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Ponto
de vista: Claudio
de Moura Castro Por que
a Sinfônica não tem negros?
"Não
temos negros e quase não temos pobres na música erudita porque
não há onde possam
aprender instrumentos aos 7 anos de idade"
Eu assistia a um belo concerto da Orquestra Sinfônica
Brasileira. Mas a concentração derrapou, e comecei a olhar para
os músicos. Notei que não existiam negros ou mulatos dentre eles.
Não há de ser por falta de talento, pois brilham em nossa música
popular, e não haveria razões para pensar em uma falha genética
prejudicando seu pendor para a música erudita.
Existem centenas de departamentos de música no ensino superior. Não
obstante, com freqüência os jornais noticiam a contratação
de instrumentistas estrangeiros (sobretudo do Leste Europeu).
Ilustração
Ale Setti
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A
resposta para tal enigma é muito simples. Como sabe qualquer professor
de piano experiente, quem quer ser pianista tem de começar antes de 10
anos de idade. Começando mais tarde, pode desfrutar divinamente a convivência
com o instrumento e entreter parentes, mas, para virar instrumentista, perdeu
o bonde. Há uma programação no sistema nervoso que não
espera. Ou acontece na idade certa, ou não acontece.
Não temos negros e quase não temos pobres na música erudita
porque não há onde possam aprender instrumentos aos 7 anos de idade
Brasília e Tatuí e mais alguns programas paulistas são
exceções neste enorme Brasil. Quem chega ao umbral da universidade
sem mais de dez anos de experiência acumulada com o instrumento não
poderá se beneficiar dela para se aperfeiçoar como músico.
No Brasil, só começaram a tocar na idade certa os jovens de classe
média, por causa da família. E, como existem poucos candidatos (em
alguns casos, há tantos alunos quanto professores), os custos por aluno
são altíssimos. Ou seja, é ineficaz e caro.
Quando as bandas de música eram mais numerosas, preparavam instrumentistas
para os metais das sinfônicas. O próprio maestro Eleazar de Carvalho
começou tocando tuba na banda de fuzileiros navais de Aracati.
O que foi dito para a música se aplica igualmente às áreas
acadêmicas. Nelas, também há um relógio biológico
que vai fechando as portas para o desenvolvimento cognitivo. Ao chegar à
universidade, é tarde demais para consertar a devastação
feita por um ensino que não conseguiu estimular nem exercitar a inteligência.
Claro, existem sobreviventes que superam as deficiências de um ensino pobre.
Mas são as exceções, como se pode verificar pela modestíssima
proporção de pobres brancos e negros que chegam ao
fim do ensino médio e pelo número ínfimo dos que podem enfrentar
os vestibulares mais competitivos.
O MEC faria muito melhor se redirecionasse grande parte dos professores dos departamentos
universitários de música para formar jovens instrumentistas a partir
de 7 anos. Se fizesse isso, certamente suas vagas no ensino superior de música
seriam preenchidas por futuros virtuosos e os cursos estariam cheios de alunos
(no Conservatório Popular de Genebra há 22 alunos por professor).
E, como os dons musicais não conhecem classe social, a música erudita
poderia ser um magnífico canal de mobilidade para jovens pobres, de qualquer
raça. Os países do Leste Europeu produzem tantos músicos
clássicos justamente porque têm escolas para capturar os talentos
mais jovens. As escolas públicas americanas, igualmente, oferecem formação
instrumental desde muito cedo. Não há novidades, não há
segredos.
Novamente, o paralelo com o ensino acadêmico se impõe. Se o Estado
cuidasse melhor do ensino fundamental, não seria necessário propor
mecanismos compensatórios de penosa implementação para os
candidatos ao ensino superior de origem mais pobre. Sem tirar os méritos
de alguns mecanismos de cotas que vêm sendo propostos (como o da Unicamp),
ou do apoio ao ensino médio (como na Universidade Federal de Santa Maria),
serão sempre soluções paliativas beneficiando muito poucos,
pois a maioria já ficou para trás.
Se queremos que nossos médicos e violinistas de primeira linha venham de
todas as classes sociais, é preciso que comece cedo seu aprendizado. O
país deveria oferecer oportunidades para que desabrochassem plenamente
os talentos precocemente detectados. O relógio biológico não
espera os burocratas da educação.
Claudio
de Moura Castro é economista (claudiodmc@attglobal.net) |