Edição 1875 . 13 de outubro de 2004

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Livros
O rei dos ouriços

O formidável sistema filosófico
e as muitas polêmicas públicas
do alemão Jürgen Habermas


Carlos Graieb

EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro Filosofia em tempo de terror, de Jürgen Habermas

Todos os pensadores, escreveu certa vez o ensaísta britânico Isaiah Berlin, podem ser divididos em duas espécies. Uns defendem, ao longo da vida, idéias diversificadas que não têm relação necessária entre si. Trata-se das raposas. Os outros constroem sistemas, nos quais tudo se articula de maneira harmônica. Berlin os chamou de ouriços. O filósofo alemão Jürgen Habermas, de 75 anos, é o ouriço que os ouriços invejam e reverenciam: o mais destacado filósofo sistemático da atualidade e um dos poucos cujo nome, com certeza, já ficou inscrito na história da disciplina. Sua obra gira em torno do conceito de comunicação, de como ele se articula com o conceito de racionalidade, e de como ambos podem servir de fundamento para as instituições das sociedades democráticas. A partir desse núcleo básico, Habermas ergueu um edifício enorme, que avança pelos campos da sociologia, da psicologia, da teoria política e do direito, e no qual tradições de pensamento aparentemente irreconciliáveis encontram o seu encaixe e acabam assimiladas. Diz a piada que Habermas é tão coerente que até sua distração predileta tem a ver com a filosofia que ele criou: o teórico do "agir comunicativo" só poderia mesmo gostar de pingue-pongue, jogo que faz pensar numa intensa troca de argumentos entre dois participantes.

A obra filosófica de Habermas é escrita num linguajar pesadão, desacolhedor até para especialistas. Mas ele sabe se fazer ouvir também fora da universidade. Participou de todas as grandes polêmicas de seu país nas últimas quatro décadas, e há quem o chame de "consciência moral da nação". Habermas não aparece na TV (sua pronúncia é fanha, por causa de uma deformação no palato e no lábio superior), mas ele é colaborador freqüente do jornal liberal Die Zeit e figura conhecida o bastante para que lhe fosse oferecido, anos atrás, o posto de ministro da Cultura da Alemanha. Não são poucos os políticos, aliás, que o apontam como guru informal – entre eles, a estrela Joschka Fischer, atual ministro das Relações Exteriores da Alemanha. Uma amostra do estilo e do teor das intervenções públicas de Habermas se encontra em dois livros recém-lançados no Brasil: Filosofia em Tempo de Terror (tradução de Roberto Muggiati; Jorge Zahar; 216 páginas; 34,50 reais) e O Futuro da Natureza Humana (tradução de Karina Jannini; Martins Fontes; 159 páginas; 24,50 reais). A transcrição de um debate com outros filósofos e um resumo de seu trabalho mais recente sobre direito e moral também acabam de chegar às prateleiras num livrinho menor, A Ética da Discussão e a Questão da Verdade (tradução de Marcelo Brandão Cipolla; Martins Fontes; 69 páginas; 18,50 reais).

O livro mais acessível para o leigo é Filosofia em Tempo de Terror. Ele traz um contraponto entre Habermas e outra figura central da filosofia contemporânea, o francês Jacques Derrida, mentor da famigerada escola dos desconstrucionistas. Os dois autores têm uma longa história de desavenças teóricas. Habermas se apresenta como um continuador do iluminismo e de suas propostas de racionalização da vida humana (para ele, a modernidade é "um projeto inacabado"). Por muitos anos ele descreveu Derrida como um crítico magistral da tradição filosófica, cujas obras, no entanto, eram irrelevantes do ponto de vista da ação social, quando não desaguavam, nas mãos de seguidores menos talentosos, em pura masturbação lingüística ou em alguma forma estúpida de "irracionalismo" – por exemplo, a idéia de que a razão é apenas uma arma que o macho branco ocidental utiliza para oprimir e dominar. Foi surpresa, portanto, quando os dois publicaram juntos, em meados de 2003, um manifesto em que criticavam o unilateralismo americano na guerra no Iraque e defendiam a idéia de que a Europa, em vez de agir como mero apêndice dos Estados Unidos, tem o dever e as condições de impulsionar o mundo na direção de "uma ordem cosmopolita fundada no direito internacional". Organizado pela americana Giovanna Borradori, Filosofia em Tempo de Terror é um desdobramento dessa primeira colaboração.

Se Filosofia em Tempo de Terror apresenta o pensamento de Habermas sobre política internacional, O Futuro da Natureza Humana traz suas idéias sobre outra questão polêmica, a pesquisa genética com embriões. Aqui, Habermas assume uma posição bastante restritiva, alertando contra a tentação de aperfeiçoar a espécie por meio da seleção de genes – o filósofo chama essa intervenção hipoteticamente bem-intencionada de "eugenia liberal", distinguindo-a assim (ao mesmo tempo que a aproxima) da eugenia racista praticada na Alemanha durante a II Guerra. Esse complicado ensaio sobre as conseqüências filosóficas da pesquisa genética é bastante característico da maneira como Habermas procura pautar discussões na Alemanha. Aos 15 anos, o pensador fez parte da Juventude Hitlerista. Quando os primeiros filmes sobre os campos de concentração chegaram ao seu país, depois do fim da guerra, ele sofreu o choque de descobrir que servira a "um sistema politicamente criminoso". A descoberta, diz Habermas, estabeleceu o norte de sua atuação política. Ele decide intervir sempre que alguma idéia veiculada pela imprensa lhe parece nacionalista, conservadora ou irresponsável demais para um país que tem no passado recente a tragédia nazista.

Uma das brigas mais encarniçadas de Habermas ocorreu em meados dos anos 80, quando ele se opôs a todo um grupo de historiadores que procuravam relativizar o horror nazista comparando-o a outros regimes autoritários. O ensaio sobre a eugenia liberal também serviu de resposta a um oponente, o filósofo Peter Sloterdijk, que em 1999 defendeu, numa palestra pitorescamente intitulada de "Regras para o parque humano", a idéia de que o avanço da genética é uma oportunidade para "reinventar o que significa ser humano". Curiosamente, porém, o texto de Habermas, publicado pela primeira vez em 2001, não menciona essa origem polêmica. Talvez porque, entre a palestra de Sloterdijk e o ensaio de Habermas, um grande rebu tenha chacoalhado a Alemanha. Na época, Sloterdijk acusou Habermas de orquestrar uma campanha de bastidores contra ele, incitando alunos e amigos da imprensa a tachá-lo de fascista. Ele chegou a dizer que era alvo da "fatwa de Starnberg", numa menção à cidade onde vive Habermas. Apesar de muito divulgado, o episódio acabou morrendo sem arranhar a reputação do grande sábio alemão. Mas deixou claro que ele, como todo ouriço, tem lá os seus espinhos.

 
Idéias no ringue

Quem são os outros grandes
nomes da filosofia contemporânea

RICHARD RORTY
Ele retomou a tradição do pragmatismo americano, casou-a com a tradição analítica inglesa e criou uma obra de enorme originalidade Habermas: Juventude Hitlerista, pingue-pongue e ação comunicativa Berlim contra a guerra no Iraque: Habermas pede uma Europa mais ativa no plano internacional

JACQUES DERRIDA
Criador do desconstrucionismo, o francês é o autor preferido de todos os "pós-modernos"

JOHN RAWLS
Morto em 2002, o americano revigorou a filosofia política com o já clássico Uma Teoria da Justiça (1971)

 
 
 
 
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