Edição 1 619 - 13/10/1999
 

O gel do prazer

Nova droga contra a impotência,
com ereção garantida, é aplicada
na pele, como pomada

Marcos Gusmão

Depois do Viagra, lançado há quase dois anos, muita gente acreditou que iria demorar um bom tempo para aparecer uma novidade capaz de rivalizar com a pílula azul contra a impotência. Puro engano. Na semana passada, um grupo de cientistas da Universidade de Boston anunciou que é possível induzir a ereção com a simples aplicação de um novo gel no pênis. O produto, ainda em fase de teste, mostrou-se eficaz em pelo menos 40% dos homens que o aplicaram, a maioria vítima de impotência moderada ou grave. A expectativa dos médicos é de que, com essa eficácia, ele sirva para tratar o porcentual de pacientes que não podem usar o Viagra e seus primos à base de fentolamina. A experiência nos consultórios e as pesquisas clínicas têm mostrado que cerca de 30% dos homens com problemas de impotência não podem usar a pílula azul, a maioria devido a problemas cardíacos.

Chamado de Topiglan, o gel para estimular a ereção foi apresentado oficialmente à Sociedade Americana para Estudo da Impotência durante um congresso de especialistas na semana passada. Nos Estados Unidos existem 30 milhões de homens com problema de disfunção erétil. No Brasil, estima-se que 10 milhões estão na mesma situação. O prodigioso gel, que tem tudo para ser um sucesso comercial quando chegar às farmácias, tem como princípio ativo uma droga já bastante conhecida dos médicos, a prostaglandina. Essa substância, um neurotransmissor produzido pelo organismo e reproduzido em laboratório, é extremamente eficaz no tratamento da impotência. Mas tinha o inconveniente de precisar ser injetada no pênis com uma seringa. Ou então inserida pela uretra sob forma de supositório. De uma maneira ou de outra, para chegar à corrente sanguínea, requeria acessórios nada cômodos de ser usados e manipulados durante um encontro romântico.

"Com o Topiglan, a absorção da prostaglandina ocorre através da própria pele do pênis", diz Irwin Goldstein, urologista da Universidade de Boston envolvido nas pesquisas e uma das maiores autoridades mundiais em impotência. Essa nova façanha na guerra para acabar com esse martírio só foi possível graças à combinação da prostaglandina com uma nova substância química batizada de SEPA. Desenvolvida pela MacroChem, uma empresa americana especializada em biotecnologia de ponta, a SEPA é capaz de aumentar a capacidade de absorção da pele. Com a epiderme mais permeável, o neurotransmissor pode atingir a musculatura do corpo cavernoso, no interior do pênis. Ali, estão localizados os principais vasos sanguíneos responsáveis pela ereção (veja quadro abaixo).

A principal diferença entre a nova droga em forma de gel e o Viagra é a garantia da indução da ereção. "A prostaglandina tem efeito garantido", diz o urologista Eric Wroclawski, da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana. "O Viagra e as outras drogas de via oral são apenas facilitadores da ereção, e por isso precisam de estímulo sexual", afirma. Ou seja, mesmo sem estar sexualmente excitado, o homem que usar o gel de prostaglandina terá a ereção. Com um detalhe, que pode ser visto como incômodo ou bênção, dependendo das circunstâncias: a prostaglandina mantém a ereção por um longo período, mesmo depois do orgasmo. Isso não acontece com os usuários de comprimidos. "Depois do orgasmo, o Viagra e o Vasomax não têm mais efeito sobre o pênis", diz o urologista Celso Gromatzky, da Universidade de São Paulo, USP.

O grau de impotência varia de leve a moderado e grave. Os comprimidos de ereção costumam agir somente em patologias leves e moderadas. O novo gel pode ser a esperança para os casos mais graves, aqueles em que não há vestígios de ereção. As pesquisas realizadas até agora têm chegado a resultados animadores. Numa delas, publicada em setembro na edição americana do Jornal de Urologia, a eficácia chegou a 75%, semelhante à das drogas de via oral. Em outro trabalho, Goldstein aplicou a droga em 31 pacientes. Doze deles tiveram ereção num período entre 45 e 60 minutos, sem usar nenhum outro estímulo além do Topiglan.

O novo gel não conseguiu eliminar o principal risco da prostaglandina. A superdosagem do neurotransmissor pode provocar priapismo, ereção que dura até mais de seis horas. Quando isso acontece, além de fortes dores no pênis, podem ocorrer danos irreversíveis à musculatura do corpo cavernoso. Por essa razão, o gel só poderá ser utilizado sob supervisão médica. Outro problema observado nos pacientes foi uma irritação cutânea no órgão. Os resultados da pesquisa divulgada na semana passada mostraram que esse transtorno diminui quando o gel é aplicado somente na glande. Novos estudos sobre os efeitos colaterais do gel continuarão sendo feitos, mesmo porque o rigoroso FDA, o órgão do governo americano responsável pela fiscalização de medicamentos e alimentos, ainda não deu seu aval ao produto. "O mais provável é que o gel venha a ser usado junto com outros tipos de tratamento, formando um coquetel de remédios que garanta a ereção", prevê Celso Gromatzky.

 

 
 

 

Com reportagem de Pablo Nogueira

 




Copyright © 1999, Abril S.A.

Abril On-Line