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Edição 1 777 - 13 de novembro de 2002
Entrevista: Moisés Naim

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"Bush
precisa agir"

Editor da Foreign Policy diz que
governo dos EUA esqueceu a
América Latina bem no momento
em que ela mais precisa de ajuda

Raul Juste Lores

 
Roger L. Wollenberg Photo
"O problema de Hugo Chávez não é político,
é psiquiátrico. Para fazer o diagnóstico de seu governo é melhor perguntar a um psiquiatra que a um analista político ou econômico"

O venezuelano Moisés Naím, de 50 anos, é um estudioso e observador privilegiado do que acontece em política internacional. Ele dirige há dois anos a revista Foreign Policy, publicação americana especializada em relações internacionais. Grandes nomes, como Francis Fukuyama, Joseph S. Nye Jr. e Paul Krugman e até o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, escrevem para a revista, que foi fundada em 1970. Ministro da Indústria e Comércio da Venezuela no início dos anos 90, diretor executivo do Banco Mundial entre 1992 e 1995, Naím também é colunista do jornal inglês Financial Times e escreveu oito livros sobre economia e política internacionais. Mesmo às vésperas de uma eventual guerra entre os Estados Unidos e o Iraque e com a economia mundial em marcha lenta, ele mantém o otimismo. "A globalização econômica não se deteve e a política se intensificou depois do 11 de setembro", diz. "Países que nem se falavam há um ano hoje em dia são aliados." Naím falou a VEJA de Washington, onde mora.

Veja – Por que os Estados Unidos querem depor Saddam Hussein?
Naím – Há razões de natureza psicológica e de política doméstica. Uma guerra para distrair de problemas internos, que são muitos. Há também a intenção de eliminar a ameaça genuína que Saddam Hussein representa. A decisão iraquiana de permitir a volta dos inspetores da ONU é fruto do temor de uma invasão americana. O problema é que a ameaça não foi grande o bastante para que Saddam deixe o poder. De qualquer forma, é difícil para os americanos justificarem uma invasão em massa, mesmo a pretexto de eliminar a ameaça de guerra nuclear ou biológica. O verdadeiro objetivo é tirar Saddam do poder. Mas por que só ele e não outros ditadores perigosos?

Veja – Bush acabou criando o clima de uma guerra fria. Não foi longe demais?
Naím – É muito importante dizer que há uma guerra de idéias dentro do governo Bush tão violenta quanto a dos Estados Unidos com o Iraque. De um lado estão aqueles que acham que a guerra contra o Iraque e o unilateralismo americano são um erro. Pensam que o mundo é um lugar complicado e que qualquer aproximação tem de envolver o diálogo com os aliados. Do outro lado estão aqueles que defendem um ataque ao Iraque para tirar Saddam do poder. Acreditam que, visto que os Estados Unidos são um poder hegemônico e imperial, têm o dever histórico de fazê-lo. Ou seja, partem do pressuposto de que o mundo é anárquico e que o dever da potência é o de impor a ordem. A prova de fogo, de quem manda no governo Bush, será o Iraque.

Veja – Bush tem liderança suficiente para um momento tão complexo?
Naím – Existia a sensação de que Bush não tinha opinião própria e podia ser influenciado por seus auxiliares mais próximos. É preciso prestar atenção nas mudanças ocorridas com ele após os atentados de 11 de setembro. O presidente atual é muito diferente daquele que foi eleito. Antes, Bush era contra missões de paz e discordava do conceito de que é possível ou necessário construir nações. Pois fez as duas coisas no Afeganistão. Antes, ele fazia pouco-caso dos pacotes de socorro financeiro a países do Terceiro Mundo. Agora, apoiou o pacote para o Brasil, um dos maiores já concedidos pelo FMI. Antes, era contrário a políticas multilaterais. Depois dos atentados, precisou da ajuda dos serviços de inteligência de outros países para vigiar o mundo. Bush está sendo educado pela realidade. Mas o processo de reeducação custa caro para o resto da humanidade.

Veja – Os enormes gastos militares americanos vão causar uma nova corrida armamentista?
Naím – Os ataques terroristas mostraram que a superioridade militar não garante a invulnerabilidade do território e dos cidadãos. Por isso surpreende que a reação do governo Bush seja expandir a superioridade militar dos Estados Unidos. Depois do 11 de setembro, o governo americano propôs um orçamento militar superior à soma dos orçamentos dos 25 países que mais gastam em suas Forças Armadas. Um humorista americano do início do século XX dizia que a utilidade das guerras era ensinar geografia aos americanos. Com o 11 de setembro, muitos americanos perceberam que não podem dar-se ao luxo de ignorar o resto do mundo. A opinião pública americana sabe agora que o que ocorre no mundo tem conseqüências em sua vida cotidiana. Pena que, por enquanto, a resposta seja apenas militar.

