|
Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro A
república do papel "A regra, criada
para controlar o mundo real, progressivamente transmigra
para o controle de papéis que pouco têm a ver com os comportamentos
a coibir" O chofer do táxi pagou
uma multa de 800 reais ao ser pego em uma blitz sem portar sua carteira
embora o computador da polícia mostrasse que ele possuía habilitação.
Foi-se o carro no reboque e vários meses de salário. O passageiro
na fila, à minha frente, não pôde embarcar no vôo, pois
identificou-se com uma carteira de habilitação cujo exame de visão
estava vencido. Carteira esquecida no bolso da calça errada não
causa acidentes fatais nem o vencimento do exame de visão põe em
dúvida uma identidade. Mas o encantamento patológico com os papéis
substitui o bom senso. Fixemo-nos no trânsito
e perguntemos que objetivos últimos teria a existência dos Detrans
e seu exército de funcionários. O mais pungente objetivo seria evitar
mortos e feridos. Como as principais causas são excesso de velocidade e
alcoolismo, é isso que deveria ser reprimido. Ou seja, bafômetros
e radares, onde ocorrem acidentes e nas horas em que são mais freqüentes
(noites de fins de semana). E também controle dos freios, pneus e luzes.
Ilustração
Atomica Studio
 |
Coibir
roubo de carros é outro objetivo central. Para isso, é preciso fiscalizar
as rotas de fuga (e a polícia vigiar os desmontes). Seqüestrar veículos
barulhentos aumenta o conforto da população. Ao fazer o trânsito
fluir, libera-se o tempo de todos, para produzir mais ou para o lazer. Então,
cumpre limitar estacionamentos em vias congestionadas e punir quem obstrui o trânsito.
Finalmente, há que assegurar o pagamento das taxas e impostos, o que não
requer atenção especial, pois quem atrasa paga multa e não
se podem evitar por muito tempo as dívidas acumuladas.
As burocracias são atraídas pelo fetichismo do papel. Existe uma
ânsia de buscar o carimbo atrasado, o papel esquecido em casa, a nova versão
do comprovante, a firma reconhecida. Tudo gira em torno do papel. As blitze são
cartórios ao ar livre. Em paralelo a tal purismo legalista, quase nada
se faz para evitar acidentes. Os pneus relincham na madrugada. O radar multa os
distraídos, não os irresponsáveis da noite. As baladas fazem
subir o teor etílico no sangue. E as mortes geram estatísticas vergonhosas
de acidentes. Mas nada disso é prioridade, pois vivemos no império
do papel. É tudo culpa do Detran? É,
mas ele é assim por ser bem brasileiro. Por razões que remontam
à nossa história, adoramos o papel, o carimbo, a averbação,
o deferimento. A regra, criada para controlar o mundo real, progressivamente transmigra
para o controle de papéis que pouco têm a ver com os comportamentos
a coibir. E pobre daquele a quem falta algum carimbo ou que perdeu a carteira
por estacionar mal! Na magia negra, alfinetamos
um boneco que representa nosso desafeto. Transferimos para o boneco as punições
que gostaríamos de infligir à pessoa real. Nossa sociedade cartorial
faz mais ou menos a mesma coisa. O papel é o boneco perfurado com os alfinetes
metafóricos do bloquinho de multas o ícone do poder constituído.
Em vez de controlarmos os acidentes, controlamos papéis que pouco têm
a ver com eles. Não há erros de essência no código
de trânsito, pois está tudo lá, o que falta é o bom
senso de decidir o que controlar com rigor e o que ignorar. Na raiz do problema
está o gostinho de nossa sociedade por controlar o papel e fingir que está
controlando a realidade. A temeridade de instalar
e fechar uma firma, obter alvarás ou exportar põe a descoberto a
mesma patologia de atribuir propriedades mágicas aos formulários
ou autorizações. A Universidade Harvard levou um mês para
abrir um escritório em Santiago do Chile. No Brasil, foram seis meses na
batalha dos papéis. Que interesses coletivos ficaram mais resguardados
com tais torturas burocráticas? O problema
não se origina na aplicação desastrada da lei, no policial
inflexível ou nos administradores públicos perseguindo os moinhos
de vento de papel. A questão é que, em nossa sociedade, eles não
são vistos como desorientados, mas como defensores da ordem e paladinos
da justiça. Isso porque cremos na magia negra do papel. Contemplando o
reboque desaparecer com seu carro, o taxista apenas lamenta o azar de haver sido
pego na blitz. Claudio de Moura
Castro é economista (Claudio&Moura&Castro@attglobal.net)
|