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Em
foco: Gustavo Franco
O feijăo e o sonho
"Nada é capaz de conter os
mercados financeiros quando
eles querem ser felizes"
As reuniões anuais dos acionistas do
FMI e do Banco Mundial tornaram-se o grande evento, a meca do mundo
financeiro globalizado. Essa posição (na indústria
de eventos) é disputada pelo Fórum de Davos, que,
tenha-se claro, é um evento comercial, muito mais apelativo
à vaidade das grandes corporações. Paga-se
para estar dentro, e aí, sim, tem-se a mercantilização
do debate sobre governança global ou sua transformação
em espetáculo. Usando a imagem caracteristicamente marxista
segundo a qual o capital é como se fosse uma pessoa, tal
sua incontornável lógica de autovalorização,
é nos encontros do FMI que ele (o capital) se senta (com
seus reguladores) e assina cheques. Em Davos, o capital vai esquiar.
Em Washington, como em Davos, a mística
dos encontros não está propriamente nas autoridades,
mas no gigantesco festival de reuniões paralelas, medidas
em bilhões de dólares, entre banqueiros, investidores,
economistas, jornalistas, empresas e interessados em assuntos de
finanças internacionais. Deve ser claro, por outro lado,
que esse "público" é extremamente vulnerável
às crescentemente violentas manifestações antiglobalização,
que inclusive arruinaram algumas reuniões, como a do FMI
em Praga, em 2000.
É forte a imagem dos agentes do capital
escondendo-se de multidões enfurecidas, deixando a impressão
de que "a voz das ruas" desarrumou as finanças mundiais ao
firmar sua posição contra a globalização,
a pobreza, a injustiça social, a destruição
do meio ambiente e o Consenso de Washington.
O fato é que depois dos atentados engendrados
pela Al Qaeda, ocorridos duas semanas antes do início da
reunião do FMI de 2001 em Washington, todas as mudanças
que vinham ocorrendo em resposta às manifestações,
certas ou erradas, foram estupidamente aceleradas. E a "voz das
ruas" achou por bem silenciar. A reunião de 2001 praticamente
não aconteceu, e Davos mudou-se para Nova York, numa combinação
de homenagem e fracasso comercial.
No ano seguinte, 2002, em Washington, parecia
claro que a Grande Feira tinha mudado sua química. Oprimido
não tanto pelas multidões, mas pelos pesados esquemas
de segurança, o encontro deixou-se dominar pelo "politicamente
correto". Em paralelo, todavia, os mercados e a alta finança
internacional não tiveram nenhuma correção
em fugir do Brasil com medo da vitória do PT e de que Lula
fosse um outro Fidel.
No encontro de 2003, lá longe em Dubai,
já havia um misto de alívio e desconforto ao ver que
o PT não era o de antigamente, mas foi apenas em 2004 que
o Brasil experimentou a verdadeira glória. Por um lado, nos
apresentamos como o melhor dos clientes do FMI, pois praticamos
políticas ortodoxas e fazemos reformas que antigamente eram
descritas como "neoliberais" (designação que vem caindo
em desuso, à semelhança do que ocorreu com o adjetivo
"pequeno-burguês", outrora aplicado a pessoas que depois,
pensando melhor, não eram tão ruins assim). Por outro
lado, nosso presidente se apossou do "politicamente correto", por
absoluto merecimento, e não é outra coisa o que o
Banco Mundial gostaria de encarnar. Temos, portanto, as duas metades
da coisa, o feijão e o sonho, uma fórmula que FHC
levou a Washington com igual sucesso em 1996.
São tempos curiosos os de agora: a
reunião é do capital, mas tanto se fala em investimento
"socialmente responsável", defesa do meio ambiente, governança
corporativa e combate à fome, que o espectador inocente pode
ficar com a impressão de que ganhar dinheiro não tem
mais a menor importância.
O fato é que a febre do "politicamente
correto", combinada com o profundo sentimento de culpa pelos maus-tratos
ao Brasil em 2002, criou um pedestal maravilhoso para nós.
Passamos à condição de exemplo de engenho ao
combinar racionalidade macroeconômica e preocupação
social, pouco importa se de forma planejada ou acidental. Grandes
reputações podem ser construídas com um silêncio
inteligente, ou com uma paralisia aparentemente deliberada e refletida.
O fato é que nada é capaz de conter os mercados financeiros
quando eles querem ser felizes.
Gustavo Franco é economista
da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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