Veja – Não há facetas positivas na hegemonia americana?
Naím – Gostaria de perguntar aos leitores de VEJA qual poder hegemônico escolheriam, visto que sempre há um país dominante. Se não forem os Estados Unidos, com seus defeitos, mas também com suas virtudes, prefeririam a França, a China, a Rússia, a Alemanha ou a Inglaterra? Os candidatos são poucos e igualmente imperfeitos. Imagine o governo chinês ou o russo com o poder que os americanos têm hoje. E os alemães com tal poder militar? Os Estados Unidos podem ser imperiais, mas respeitam os direitos humanos, a liberdade e levam em conta as minorias.

Veja – O movimento antiglobalização não ganhou fôlego com o antiamericanismo crescente?
Naím – Acho que o 11 de setembro fez um dano enorme a esses movimentos. Note como diminuíram aquelas megamanifestações. Elas refletiam enorme variedade de pontos de vista, que iam do sublime ao ridículo. Eram expressões de insatisfação com relação a muitas coisas, da globalização à comida geneticamente modificada, passando pela sobrevivência das tartarugas e pelos direitos palestinos. O problema é que não ouvíamos desses movimentos propostas concretas, viáveis nem práticas. É bom que pensem nas soluções, não só na choradeira.

Veja – A globalização vai entrar em um período de marcha lenta?
Naím – O comércio mundial crescerá 8% na segunda metade deste ano e provavelmente ainda mais no próximo ano. Dois meses depois dos ataques de 11 de setembro, a Organização Mundial do Comércio (OMC), reunida em Doha, aprovou uma nova rodada de negociações para liberalizar o comércio. Neste ano, e pela primeira vez em quase uma década, o Congresso americano autorizou o presidente a negociar tratados internacionais de livre-comércio por via rápida. A China se tornou membro da OMC, e a Rússia logo será admitida. O mais importante é que os atentados terroristas geraram colaboração intensa entre governos que antes mal se falavam. Foram um curso intensivo para quem pensava que a globalização só tinha a ver com comércio e investimentos. Os terroristas mostraram como aviões, internet e a fácil movimentação internacional de pessoas e dinheiro são úteis para disseminar o ódio, o preconceito, o crime e o horror, da mesma forma que espalham melhores oportunidades econômicas e educativas.

Veja – O Consenso de Washington previa que o crescimento econômico viria com a abertura da economia. Por que isso não ocorreu?
Naím – É verdade que prometeu uma prosperidade que não veio. Mas muitas coisas do Consenso de Washington são válidas. Por exemplo, continua a ser verdade que, se um governo gasta mais do que arrecada, vai produzir inflação. Um país protecionista vai crescer menos que aquele de economia aberta, que atrai investimentos, exporta e importa livremente. Note que o Consenso foi proposto como resposta às condições de uma época em que já não havia ideologias e muitas teorias, como a substituição de importações proposta pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), que causou tanto entusiasmo nos anos 60 e 70, estavam desprestigiadas. Acabou sendo usado para fins para os quais não se destinava.

Veja – Como assim?
Naím – O Consenso de Washington nada dizia sobre política social, sobre globalização, sobre o que fazer depois que um país já estivesse aberto ao mundo e, portanto, mais vulnerável às oscilações da economia mundial. Nada dizia sobre como pôr a funcionar o sistema judiciário, tributário, de saúde. Nasceu para derrotar a hiperinflação e o endividamento exagerado, que eram os grandes temas no fim dos anos 80. Falta elaborar uma receita posterior.

Veja – Mas o comércio global continua a funcionar pela lei do mais forte.
Naím – Há distorções e injustiças que continuam a favorecer os países mais poderosos. Mas a solução não é impor barreiras às importações nem aumentar os subsídios à produção. São medidas que só agravam o problema, em vez de solucioná-lo. A luta é fazer com que os outros cortem as barreiras, não o inverso. Seria suicídio para o Brasil querer competir com os Estados Unidos ou com a União Européia em volume de subsídios. Primeiro, porque não há dinheiro no Brasil para isso. Entre subsidiar produtos agrícolas e gastar na educação, é muito melhor investir nas crianças.

