Edição 1875 . 13 de outubro de 2004

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O príncipe das pistas

Jovem, bonito, rico e turbinado
pelo DNA, Nelsinho Piquet é grande
promessa do automobilismo


Roberta Salomone

 
Divulgação
Arquivo pessoal
Jakob Ebrey/divulgação
Nelsinho comemora a vitória na F-3: desde a infância às voltas com carros, pistas de alta velocidade e a cobrança do pai tricampeão

Quando pilotou um kart pela primeira vez, Nelson Ângelo Piquet, o Nelsinho, tinha apenas 8 anos e, criado em Mônaco pela mãe, não falava uma palavra de português. Quando chegou a hora de descer do kart, xingou, chorou, esperneou. A cena se repetiu tantas vezes que a solução familiar foi diminuir a quantidade de combustível de modo que o menino não tivesse meios de continuar na pista. Aos 19 anos, Nelsinho continua temperamental. Não sabe perder. "Quando ele tira segundo lugar, é melhor nem chegar perto", diz a namorada, Bia Antony, de 21 anos. Felizmente para ela, o jovem piloto tem tido poucos motivos para ficar irritado. No domingo passado, dia 3, o filho do tricampeão brasileiro de F-1 Nelson Piquet venceu o campeonato da F-3 inglesa, uma espécie de porta de entrada da Fórmula 1 pela qual passaram o próprio pai dele, Emerson Fittipaldi e Ayrton Senna. O passo natural seguinte é conseguir uma vaga de piloto de testes em uma das equipes de ponta da F-1. A Williams é o mais provável destino do jovem Piquet. Enquanto isso, ele também procura uma equipe na GP2, a categoria que vai substituir a F-3000. Um desempenho que não diminui em nada a cobrança do pai. "A comparação comigo é inevitável. Mas ele tem obrigação de fazer melhor que eu", diz Piquet.

A expectativa do pai Piquet é enorme. No domingo da vitória de Nelsinho, o pai acompanhou tudo por telefone, ligando insistentemente de Brasília para a Inglaterra. Só relaxou depois do resultado, comemorado com um porre de caipirinha. Piquet apostou na carreira do filho. Oito meses antes de Nelsinho completar 16 anos, criou a equipe Piquet Sports para sua estréia na F-3 sul-americana. "Eu não podia achar nada. Fazia tudo o que ele mandava", lembra Nelsinho. Piquet desembolsou pelo menos 1,5 milhão de dólares para bancar a participação do piloto na F-3 inglesa. Em Oxford, para onde se mudou no início do ano passado, Nelsinho trata de corresponder. Malha três horas por dia. A preguiça, freqüente quando ele morava no Brasil, foi deixada de lado depois do primeiro teste que fez na Williams, no fim de 2003. "Fiquei assustado com a força do carro", confessa.

Nelsinho sabe que é um privilegiado. Sempre possuiu o carro que quis, do jeito que quis. Para treinar, tinha uma pista de 5.475 metros à disposição – o autódromo que leva o nome de seu pai, em Brasília. Uma vida invejável, mas que nem sempre foi fácil. Sua adaptação ao Brasil foi dura. Ele trocou três vezes de colégio e terminou os estudos aos trancos e barrancos em um supletivo. O pai cobrava resultados nas corridas, mas também não queria que o filho perdesse o ano. Festeiro e namorador, Nelsinho tinha uma rotina diferente da dos outros meninos. Acabou amadurecendo. Na Inglaterra, mora sozinho desde março. Deixou para trás a vida de menino mimado que levava na casa do pai. Só não aprendeu a respeitar os limites de velocidade e recebe pelo menos uma multa por mês por esse motivo.

Piquet planeja cada detalhe da carreira do filho, incluindo imagem. Não quer para o rebento o Troféu Limão, uma brincadeira vingativa com que são brindados os mais antipáticos da F-1 – e que Piquet ganhou mais de uma vez. "Ele vai ser muito mais completo do que eu", acredita. Nelsinho retribui. Do pai Piquet, seu maior ídolo, não herdou a paixão pela mecânica nem pela aerodinâmica. Não suja a mão de graxa. Ao pai se atribuía tal capacidade de acerto dos carros que se dizia que, mais que piloto, Piquet era um construtor. Herdou, sim, o costume de cochilar no grid antes da largada e o desdém por Ayrton Senna: "Não tenho como negar que ele era excelente. Mas teve mais facilidades que meu pai".

 

Com reportagem de Heloísa Joly

 
 
 
 
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