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"O
problema de Hugo Chávez não é político, é psiquiátrico. Para fazer o diagnóstico de seu governo é melhor perguntar a um psiquiatra que a um analista político ou econômico" |
O venezuelano Moisés Naím, de 50 anos, é um estudioso e observador privilegiado do que acontece em política internacional. Ele dirige há dois anos a revista Foreign Policy, publicação americana especializada em relações internacionais. Grandes nomes, como Francis Fukuyama, Joseph S. Nye Jr. e Paul Krugman e até o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, escrevem para a revista, que foi fundada em 1970. Ministro da Indústria e Comércio da Venezuela no início dos anos 90, diretor executivo do Banco Mundial entre 1992 e 1995, Naím também é colunista do jornal inglês Financial Times e escreveu oito livros sobre economia e política internacionais. Mesmo às vésperas de uma eventual guerra entre os Estados Unidos e o Iraque e com a economia mundial em marcha lenta, ele mantém o otimismo. "A globalização econômica não se deteve e a política se intensificou depois do 11 de setembro", diz. "Países que nem se falavam há um ano hoje em dia são aliados." Naím falou a VEJA de Washington, onde mora.
Veja Por que os Estados Unidos querem depor Saddam Hussein?
Naím
Há razões de natureza psicológica e de política
doméstica. Uma guerra para distrair de problemas internos, que
são muitos. Há também a intenção de
eliminar a ameaça genuína que Saddam Hussein representa.
A decisão iraquiana de permitir a volta dos inspetores da ONU é
fruto do temor de uma invasão americana. O problema é que
a ameaça não foi grande o bastante para que Saddam deixe
o poder. De qualquer forma, é difícil para os americanos
justificarem uma invasão em massa, mesmo a pretexto de eliminar
a ameaça de guerra nuclear ou biológica. O verdadeiro objetivo
é tirar Saddam do poder. Mas por que só ele e não
outros ditadores perigosos?
Veja Bush acabou criando o clima de uma guerra fria. Não
foi longe demais?
Naím
É muito importante dizer que há uma guerra de idéias
dentro do governo Bush tão violenta quanto a dos Estados Unidos
com o Iraque. De um lado estão aqueles que acham que a guerra contra
o Iraque e o unilateralismo americano são um erro. Pensam que o
mundo é um lugar complicado e que qualquer aproximação
tem de envolver o diálogo com os aliados. Do outro lado estão
aqueles que defendem um ataque ao Iraque para tirar Saddam do poder. Acreditam
que, visto que os Estados Unidos são um poder hegemônico
e imperial, têm o dever histórico de fazê-lo. Ou seja,
partem do pressuposto de que o mundo é anárquico e que o
dever da potência é o de impor a ordem. A prova de fogo,
de quem manda no governo Bush, será o Iraque.
Veja Bush tem liderança suficiente para um momento
tão complexo?
Naím
Existia
a sensação de que Bush não tinha opinião própria
e podia ser influenciado por seus auxiliares mais próximos. É
preciso prestar atenção nas mudanças ocorridas com
ele após os atentados de 11 de setembro. O presidente atual é
muito diferente daquele que foi eleito. Antes, Bush era contra missões
de paz e discordava do conceito de que é possível ou necessário
construir nações. Pois fez as duas coisas no Afeganistão.
Antes, ele fazia pouco-caso dos pacotes de socorro financeiro a países
do Terceiro Mundo. Agora, apoiou o pacote para o Brasil, um dos maiores
já concedidos pelo FMI. Antes, era contrário a políticas
multilaterais. Depois dos atentados, precisou da ajuda dos serviços
de inteligência de outros países para vigiar o mundo. Bush
está sendo educado pela realidade. Mas o processo de reeducação
custa caro para o resto da humanidade.
Veja Os enormes gastos militares americanos vão causar
uma nova corrida armamentista?
Naím
Os ataques terroristas mostraram que a superioridade militar não
garante a invulnerabilidade do território e dos cidadãos.
Por isso surpreende que a reação do governo Bush seja expandir
a superioridade militar dos Estados Unidos. Depois do 11 de setembro,
o governo americano propôs um orçamento militar superior
à soma dos orçamentos dos 25 países que mais gastam
em suas Forças Armadas. Um humorista americano do início
do século XX dizia que a utilidade das guerras era ensinar geografia
aos americanos. Com o 11 de setembro, muitos americanos perceberam que
não podem dar-se ao luxo de ignorar o resto do mundo. A opinião
pública americana sabe agora que o que ocorre no mundo tem conseqüências
em sua vida cotidiana. Pena que, por enquanto, a resposta seja apenas
militar.
Veja Não há facetas positivas na hegemonia
americana?
