Edição 1875 . 13 de outubro de 2004

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MEDICINA

Nobel
O perfume do sucesso

Nobel premia pesquisa pioneira
que desvenda como o cérebro
analisa e arquiva os aromas


Thereza Venturoli

NESTA REPORTAGEM
Quadro: A "olfateca" cerebral

Acontece com todo mundo: de repente, bate um perfume de mulher ou o aroma de pão recém-saído do forno, e é o que basta para que se volte a uma festa da adolescência ou a uma tarde da infância, diante da mesa da avó. O olfato é uma máquina do tempo poderosa, que rendeu passagens belíssimas da literatura – como aquela em que o escritor francês Marcel Proust, num trecho célebre, vê sua vida de criança se erguer inteira de uma simples xícara de chá. O olfato, contudo, foi sempre o sentido mais desconhecido da ciência – pelo menos até 1991. Nesse ano, Linda Buck, do Centro de Pesquisa do Câncer Fred Hutchinson, e Richard Axel, da Universidade Colúmbia, fizeram um primeiro estudo, em conjunto, sobre o sistema olfativo. A partir de então, durante mais de uma década, a dupla seguiu pesquisando de forma independente, mas paralela. O resultado dessa parceria a distância levou à compreensão de como os aromas invadem nosso corpo, instalam-se na memória e permanecem arquivados nela. O trabalho pioneiro dos americanos acaba de ser regiamente recompensado, com o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina deste ano.

Há uma razão para o relativo descaso da ciência com o olfato: há muito tempo o homem não depende mais de sua capacidade de identificar cheiros para sobreviver. Desde que um nosso ancestral se tornou bípede, há milhões de anos, a hierarquia dos sentidos foi alterada: o faro fino, fundamental nos mamíferos que mantêm a cabeça próxima do chão, foi substituído por uma visão aguda, mais útil para quem se ergue sobre duas pernas.

Linda e Axel trabalharam com ratos e camundongos, cujo olfato funciona de forma muito semelhante ao do homem. Constataram que cada célula olfativa desses animais é revestida por uma determinada proteína, dentre 1.000 tipos diferentes (no homem, eles são 350). Essas proteínas são ultra-especializadas: cada uma reage com apenas uma substância química, entre os milhares que compõem os aromas. Quando uma proteína é ativada, sua célula manda um sinal para um ponto específico do bulbo olfativo, a porta de entrada dos cheiros no cérebro. Os aromas a que estamos expostos no dia-a-dia, porém, não são "puros", mas contêm várias substâncias. Digamos, então, que determinado odor ative três proteínas diferentes. Ao receber os três sinais, o bulbo comunica o cérebro, que interpreta a combinação. Ele verifica que o cheiro ativou, por exemplo, os setores 1, 14 e 35 – então o cheiro é de jasmim. O bulbo, na verdade, é uma "olfateca", em que todas as combinações que resultam em aromas são organizadas como num arquivo pronto para ser consultado. "Esses estudos são modelos para entendermos como o cérebro capta, transmite e processa informações do meio ambiente", diz a bioquímica Bettina Malnic, da Universidade de São Paulo (USP). Ela é co-autora de uma pesquisa publicada por Linda Buck em 1999 – faz parte, portanto, desse time que vem decifrando o sistema olfativo com inegável faro para o sucesso.

 

Proust e os sentidos

"...Abatido por um dia sem graça, pela perspectiva do dia seguinte que seria triste, pus aos meus lábios uma colherada de chá na qual eu deixara amolecer um pedacinho de madeleine... Estremeci, atento ao que de modo extraordinário se passava em mim. Um prazer delicioso me invadira, isolado, sem a noção da sua causa. (...) Não me sentia mais medíocre, contingente, mortal. De onde vinha esse prazer poderoso? (...) Todas as flores de nosso jardim e as do Parque de Swann, e as ninfas do rio Vivonne, e a gente simples da aldeia com suas casinhas, e toda a cidade de Combray e seus arredores – tudo aquilo que toma corpo e se torna sólido saiu, cidades e jardins, de minha xícara de chá."

Trecho de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust

 

 
 
 
 
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