Veja – O governo americano dá muito menos atenção ao Brasil do que deveria?
Naím – Bush deveria convidar o presidente eleito do Brasil para visitar sua fazenda no Texas e lhe propor um acordo irrecusável. Oferecer amplo acesso ao mercado americano para os calçados, o açúcar, os têxteis, o aço, a soja e a laranja. As exportações brasileiras cresceriam em 5 bilhões de dólares. Um acordo com o FMI para manter a estabilidade macroeconômica no Brasil poderia terminar com o temor dos mercados de que o Brasil caminha para uma moratória catastrófica, no estilo da argentina. Com esse apoio, o Brasil teria expectativas de crescimento e estabilidade, o que só atrairia mais investimentos para o país.

Veja – Acesso livre ao mercado americano é tudo o que Bush tem a oferecer ao Brasil?
Naím – O presidente americano deveria também apoiar um grande projeto antipobreza, desenvolvido por brasileiros e supervisionado pelo Banco Mundial e pelo BID. Em troca, poderia pedir que o Brasil abrisse setores em que os investimentos estrangeiros e as importações ainda são restritos. Pediria também ao país para obedecer a objetivos fiscais e monetários que garantissem a própria estabilidade. Um acordo entre os Estados Unidos e o Brasil não resolveria todos os problemas do continente, mas uma proposta assim deixaria de lado a paralisia das negociações da Alca e seria a primeira boa notícia na região em muito tempo. Bush precisa agir, ter vontade de fazer história.

Veja – Como resolver a desigualdade social na América Latina, que só cresceu?
Naím – Quase todas as receitas experimentadas acabaram gerando maior desigualdade. Isso porque sempre criam mais e maiores impostos, que só fazem com que o capital fuja ou se esconda. Dar maior proteção aos trabalhadores destrói postos de trabalho e deixa os desempregados mais tempo sem emprego. A maneira mais eficaz de distribuir renda é melhorar a educação e a saúde, garantir o acesso à higiene e a condições de habitação. Pode parecer bobagem, mas é muito importante adiar a idade em que as adolescentes têm filhos, pois isso as faz abandonar os estudos. É preciso cuidar da nutrição de quem estuda e manter os estudantes o maior número de anos possível na escola.

Veja – O analfabetismo foi reduzido em todo o continente e os problemas sociais continuaram graves. Por quê?
Naím – Não adianta aumentar o número de vagas nas escolas se o conteúdo é de má qualidade e continua a formar despreparados. Gasta-se mais com o ensino superior do que com o básico e não se dá a menor atenção à formação dos professores. Mais grave é o fato de sempre ligarem a distribuição de renda à distribuição da terra. A distribuição do conhecimento é muito mais importante que a da terra. Muita gente que tem enormes propriedades rurais gera menos dinheiro que um engenheiro capaz de desenvolver um software. Conhecimento gera mais dinheiro e empregos.

Veja – Há como atrair investimentos num momento de recessão mundial?
Naím – Sem estabilidade macroeconômica, podem-se esquecer investimentos de longo prazo que gerem empregos. Os investimentos continuarão escassos em lugares onde os executivos não possam andar pela rua, porque temem ser mortos pela violência descontrolada, ou onde é preciso pagar propina para fazer qualquer negócio. Um lugar no qual as regras do jogo mudam todos os dias só atrai o dinheiro de mafiosos e de investidores inescrupulosos.

Veja – O senhor disse que a América Latina ficou invisível para os Estados Unidos depois de 11 de setembro. Ficará assim por muito tempo?
Naím – Infelizmente, o continente deixará de ser invisível de forma trágica. Haverá mais países fracassados que bem-sucedidos. Se o governo americano não ajuda bons presidentes a mudar essa tendência, haverá mais países parecidos com o Haiti do que com o Chile. É muito importante para os Estados Unidos saberem que, por haver ignorado tanto tempo um país tão remoto como o Afeganistão, eles tiveram uma tragédia no coração de Nova York. A decisão americana de abandonar o Afeganistão durante sua desagregação, nos anos 90, e a de se excluir do conflito no Oriente Médio só tornaram essas situações mais desesperadoras. Uma quantidade de Afeganistãos, de países fracassados, pode provocar tragédias freqüentes.

Veja – Um dos desafetos de George W. Bush é o presidente Hugo Chávez, da Venezuela. Como os Estados Unidos deveriam lidar com Chávez?
Naím – O problema de Hugo Chávez não é político, é psiquiátrico. Para diagnosticar a evolução do quadro dele é melhor perguntar a um psiquiatra que a um analista político ou econômico. Ele já demonstrou que é um desastre como governante. Nunca houve tanta pobreza e tanta desigualdade na Venezuela. É o exemplo de líder que gera muitas expectativas e apoio popular, que promete muito, mas suas políticas só geram mais erros. Erra pela ideologia e pela incompetência.

 
 
   
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