Naím
Gostaria
de perguntar aos leitores de VEJA qual poder hegemônico escolheriam,
visto que sempre há um país dominante. Se não forem
os Estados Unidos, com seus defeitos, mas também com suas virtudes,
prefeririam a França, a China, a Rússia, a Alemanha ou a
Inglaterra? Os candidatos são poucos e igualmente imperfeitos.
Imagine o governo chinês ou o russo com o poder que os americanos
têm hoje. E os alemães com tal poder militar? Os Estados
Unidos podem ser imperiais, mas respeitam os direitos humanos, a liberdade
e levam em conta as minorias.
Veja O movimento antiglobalização não
ganhou fôlego com o antiamericanismo crescente?
Naím
Acho que o 11 de setembro fez um dano enorme a esses movimentos. Note
como diminuíram aquelas megamanifestações. Elas refletiam
enorme variedade de pontos de vista, que iam do sublime ao ridículo.
Eram expressões de insatisfação com relação
a muitas coisas, da globalização à comida geneticamente
modificada, passando pela sobrevivência das tartarugas e pelos direitos
palestinos. O problema é que não ouvíamos desses
movimentos propostas concretas, viáveis nem práticas. É
bom que pensem nas soluções, não só na choradeira.
Veja A globalização vai entrar em um período
de marcha lenta?
Naím
O comércio mundial crescerá 8% na segunda metade deste ano
e provavelmente ainda mais no próximo ano. Dois meses depois dos
ataques de 11 de setembro, a Organização Mundial do Comércio
(OMC), reunida em Doha, aprovou uma nova rodada de negociações
para liberalizar o comércio. Neste ano, e pela primeira vez em
quase uma década, o Congresso americano autorizou o presidente
a negociar tratados internacionais de livre-comércio por via rápida.
A China se tornou membro da OMC, e a Rússia logo será admitida.
O mais importante é que os atentados terroristas geraram colaboração
intensa entre governos que antes mal se falavam. Foram um curso intensivo
para quem pensava que a globalização só tinha a ver
com comércio e investimentos. Os terroristas mostraram como aviões,
internet e a fácil movimentação internacional de
pessoas e dinheiro são úteis para disseminar o ódio,
o preconceito, o crime e o horror, da mesma forma que espalham melhores
oportunidades econômicas e educativas.
Veja O Consenso de Washington previa que o crescimento econômico
viria com a abertura da economia. Por que isso não ocorreu?
Naím
É verdade que prometeu uma prosperidade que não veio. Mas
muitas coisas do Consenso de Washington são válidas. Por
exemplo, continua a ser verdade que, se um governo gasta mais do que arrecada,
vai produzir inflação. Um país protecionista vai
crescer menos que aquele de economia aberta, que atrai investimentos,
exporta e importa livremente. Note que o Consenso foi proposto como resposta
às condições de uma época em que já
não havia ideologias e muitas teorias, como a substituição
de importações proposta pela Comissão Econômica
para a América Latina e o Caribe (Cepal), que causou tanto entusiasmo
nos anos 60 e 70, estavam desprestigiadas. Acabou sendo usado para fins
para os quais não se destinava.
Veja Como assim?
Naím
O
Consenso de Washington nada dizia sobre política social, sobre
globalização, sobre o que fazer depois que um país
já estivesse aberto ao mundo e, portanto, mais vulnerável
às oscilações da economia mundial. Nada dizia sobre
como pôr a funcionar o sistema judiciário, tributário,
de saúde. Nasceu para derrotar a hiperinflação e
o endividamento exagerado, que eram os grandes temas no fim dos anos 80.
Falta elaborar uma receita posterior.
Veja Mas o comércio global continua a funcionar pela
lei do mais forte.
Naím
Há distorções e injustiças que continuam a
favorecer os países mais poderosos. Mas a solução
não é impor barreiras às importações
nem aumentar os subsídios à produção. São
medidas que só agravam o problema, em vez de solucioná-lo.
A luta é fazer com que os outros cortem as barreiras, não
o inverso. Seria suicídio para o Brasil querer competir com os
Estados Unidos ou com a União Européia em volume de subsídios.
Primeiro, porque não há dinheiro no Brasil para isso. Entre
subsidiar produtos agrícolas e gastar na educação,
é muito melhor investir nas crianças.
Veja O governo americano dá muito menos atenção
ao Brasil do que deveria?
