar a expressão", diz ela, que jura não ter ainda recorrido à segunda dose. A conservadíssima Eliane Giardini, 50 anos, professa temer Botox. "Tenho pânico de ficar com a expressão cristalizada", diz, admitindo apenas "uma plástica para retirar bolsas de gordura da região dos olhos, com muito critério para não mudar meu rosto".

O cirurgião plástico americano Michael Kane, que atende num luxuoso consultório em Nova York e é autor de The Botox Book, adverte: "Uma atriz sem ruga nenhuma não consegue mostrar suas emoções". O truque de Kane, no tratamento de artistas com a substância, é injetar três quartos do que usa num paciente comum e repetir as doses com intervalos de dois meses, em vez dos quatro a seis normais. "Só que algumas não entendem e retornam na semana seguinte, querendo esticar mais", disse a VEJA. O surto de botocadas no cinema americano criou anomalias, como Melanie Griffith, 45 anos, que apela para todo tipo de injeção na ânsia de parecer mocinha perto do maridão Antonio Banderas, 42. Melanie é a encarnação do exagero das intervenções estéticas: boca inchada e retorcida, maçãs do rosto estufadas, toxina botulínica em quantidade suficiente para produzir um ar apatetado.

 
Beti Niemeyer
André Valentim/Strana
Estratégias: Eva fez e parou; Fernanda (à dir.) nunca fez

"A pessoa está tentando ser o que não é, e isso já impede a autenticidade da interpretação", diz a temida crítica teatral Barbara Heliodora. "Para alguns talentos menores, o Botox exagerado pode acabar com uma carreira", sintetiza o diretor Jorge Fernando. Para quem sempre se destacou pela beleza espetacular, como a italiana Sophia Loren (68 anos, rosto notável e artificialmente alisado), é difícil escapar à tentação da eterna, ainda que nada natural, juventude. Eva Wilma, mesma idade de Sophia e dois liftings – o último em 1986 –, diz que agora parou. "Rugas também podem ser apreciadas pelo público", consola-se. A exceção é a fera da interpretação, Fernanda Montenegro, que aos 73 anos é uma das raríssimas atrizes a aparentar a idade que têm. "Não tenho nada contra. Mas não quis fazer quando mais jovem e agora acho que passei da hora", diz. Confira nas fotos acima os diferentes resultados.

   
 
   
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