Edição 1875 . 13 de outubro de 2004

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Televisão
Revolução dos bichos

Os programas sobre animais fazem sucesso
comparando-os com os seres humanos


Ricardo Valladares

 
Fotos divulgação
SAGAS SELVAGENS
Relatos dramáticos da vida animal e analogias com o ser humano

Na semana passada, o canal pago Animal Planet colocou no ar o reality show O Rei da Selva, no qual doze participantes competem pelo direito de gravar seu próprio programa sobre vida selvagem. Os concorrentes – que são biólogos, veterinários ou naturalistas – são julgados em vários quesitos: conhecimentos sobre fauna e flora, preparo físico, carisma. O objetivo é revelar um apresentador que seja íntimo da bicharada e – esta é a parte difícil – agrade ao telespectador. Essa espécie de gincana responde a um aumento no interesse por programas sobre animais. "A demanda por esse tipo de documentário dobrou nos últimos três anos. A idéia é criar cada vez mais novos formatos", diz o vice-presidente do grupo Discovery, Guillermo Sierra. Formado pelos canais Animal Planet e Discovery Channel, o grupo é, ao lado do National Geographic Channel e da BBC de Londres, um dos maiores produtores de programas sobre vida animal. O custo dessas atrações varia de 400 000 a 8 milhões de dólares. Uma produção típica sai pelo valor mais baixo, o equivalente a sete capítulos de uma novela da Globo, que custam em média 180 000 reais cada um. O investimento compensa: o espectador aprecia a oportunidade de conhecer as savanas africanas e os recifes de coral do Pacífico sem abandonar a segurança e o conforto de sua sala de estar.

Um pouco de aventura e boas doses de informação são ingredientes importantes na fórmula que prende o público. Mas existe outro artifício. Como notou certa vez o paleontólogo americano Stephen Jay Gould, um dos maiores nomes da biologia moderna, estudiosos de animais sempre acharam difícil escapar dos paralelos com o comportamento humano na hora de relatar seus achados. Por mais que se esforcem, eles são incapazes "de evitar categorias familiares de épico e narrativa, dor e destruição, vítima e vencedor" e se mantêm apegados "às estruturas de nossas próprias sagas culturais". Os programas sobre bichos da televisão não brigam contra essa tendência, muito pelo contrário: eles a reforçam. Quase todos dão um tom romanesco aos esforços de suas estrelas – que podem ser um casal de guepardos ou uma matilha de cachorros-do-mato – para alimentar-se, acasalar-se ou defender seu território. Alguns, como Animal Planet ao Extremo, são inteiramente calcados na comparação bem-humorada entre bichos e gente. "Os canais dedicados à vida selvagem geralmente me mandam roteiros em que há muitas analogias com o comportamento humano'', afirma Lawrence Wahba, cinegrafista da produtora brasileira Canal Azul, que já gravou quarenta documentários exibidos em mais de 100 países.

 
ÍNTIMOS DA BICHARADA
Participantes do reality show O Rei da Selva, cujo prêmio é a oportunidade de apresentar um programa sobre a vida selvagem

O formato mais tradicional de programas sobre bichos tem uma câmera estática e narração neutra. Ele ainda existe, mas está em extinção. Uma das tendências que ganharam força nos últimos tempos é usar apresentadores mais dinâmicos, que interagem com os animais (e às vezes até os aborrecem). Steve Irwin, da série O Caçador de Crocodilos, é uma estrela consagrada desse tipo de "reportagem participativa". Com seu jeitão expansivo de animador de torcida, o homem é uma verdadeira mala de couro de jacaré. Outro destacado apresentador-aventureiro é Jeff Corwin, que tem um programa com seu próprio nome, além de capitanear a gincana de O Rei da Selva. Aprumado mesmo quando tem uma cobra enroscada no pescoço, Jeff faz o gênero "mauricinho selvagem". Também no Animal Planet, As Ousadias de Mike e Mark coloca os malucos sul-africanos Mike Penman e Mark Tennant a poucos metros de rinocerontes, leões e crocodilos. No programa Ser Animal, da National Geographic, os irmãos Chris e Martin Kratt acreditam que o melhor jeito de entender como vive um bicho é macaqueando seu comportamento. A dupla adora trepar em árvores.

 
OUSADIAS
Os sul-africanos Mike Penman e Mark Tennant, cuja especialidade é chegar o mais perto possível de grandes predadores

A segunda tendência em alta é o uso da computação gráfica e dos truques de estúdio. Um programa que faz sucesso entre a garotada é o Duelo Animal, da Discovery Channel. Sua equipe constrói réplicas cibernéticas de grandes bichos para responder a perguntas malucas como: quem venceria a luta entre um hipopótamo e um tubarão? A mesma linha das competições impossíveis, com cangurus e gafanhotos disputando provas de salto, é seguida em Olimpíada dos Bichos, programa de computação gráfica da BBC exibido pela Record como um quadro do Domingo Espetacular. "Esses programas com animais dão picos de audiência", diz o diretor de jornalismo da emissora, Douglas Tavolaro. A vida selvagem, como se vê, também é negócio para a televisão aberta. O Fantástico traz quadros animais, e o Globo Repórter freqüentemente faz matérias no Pantanal e na Amazônia. A RedeTV! coloca no ar, aos sábados, o Late Show, programa de animais apresentado pela gatíssima Luisa Mell. "As pessoas adoram filhotes, eles são fofos", ronrona Mell.

 
OLIMPÍADAS
O uso da computação gráfica tornou-se a nova tendência dos documentários

Os documentários animais são produções cada vez mais especializadas. Existe até uma bienal do gênero, na qual profissionais do mundo inteiro concorrem ao Panda de Ouro, uma espécie de Oscar da categoria. A maioria dos documentários conta com consultores especializados que zelam pela consistência científica. A National Geographic é a mais rigorosa nesse ponto, exigindo relatórios para justificar cada cena. Não é à toa que o canal já ganhou mais de 800 prêmios da indústria da televisão. Como se vê, não basta uma câmera na mão para ser o Glauber Rocha do Pantanal.

 
DUELO ANIMAL
Quem é o mais forte, o hipopótamo ou o tubarão? Cientistas respondem a essa pergunta no laboratório, com protótipos mecânicos dos "lutadores"

 

 
 
 
 
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