Edição 1 619 - 13/10/1999
 

Revolta da soja

Agricultores gaúchos partem
para rebelião transgênica

Rodrigo Vieira da Cunha, de Passo Fundo

Edison Vara
Candaten: "Já plantei e vou fazer de
novo, se todo mundo plantar"


Nos próximos dias, quando começar a temporada de plantio de soja no Rio Grande do Sul, agricultores gaúchos estarão comprando uma briga federal. Eles prometem plantar até 1 milhão de hectares, quase um terço da área cultivada no Estado, com sementes manipuladas geneticamente. A notícia, que poderia ser saudada como um avanço tecnológico, cria um ambiente de confronto. O cultivo está proibido pela Justiça Federal desde agosto, e o governador Olívio Dutra, do PT, transformou seu Estado em zona proibida aos transgênicos. Os municípios gaúchos de Cruz Alta, Tupanciretã e Jóia se rebelaram, promulgando leis que autorizam o plantio da soja transgênica. Até a semana passada, os produtores de sementes convencionais só haviam vendido metade da quantidade habitual. Os produtores estão comprando variedades transgênicas contrabandeadas da Argentina. "Plantei 2 hectares em 1998 e farei de novo se todo mundo plantar", diz Izoldino Candaten, vereador de Passo Fundo e autor de um projeto de lei para autorizar o cultivo. As sementes da discórdia já chegaram ao Paraná, a Mato Grosso do Sul e a Goiás.

Os produtores na verdade não querem briga, querem lucro. Desenvolvida pela multinacional americana Monsanto, a semente transgênica é resistente ao herbicida mais comum, diminuindo perdas. Ela tem uma produtividade 5% a 8% maior. Até o final deste ano, estará em 40 milhões de hectares de países como Estados Unidos, Austrália, Canadá, China e Argentina. As resistências nasceram das organizações ambientalistas internacionais, preocupadas com possíveis danos ambientais. A discussão ganhou um tom ideológico: os pró-transgênicos foram associados à direita, os anti, à esquerda. As produtoras de sementes engrossaram o caldo com iniciativas que pareciam destinadas a transformar os agricultores em escravos de um punhado de companhias todo-poderosas, no controle da oferta de sementes. A materialização desse pânico foi o desenvolvimento de uma semente estéril, o Terminator, pela Monsanto. Isso impossibilitaria o agricultor de reservar parte da colheita para plantar a safra seguinte, obrigando-o a comprar novas sementes todo ano. A reação da opinião pública foi tão forte que a Monsanto arquivou o Terminator. No Brasil, a briga contra os transgênicos uniu Ibama, Greenpeace, PT e MST. O secretário de Agricultura do Rio Grande do Sul, José Hoffmann, desafiou os agricultores revoltosos: "Na próxima safra de verão não haverá uma única planta de soja transgênica no Rio Grande do Sul". Resta saber como o governo gaúcho vai conseguir isso.

 
 

 




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