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MEDICINA
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Nobel
O perfume do sucesso
Nobel premia pesquisa pioneira
que desvenda como o cérebro
analisa e arquiva os aromas

Thereza Venturoli
Acontece com todo mundo: de repente, bate um
perfume de mulher ou o aroma de pão recém-saído
do forno, e é o que basta para que se volte a uma festa da
adolescência ou a uma tarde da infância, diante da mesa
da avó. O olfato é uma máquina do tempo poderosa,
que rendeu passagens belíssimas da literatura como
aquela em que o escritor francês Marcel Proust, num trecho
célebre, vê sua vida de criança se erguer inteira
de uma simples xícara de chá. O olfato, contudo, foi
sempre o sentido mais desconhecido da ciência pelo
menos até 1991. Nesse ano, Linda Buck, do Centro de Pesquisa
do Câncer Fred Hutchinson, e Richard Axel, da Universidade
Colúmbia, fizeram um primeiro estudo, em conjunto, sobre
o sistema olfativo. A partir de então, durante mais de uma
década, a dupla seguiu pesquisando de forma independente,
mas paralela. O resultado dessa parceria a distância levou
à compreensão de como os aromas invadem nosso corpo,
instalam-se na memória e permanecem arquivados nela. O trabalho
pioneiro dos americanos acaba de ser regiamente recompensado, com
o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina deste ano.
Há uma razão para o relativo
descaso da ciência com o olfato: há muito tempo o homem
não depende mais de sua capacidade de identificar cheiros
para sobreviver. Desde que um nosso ancestral se tornou bípede,
há milhões de anos, a hierarquia dos sentidos foi
alterada: o faro fino, fundamental nos mamíferos que mantêm
a cabeça próxima do chão, foi substituído
por uma visão aguda, mais útil para quem se ergue
sobre duas pernas.
Linda e Axel trabalharam com ratos e camundongos,
cujo olfato funciona de forma muito semelhante ao do homem. Constataram
que cada célula olfativa desses animais é revestida
por uma determinada proteína, dentre 1.000
tipos diferentes (no homem, eles são 350). Essas proteínas
são ultra-especializadas: cada uma reage com apenas uma substância
química, entre os milhares que compõem os aromas.
Quando uma proteína é ativada, sua célula manda
um sinal para um ponto específico do bulbo olfativo, a porta
de entrada dos cheiros no cérebro. Os aromas a que estamos
expostos no dia-a-dia, porém, não são "puros",
mas contêm várias substâncias. Digamos, então,
que determinado odor ative três proteínas diferentes.
Ao receber os três sinais, o bulbo comunica o cérebro,
que interpreta a combinação. Ele verifica que o cheiro
ativou, por exemplo, os setores 1, 14 e 35 então o
cheiro é de jasmim. O bulbo, na verdade, é uma "olfateca",
em que todas as combinações que resultam em aromas
são organizadas como num arquivo pronto para ser consultado.
"Esses estudos são modelos para entendermos como o cérebro
capta, transmite e processa informações do meio ambiente",
diz a bioquímica Bettina Malnic, da Universidade de São
Paulo (USP). Ela é co-autora de uma pesquisa publicada por
Linda Buck em 1999 faz parte, portanto, desse time que vem
decifrando o sistema olfativo com inegável faro para o sucesso.
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Proust e os sentidos
"...Abatido por um dia sem graça,
pela perspectiva do dia seguinte que seria triste, pus
aos meus lábios uma colherada de chá na
qual eu deixara amolecer um pedacinho de madeleine...
Estremeci, atento ao que de modo extraordinário
se passava em mim. Um prazer delicioso me invadira,
isolado, sem a noção da sua causa. (...)
Não me sentia mais medíocre, contingente,
mortal. De onde vinha esse prazer poderoso? (...) Todas
as flores de nosso jardim e as do Parque de Swann, e
as ninfas do rio Vivonne, e a gente simples da aldeia
com suas casinhas, e toda a cidade de Combray e seus
arredores tudo aquilo que toma corpo e se torna
sólido saiu, cidades e jardins, de minha xícara
de chá."
Trecho de Em Busca
do Tempo Perdido, de Marcel Proust
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