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1 777 - 13 de novembro de 2002 |
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Chega
de Drummond
"João
Cabral me alivia
da pieguice
de Drummond,
de seu sentimentalismo
ginasiano, de seu lirismo kitsch. Mas não
há o que fazer contra sua prosa. Ali ele
aparece em
toda a sua constrangedora
banalidade,
com
aquelas historinhas
jecas"
Drummond,
Drummond, Drummond. Para onde quer que se olhe, Drummond e mais Drummond.
Em Copacabana, celebraram seu centenário com uma estátua.
Em Piracicaba, roubaram uma sua caricatura. Em Itabira, sua cidade natal,
crianças foram obrigadas a declamar seus versos para os turistas.
Pelé gravou um CD com suas poesias. Luiz Felipe Scolari citou-o
em suas memórias. Uma moeda foi cunhada com sua efígie.
Ele inspirou espetáculos de dança e foi mencionado em receitas
de tutu à mineira. Até Lula apareceu com seus livros debaixo
do braço. Com ar doutoral, disse que ajudavam a prepará-lo
"espiritualmente" para a Presidência.
Foi tanto Drummond que acabei enjoando dele. Basta ouvir seu nome que
começo a tremer e a suar frio. O antídoto mais eficaz contra
essa ressaca de Drummond é uma dose maciça de João
Cabral de Melo Neto. Leio-o todos os dias. Alivia-me da pieguice de Drummond,
de seu sentimentalismo ginasiano, de seu lirismo kitsch: "Amor é
estado de graça", "Amor foge a dicionários", "Amor é
primo da morte". Quer mais? "O amor é grande e cabe no breve espaço
de beijar", "Quem tem amor tem coragem", "O amor bate na aorta". Ainda
mais? "Amar é o sumo da vida", "Amar se aprende amando", "Vamos
conjugar o verbo sempreamar".
Se João Cabral de Melo Neto atenua os efeitos nocivos da poesia
de Drummond, não há o que fazer contra sua prosa. Ali ele
aparece em toda a sua constrangedora banalidade, com aquelas historinhas
jecas sobre o Dia das Mães, sobre o Dia dos Namorados ou sobre
os velhos bares no interior de Minas Gerais. Numa crônica de Natal,
ele sonha com o dia em que o "mundo será governado exclusivamente
por crianças". Numa crônica em homenagem a Chico Buarque,
escrita em 1966, ele proclama que nunca foi da Arena ou do MDB, mas "desse
partido congregacional que encontra na banda o remédio". Quando
convinha ser de esquerda, porque todos os poetas o eram, Drummond fazia
poesia de esquerda. Quando o clima piorou, e os esquerdistas começaram
a ser perseguidos pela ditadura, ele achou melhor pular fora, escrevendo
sobre minúsculos acontecimentos do dia-a-dia. Aquilo que foi pomposamente
apelidado de metafísica do cotidiano. Ou seja: nem Arena, nem MDB.
Nos manuais de literatura, Drummond é louvado por sua ironia. É
uma ironia amável, benévola, cúmplice, que se esforça
para confortar e apaziguar, sem jamais correr o risco de ferir o leitor.
De fato, ele é prevalentemente auto-irônico. Ironizando a
si mesmo, Drummond evita atacar o próximo. A auto-ironia, porém,
é sempre um exercício de falsa ironia. Em 1930, quando se
define um "gauche", ele demonstra ser tudo menos um "gauche", usando muita
astúcia e habilidade para conquistar seu espaço no ambiente
literário nacional. Mais tarde, quando julga "insignificante" seu
poema mais famoso, "No meio do caminho", ele tem a certeza de que ninguém
irá concordar. A seguir, quando ironiza sua frivolidade, seu provincianismo,
sua teimosia em tratar de assuntos menores, ele sabe que está num
terreno seguro, tendo sido aclamado por causa disso pelos maiores críticos
do país.
Chega de Drummond. Pelos próximos dez ou quinze anos, é
melhor ficar longe dele.
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