Edição 1875 . 13 de outubro de 2004

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Tales Alvarenga
O PT míope

"Nietzsche tem uma soberba, uma arrogância,
uma tal petulância que me levou a pensar em
alguns figurões da cúpula do PT que se
distinguem pelas mesmas características"

Na terça-feira passada, submeti-me a uma cirurgia nos olhos para ver o mundo sem deformação. Na mesma noite, graças ao progresso das operações a laser, pude ler pela primeira vez sem óculos em duas décadas. Escolhi, como leitura, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, um dos mais provocantes pensadores da cultura ocidental. Nietzsche tem uma soberba, uma arrogância, uma tal petulância que me levou a pensar em alguns figurões da cúpula do PT que se distinguem pelas mesmas características: José Dirceu, Marta Suplicy, Aloizio Mercadante.

Sobre seu livro mais famoso, Assim Falava Zaratustra, escrito há mais de 100 anos, Nietzsche informa: "Com ele, dei à humanidade o maior presente que lhe foi dado até hoje. Esse livro, com sua voz que será ouvida ainda em milênios, não é apenas o livro mais alto que existe. Ele é também o mais profundo que veio ao mundo". Na sua autobiografia filosófica, Ecce Homo, Nietzsche coloca nos três primeiros capítulos os seguintes títulos: 1) "Por que eu sou tão sábio"; 2) "Por que eu sou tão inteligente"; 3) "Por que eu escrevo livros tão bons".

Nietzsche tinha dois ou três motivos para ser arrogante. Os petistas não têm nenhum, a não ser a imagem deformada de sua própria importância, criada pela miopia do partido. O PT já tentou impor a censura à imprensa no Brasil e inventou uma fórmula chamada Ancinav para controlar as manifestações culturais. Infiltrou seus militantes na máquina administrativa num número nunca igualado por nenhuma outra legenda e financiou campanhas eleitorais milionárias sem constrangimento algum. Nas últimas eleições municipais, fez alianças desesperadas, mandando às favas os escrúpulos éticos que exibiu por mais de vinte anos.

O PT faz isso em decorrência de sua origem como partido que se incumbiu a si próprio de salvar o Brasil da perversidade das elites locais. Julga-se, por esse motivo, o único representante legítimo dos interesses populares. Nessa posição, acha que fala em nome do povo e que tudo lhe é permitido.

O PT venceu as eleições municipais, cresceu muito e se estabeleceu no país inteiro. Está mais do que na hora de se submeter a uma cirurgia dos olhos para avaliar melhor a complexidade do universo em que atua. Seu complexo de Nietzsche, sua prepotência, só prejudica o sonho petista de se instalar no poder por mais vinte anos.

A cirurgia ocular do PT deveria vir destas eleições municipais. A vitória foi respeitável no geral. No particular, o partido sofreu humilhações. A reeleição de Marta Suplicy em São Paulo foi apontada pelos próprios petistas como o grande teste para a eleição presidencial de 2006. Acuado, com pavor de perder, o PT apelou até para uma aliança descarada com o ex-arquiinimigo Paulo Maluf. Marta foi batida no primeiro turno e tentará a última chance no segundo. No Rio, o petista Jorge Bittar teve 6,3% dos votos. Em São Bernardo, onde o PT nasceu do movimento sindical, Vicentinho, amigo de Lula, foi derrotado. Para a eleição em Salvador, o Palácio do Planalto fez um acerto com ACM e ficou contra seu próprio candidato, Nelson Pellegrino. Na semana passada, a cúpula do PT não dava sinais de que precisa refletir sobre os rumos do partido. O título completo da autobiografia de Nietzsche é: Ecce Homo – De Como a Gente Se Torna o que a Gente É.

 
 
 
 
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