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Trânsito
A solução do "pague e rode"
Dirigir no centro de Londres custa o equivalente a quase quatro Big Macs.
Ninguém reclamou e as "taxas de congestionamento" são um sucesso
 Antonio
Ribeiro, de Paris
Escorada na cabeça de um leão no
topo do pedestal de 30 metros, a figura de bronze de Sebastião José
de Carvalho e Melo, o marquês de Pombal, domina a Avenida da Liberdade,
via expressa de Lisboa com 90 metros de uma calçada à outra. Déspota
esclarecido, amigo do rei, que lhe confiou a reconstrução da capital
depois do terremoto de 1755, Pombal previa que um dia aquelas ruas viriam a se
tornar estreitas. Esse dia chegou não só ao jardim lusitano à
beira-mar plantado, mas a metrópoles do mundo todo. Na Califórnia,
onde o gigantesco parque automobilístico melhor representa o desejo da
mobilidade sem concessão, anéis viários de doze pistas são
insuficientes para fazer fluir 33 milhões de veículos nos horários
de pico do tráfego. Motoristas em Bangcoc, na Tailândia, avançam
na hora do rush ao ritmo dos pedestres, 3 quilômetros por hora. Ampliar
ruas, construir viadutos, cavar túneis, tornaram-se custosas soluções
temporárias. Só
a Europa perde 40 bilhões de euros anuais devido aos engarrafamentos. Ken
Livingstone, prefeito de Londres, e seus colegas de Cingapura e Oslo estão
finalmente conseguindo vitórias contra os congestionamentos. A saída
foi apelar para o bolso dos motoristas. Quer rodar no centro da cidade? Pague
por isso. O pedágio, além de aliviar o tráfego, diminui a
emissão de monóxido de carbono e acidentes e gera receita, usada
em investimentos nos transportes coletivos. Um sistema de videovigilância
com sensores a laser permitiu à prefeitura de Estocolmo, na Suécia,
cobrar o pedágio conforme a necessidade. O preço flutua de acordo
com a intensidade do fluxo do trânsito. É uma baita evolução
rumo à solução de um problema que azucrina a vida dos cidadãos
desde a Roma antiga. Sven Näckstrand
toma seu leite com granola às 6 horas e só depois das 18h30 sai
do trabalho, no centro de Estocolmo, para percorrer 15 quilômetros até
sua casa, um chalé de pinho no subúrbio de Tyresö. Isso porque,
acoplado ao pára-brisa do seu Saab, tal qual em 430.000 veículos
suecos, um transmissor emite um sinal quando passa debaixo dos 23 arcos metálicos
com sensores a laser e câmeras de vídeo instalados nas vias que dão
acesso ao centro da maior cidade escandinava. O registro da hora e a imagem da
placa do carro 850.000 fotos por dia são enviados aos computadores
do sistema de transportes. O pedágio é debitado na conta bancária
de Näckstrand. A taxa vigora das 6h30 às 18 horas e oscila entre 1,10
e 2,15 euros. Quanto mais congestionado o trânsito, mais alto o preço
do pedágio. "Pela manhã, ganho dez minutos no trajeto e à
noite não pago nada", disse Näckstrand a VEJA. Os transportes coletivos
do condado de Estocolmo ganharam 40.000 novos usuários. Magnus Wallberg,
executivo da Booz Allen Hamilton, deixou seu BMW no estacionamento. "O metrô
continua pontual, não houve superlotação e agora, quando
pego um táxi no centro da cidade, chego mais rápido", conta ele.
O objetivo do projeto de 525 milhões de dólares previa uma redução
de 10% a 15% no trânsito. O resultado ultrapassou a expectativa: um em cada
cinco veículos deixou de circular. Na semana que vem, por meio de um referendo
justaposto às eleições legislativas, os suecos vão
decidir se continuam a pagar a taxa. Uma pesquisa indica que 52% da população
é favorável. Sven
Nackstrand/AFP
 | | O
sistema de vigia de Estocolmo: o pedágio flutua de acordo com a intensidade do
tráfego |
O colossal controle
de comportamento baseia-se numa proposta de 1952 do economista canadense William
Vickrey para o metrô de Nova York. Ele sugeria que as tarifas dos trens
deveriam funcionar como as diárias dos hotéis a hora de pico
corresponde à alta estação. A idéia não saiu
do papel por falta de tecnologia confiável. Vickrey ganhou o Nobel de Economia
de 1996 e, três dias depois, morreu fulminado por um ataque cardíaco
dentro do seu carro, bloqueado em um engarrafamento. A taxa de congestionamento
foi implantada primeiro na década de 70, em Cingapura. Ela era cobrada
por um sistema manual. "Além de coibirem os motoristas, as barreiras dos
pedágios retinham o trânsito", diz o policial Li Lim. A singularidade
do caso foi vista, sobretudo, como autoritarismo do partido único que governa
a cidade-Estado, a segunda maior densidade populacional do mundo. Ali se castiga
até quem cospe chiclete no chão. Contra a vontade de dois em cada
três noruegueses, Oslo deu o passo seguinte, quase vinte anos depois.
O verdadeiro teste aconteceu em Londres em fevereiro de 2003. O prefeito Ken Livingstone
apostou seu capital político na cobrança do equivalente a 6,40 euros
dos proprietários de veículos privados que rodam dentro de um perímetro
de 21 quilômetros quadrados no centro histórico e financeiro da capital
britânica. Os residentes da área têm um desconto de 90%, ambulâncias,
reboques, táxis, minivans, motos e veículos movidos a combustíveis
alternativos são isentos. Num reino historicamente avesso a impostos, a
nova taxa encetou um caloroso debate que só foi arrefecendo à medida
que os efeitos começaram a brotar. O centro londrino livrou-se de uma frota
de 45.000 veículos diários 18% do total. Três engarrafamentos
em dez, onde se rodava a menos de 15 quilômetros por hora, sumiram do mapa.
Os londrinos respiram melhor e evitam quarenta a setenta acidentes todos os dias.
No ano passado, a taxa que chegou agora ao equivalente a 10,25 euros
injetou 140 milhões de euros nos transportes públicos. O investimento
equivale aos 500 milhões de reais que São Paulo vai perder em 2006
com seus engarrafamentos, segundo o engenheiro de trânsito Jaime Waisman,
professor da Universidade de São Paulo (USP). Problemas crônicos
exigem soluções radicais. O povo gosta e premia. Ken Livingstone
foi reeleito. Londres ganhou o direito de sediar os Jogos Olímpicos de
2012. No mês passado, à frente de Barcelona e Paris, o sistema de
transportes de Londres foi eleito o melhor do mundo e também o mais
caro. Em 1982 os motoristas americanos perdiam em média dezesseis horas
anuais presos em engarrafamentos. Hoje, seus motoristas ficam, em média,
quatro dias por ano presos no trânsito. Prevê-se que, daqui a vinte
anos, esse tempo morto e irritante poderá chegar a mais de uma semana por
ano. O Texas Transportation Institute calculou em 65 bilhões de dólares
o desperdício de combustível e tempo. Os motoristas americanos poderiam
adicionar ao custo em dinheiro uma dose cavalar e não facilmente precificável
de stress. As metrópoles dos Estados Unidos são candidatas potenciais
ao tratamento de choque da taxa de congestionamento. Vão adotá-la?
Dificilmente. Os contribuintes americanos abominam mais os impostos e taxas do
que qualquer outro incômodo, com exceção, talvez, da morte.
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