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Edição 1 777 - 13 de novembro de 2002
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O poder da imagem

Exposição mostra os vestidos
e os acessórios que ajudaram
a formar Eva Perón, o mito

Bel Moherdaui

 
Fotos Acervo Museu Evita

Vestido usado por Evita em recepção no Rio de Janeiro em 1947 (abaixo, à esq.) e o Jacques Fath da foto oficial: "Mãe dos pobres"



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Galeria de fotos: Os vestidos e acessórios
de Eva Perón

Para os argentinos que continuam a venerá-la, Evita Perón é como Carlos Gardel: enquanto ele canta cada vez melhor, quanto mais passa o tempo, mais bela – e poderosa – ela fica. Os que a odeiam ainda espumam ao lembrar seu nome. A aura mitológica de Evita continua tão forte que cinqüenta anos depois de sua morte ainda é difícil dizer, para quem procura um ponto de vista objetivo, se foi boa ou se foi má. Uma coisa é certa: Evita se inventou e captou como poucos o poder da imagem. De artista medíocre de rádio, de cabelos castanhos e aparência comum, transformou-se, ao lado de Juan Domingo Perón, num fenômeno que até hoje tem apelo global. A mãe dos pobres, a protetora dos descamisados, a chefe espiritual da nação, entre outros epítetos, deixou também um legado estético: suas roupas tornaram-se inesquecíveis, incrustadas na história da moda do século XX. Evita foi o primeiro vértice do triângulo de ícones completado por Jacqueline Kennedy e a princesa Diana. Uma amostra disso pode ser vista na exposição Eva Perón: Imagens de uma Paixão, montada no Memorial da América Latina, em São Paulo. Dela fazem parte pinturas, fotografias e instalações de artistas argentinos contemporâneos, mas o que interessa mesmo são os objetos pessoais e os vestidos emprestados do acervo do Museu Evita, recém-inaugurado em Buenos Aires. Agora, como mais de meio século atrás, não há quem não se impressione com trajes como o suntuoso vestido do costureiro Jacques Fath, um longo de seda branca bordado com pérolas e pedras, usado para o retrato oficial de primeira-dama, numa expressão quase arrogante de poder. Brilham ainda o tomara-que-caia com aplicações de renda, de Paula Naletof, que ela usou em uma recepção no Rio de Janeiro em 1947 (nessa viagem, só vestiu costureiros argentinos, para promover a indústria nacional), e o rebuscado conjunto Christian Dior – todos conservados sem lavar, para preservar o perfume de Evita (Arpège, de Lanvin, e Rochas).

"Em um momento tão complicado para nosso país, é importante olhar no espelho de nossos momentos de glória, de quando éramos mais independentes e seguros", diz o arquiteto Alberto Petrina, curador da exposição e diretor de assuntos culturais do Ministério das Relações Exteriores da Argentina. "A figura de Evita tem transcendência internacional e permite uma reflexão sobre a cultura e a identidade argentinas." Pobre e sem estudos, Evita chegou à Casa Rosada, a sede do governo argentino, em 1946, aos 27 anos, acompanhando Perón como uma espécie de acessório incômodo, pela reputação, pela origem social e pela facilidade de comandar. Antes mesmo de domar os erros de concordância pôs-se a se produzir como uma artista de cinema, adquirindo vestidos, luvas e chapéus de grifes famosas – só no Museu Evita estão mais de 200 vestidos preservados pela família. As peles e os diamantes, na frase famosa, pertenciam ao povo.

"Ela usava roupas de trabalho sérias, austeras, que não ostentassem muito. As etiquetas, porém, eram Dior, Balmain. Jamais usava roupas masculinizadas. Fosse diante de políticos ou de trabalhadores, vestia-se sempre de forma feminina e mostrando modernidade, nos pensamentos e nos trajes", enumera Gabriel Miremont, curador do Museu Evita e responsável pela escolha dos vestidos que vieram para o Brasil. Nas festas, Evita liberava a porção estrela – suas roupas suntuosas, jóias e o cabelo impecavelmente penteado, geralmente em coque (tornou-se loira a partir de 1945), ajudaram a criar o estilo inconfundível. "As pessoas mais simples admiravam o fato de Evita, que viam como uma delas, ter alcançado o sonho de todos. A roupa e o estilo dela serviam justamente para mostrar que tinha chegado lá", diz Miremont. Evita morreu aos 33 anos, de câncer no útero. Quando Perón foi deposto, uma das medidas dos militares para apagar o rastro do peronismo foi sumir com o corpo embalsamado da mulher, que, em mórbida epopéia, passou anos escondido em caminhões, porões do Exército, na casa de um oficial e até em um cinema, antes de ser enfim enterrado em Buenos Aires. O mito sobreviveu a tudo.

   
 
   
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