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Cinema Socorro,
o diretor sumiu Serpentes a
Bordo deveria ser um estouro de bilheteria,
mas é um fiasco. Motivo: falta de imaginação  Isabela
Boscov
Serpentes a Bordo (Snakes
on a Plane, Estados Unidos, 2006), desde quinta-feira em cartaz no país,
tem uma fala antológica e não é aquela, sugerida pelas
comunidades da internet, em que Samuel L. Jackson diz que está farto "dessas
p****s de cobras nessa p***a de avião". Tendo elaborado o plano de embarcar
algo como 400 víboras num vôo de passageiros, a fim de matar uma
testemunha que está seguindo para um julgamento em Los Angeles, o malvadão
asiático do filme é inquirido por um de seus capangas: será
que esse é realmente um bom plano? "Ora", explode o vilão, "você
acha que eu já não esgotei todas as outras possibilidades?" É
até enternecedor que o diretor David R. Ellis tenha se preocupado em abordar
as eventuais objeções lógicas da platéia com essa
tentativa de explicação para a presença de najas, corais
e sucuris num jato comercial. Mas a preocupação é também
inútil: esse é um filme construído, do começo ao fim,
em torno do seu título. Quem vai vê-lo sabe que a idéia em
si é ridícula, e sabe também o que vai encontrar: uma história
fraquinha de doer, mas, ao menos em tese, repleta de oportunidades de humor, escracho
e até sustos estes, no caso dos espectadores mais generosos, que
não se incomodem com as malfeitas transições das serpentes
verdadeiras para seus similares de látex, os únicos com que Jackson
topou duelar. Estritamente nesses
termos, Serpentes a Bordo cumpre o que prometia. Mas, dado o frenesi que
se formou em torno do filme durante sua produção, é intrigante
que David Ellis, do bem mais eficaz Celular, não tenha sido capaz
de avançar um passo sequer em relação ao que sua platéia
cativa já esperava. Pelo movimento na internet, sabe-se que ela contava
com cenas como a do casal atacado em plena transa, a do sujeito mordido em parte
sensível durante uma ida ao toalete ou a da senhora gorda que confunde
o roçar de uma cobra com outro tipo de carícia. E, pela resposta
da bilheteria (meros 32 milhões de dólares nos Estados Unidos até
agora), sabe-se que a platéia contava também ser surpreendida de
alguma forma e não foi. Cobras não fazem muito mais do que
rastejar, morder e se enrolar, e há um limite para a vilania que se pode
atribuir a elas. Mas não saber como explorar, no mundo pós-11 de
Setembro, a idéia de um avião sem piloto, infestado de criaturas
irracionais e cheio de passageiros em pânico, equivale a emitir um atestado
de incompetência. Em dúvida entre rejeitar e abraçar o significado
óbvio de seu enredo, o diretor e seus roteiristas não conseguiram
pensar em nada melhor do que incluir em seu rol uma serpente especialmente peçonhenta
vinda do Oriente Médio. É provável que, como seu vilão,
acreditem ter esgotado todas as outras possibilidades.
Nesse trajeto, de produção mais falada do ano a fiasco, Serpentes
a Bordo ilustra um dos dilemas que o entretenimento enfrenta na era da interatividade.
A notícia do filme tomou a rede à maneira de um vídeo "viral"
nome dado àquelas brincadeiras feitas por anônimos, como a
do Porteiro Zé ou a do Bebê Dançante, que se espalham pela
internet como vírus incontroláveis. Os produtores julgaram que o
mais acertado seria então entregar de uma vez as rédeas do projeto
à massa. Deu no que deu. A platéia gosta de brincar de diretor
mas chia quando percebe que este nem sequer colaborou.
Jogo do bicho Os
significados que o cinema dá aos animais A
SELVA NUA (1954) Charlton Heston vive há tanto tempo isolado
na selva que nem sabe bem o que fazer com a voluptuosa Eleanor Parker. Não
por acaso, a chegada dela coincide com um ataque de formigas assassinas: não
há símbolo melhor para a comichão e pânico
sexual de Heston OS PÁSSAROS
(1963) Alfred Hitchcock rodou durante a escalada nuclear da Guerra Fria
esse suspense sobre grupos de pardais, gaivotas e corvos que, sem nenhuma explicação,
começam a agredir de forma violenta os seres humanos
ALIEN 3 (1992) Um monstro invade seu hospedeiro
e se alimenta dele até tomá-lo por inteiro e destruí-lo:
o filme original de Ridley Scott foi feito em 1979, antes que houvesse sequer
um nome para a aids. Mas parecia sintetizar tão bem a doença que,
em seu episódio, passado numa prisão masculina, o diretor David
Fincher encampou abertamente a metáfora | |
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