Naím
Bush deveria convidar o presidente eleito do Brasil para visitar sua fazenda
no Texas e lhe propor um acordo irrecusável. Oferecer amplo acesso
ao mercado americano para os calçados, o açúcar,
os têxteis, o aço, a soja e a laranja. As exportações
brasileiras cresceriam em 5 bilhões de dólares. Um acordo
com o FMI para manter a estabilidade macroeconômica no Brasil poderia
terminar com o temor dos mercados de que o Brasil caminha para uma moratória
catastrófica, no estilo da argentina. Com esse apoio, o Brasil
teria expectativas de crescimento e estabilidade, o que só atrairia
mais investimentos para o país.
Veja Acesso livre ao mercado americano é tudo o que
Bush tem a oferecer ao Brasil?
Naím
O presidente americano deveria também apoiar um grande projeto
antipobreza, desenvolvido por brasileiros e supervisionado pelo Banco
Mundial e pelo BID. Em troca, poderia pedir que o Brasil abrisse setores
em que os investimentos estrangeiros e as importações ainda
são restritos. Pediria também ao país para obedecer
a objetivos fiscais e monetários que garantissem a própria
estabilidade. Um acordo entre os Estados Unidos e o Brasil não
resolveria todos os problemas do continente, mas uma proposta assim deixaria
de lado a paralisia das negociações da Alca e seria a primeira
boa notícia na região em muito tempo. Bush precisa agir,
ter vontade de fazer história.
Veja Como resolver a desigualdade social na América
Latina, que só cresceu?
Naím
Quase todas as receitas experimentadas acabaram gerando maior desigualdade.
Isso porque sempre criam mais e maiores impostos, que só fazem
com que o capital fuja ou se esconda. Dar maior proteção
aos trabalhadores destrói postos de trabalho e deixa os desempregados
mais tempo sem emprego. A maneira mais eficaz de distribuir renda é
melhorar a educação e a saúde, garantir o acesso
à higiene e a condições de habitação.
Pode parecer bobagem, mas é muito importante adiar a idade em que
as adolescentes têm filhos, pois isso as faz abandonar os estudos.
É preciso cuidar da nutrição de quem estuda e manter
os estudantes o maior número de anos possível na escola.
Veja O analfabetismo foi reduzido em todo o continente e
os problemas sociais continuaram graves. Por quê?
Naím
Não adianta aumentar o número de vagas nas escolas se o
conteúdo é de má qualidade e continua a formar despreparados.
Gasta-se mais com o ensino superior do que com o básico e não
se dá a menor atenção à formação
dos professores. Mais grave é o fato de sempre ligarem a distribuição
de renda à distribuição da terra. A distribuição
do conhecimento é muito mais importante que a da terra. Muita gente
que tem enormes propriedades rurais gera menos dinheiro que um engenheiro
capaz de desenvolver um software. Conhecimento gera mais dinheiro e empregos.
Veja Há como atrair investimentos num momento de recessão
mundial?
Naím
Sem estabilidade macroeconômica, podem-se esquecer investimentos
de longo prazo que gerem empregos. Os investimentos continuarão
escassos em lugares onde os executivos não possam andar pela rua,
porque temem ser mortos pela violência descontrolada, ou onde é
preciso pagar propina para fazer qualquer negócio. Um lugar no
qual as regras do jogo mudam todos os dias só atrai o dinheiro
de mafiosos e de investidores inescrupulosos.
Veja O senhor disse que a América Latina ficou invisível
para os Estados Unidos depois de 11 de setembro. Ficará assim por
muito tempo?
Naím
Infelizmente, o continente deixará de ser invisível de forma
trágica. Haverá mais países fracassados que bem-sucedidos.
Se o governo americano não ajuda bons presidentes a mudar essa
tendência, haverá mais países parecidos com o Haiti
do que com o Chile. É muito importante para os Estados Unidos saberem
que, por haver ignorado tanto tempo um país tão remoto como
o Afeganistão, eles tiveram uma tragédia no coração
de Nova York. A decisão americana de abandonar o Afeganistão
durante sua desagregação, nos anos 90, e a de se excluir
do conflito no Oriente Médio só tornaram essas situações
mais desesperadoras. Uma quantidade de Afeganistãos, de países
fracassados, pode provocar tragédias freqüentes.
Veja Um dos desafetos de George W. Bush é o presidente
Hugo Chávez, da Venezuela. Como os Estados Unidos deveriam lidar
com Chávez?
Naím
O problema de Hugo Chávez não é político,
é psiquiátrico. Para diagnosticar a evolução
do quadro dele é melhor perguntar a um psiquiatra que a um analista
político ou econômico. Ele já demonstrou que é
um desastre como governante. Nunca houve tanta pobreza e tanta desigualdade
na Venezuela. É o exemplo de líder que gera muitas expectativas
e apoio popular, que promete muito, mas suas políticas só
geram mais erros. Erra pela ideologia e pela incompetência.
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