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O poder da imagem
Exposição
mostra os vestidos
e os acessórios que ajudaram
a formar Eva Perón, o mito
Bel Moherdaui

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Para os argentinos
que continuam a venerá-la, Evita Perón é como Carlos
Gardel: enquanto ele canta cada vez melhor, quanto mais passa o tempo,
mais bela e poderosa ela fica. Os que a odeiam ainda espumam
ao lembrar seu nome. A aura mitológica de Evita continua tão
forte que cinqüenta anos depois de sua morte ainda é difícil
dizer, para quem procura um ponto de vista objetivo, se foi boa ou se
foi má. Uma coisa é certa: Evita se inventou e captou como
poucos o poder da imagem. De artista medíocre de rádio,
de cabelos castanhos e aparência comum, transformou-se, ao lado
de Juan Domingo Perón, num fenômeno que até hoje tem
apelo global. A mãe dos pobres, a protetora dos descamisados, a
chefe espiritual da nação, entre outros epítetos,
deixou também um legado estético: suas roupas tornaram-se
inesquecíveis, incrustadas na história da moda do século
XX. Evita foi o primeiro vértice do triângulo de ícones
completado por Jacqueline Kennedy e a princesa Diana. Uma amostra disso
pode ser vista na exposição Eva Perón: Imagens
de uma Paixão, montada no Memorial da América Latina,
em São Paulo. Dela fazem parte pinturas, fotografias e instalações
de artistas argentinos contemporâneos, mas o que interessa mesmo
são os objetos pessoais e os vestidos emprestados do acervo do
Museu Evita, recém-inaugurado em Buenos Aires. Agora, como mais
de meio século atrás, não há quem não
se impressione com trajes como o suntuoso vestido do costureiro Jacques
Fath, um longo de seda branca bordado com pérolas e pedras, usado
para o retrato oficial de primeira-dama, numa expressão quase arrogante
de poder. Brilham ainda o tomara-que-caia com aplicações
de renda, de Paula Naletof, que ela usou em uma recepção
no Rio de Janeiro em 1947 (nessa viagem, só vestiu costureiros
argentinos, para promover a indústria nacional), e o rebuscado
conjunto Christian Dior todos conservados sem lavar, para preservar
o perfume de Evita (Arpège, de Lanvin, e Rochas).
"Em um momento
tão complicado para nosso país, é importante olhar
no espelho de nossos momentos de glória, de quando éramos
mais independentes e seguros", diz o arquiteto Alberto Petrina, curador
da exposição e diretor de assuntos culturais do Ministério
das Relações Exteriores da Argentina. "A figura de Evita
tem transcendência internacional e permite uma reflexão sobre
a cultura e a identidade argentinas." Pobre e sem estudos, Evita chegou
à Casa Rosada, a sede do governo argentino, em 1946, aos 27 anos,
acompanhando Perón como uma espécie de acessório
incômodo, pela reputação, pela origem social e pela
facilidade de comandar. Antes mesmo de domar os erros de concordância
pôs-se a se produzir como uma artista de cinema, adquirindo vestidos,
luvas e chapéus de grifes famosas só no Museu Evita
estão mais de 200 vestidos preservados pela família. As
peles e os diamantes, na frase famosa, pertenciam ao povo.
"Ela usava
roupas de trabalho sérias, austeras, que não ostentassem
muito. As etiquetas, porém, eram Dior, Balmain. Jamais usava roupas
masculinizadas. Fosse diante de políticos ou de trabalhadores,
vestia-se sempre de forma feminina e mostrando modernidade, nos pensamentos
e nos trajes", enumera Gabriel Miremont, curador do Museu Evita e responsável
pela escolha dos vestidos que vieram para o Brasil. Nas festas, Evita
liberava a porção estrela suas roupas suntuosas,
jóias e o cabelo impecavelmente penteado, geralmente em coque (tornou-se
loira a partir de 1945), ajudaram a criar o estilo inconfundível.
"As pessoas mais simples admiravam o fato de Evita, que viam como uma
delas, ter alcançado o sonho de todos. A roupa e o estilo dela
serviam justamente para mostrar que tinha chegado lá", diz Miremont.
Evita morreu aos 33 anos, de câncer no útero. Quando Perón
foi deposto, uma das medidas dos militares para apagar o rastro do peronismo
foi sumir com o corpo embalsamado da mulher, que, em mórbida epopéia,
passou anos escondido em caminhões, porões do Exército,
na casa de um oficial e até em um cinema, antes de ser enfim enterrado
em Buenos Aires. O mito sobreviveu a tudo.
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