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Edição 1973 . 13 de setembro de 2006

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Especial
A mentira com efeitos especiais

Filme caseiro, sucesso na internet,
espalha teorias conspiratórias
sobre o 11 de Setembro


Duda Teixeira

NESTA EDIÇÃO
A nova era da televisão

Os sites de vídeo deram força a um fenômeno cultural peculiarmente americano: a propagação de teorias conspiratórias – em especial sobre os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. O principal responsável pela divulgação dessas teses é o filme Loose Change (em tradução literal, Dinheiro Trocado), produzido com apenas 2.000 dólares por três jovens americanos de Nova York. Não fossem o YouTube e o Google Video, o pseudodocumentário nunca teria tido repercussão. O filme, que teve uma tiragem de apenas 1.000 cópias caseiras em DVD, chegou em maio passado ao primeiro lugar entre os mais vistos no Google Video. Em Loose Change, efeitos especiais marcados pelo ritmo de hip hop ajudam a defender a tese de que as Torres Gêmeas de Nova York foram implodidas, com a conivência do governo americano, e que o Pentágono foi atingido por um míssil, não por um avião. Na versão de Dylan Avery, Korey Rowe e Jason Bermas, os autores do filme, tudo não passou de uma armação para que o presidente George W. Bush pudesse fazer guerras no Oriente Médio e grampear ligações telefônicas. "Seria absolutamente impossível para um punhado de terroristas árabes, sem a ajuda do nosso governo, fazer tanto estrago", disse Bermas a VEJA.

Por mais absurdas que pareçam essas teorias, uma pesquisa de opinião feita em agosto concluiu que 36% dos americanos acreditam na hipótese de o governo estar envolvido nos atentados. Na internet, além do sucesso de Loose Change nos sites de vídeo, há páginas dedicadas a coletar dados que contestam a versão oficial dos atentados, além de fóruns de discussão e diários virtuais sobre o assunto. A boataria levou o Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia, órgão do Departamento de Comércio americano, a publicar em seu site, no mês passado, uma lista de perguntas e respostas desmistificando as teorias conspiratórias. Quando se compara a metodologia oficial com a utilizada em Loose Change, fica fácil saber qual merece credibilidade. O texto do instituto é um resumo de um relatório publicado em 2005. Por três anos, 200 técnicos analisaram 300 horas de vídeos, 7.000 fotografias e 236 peças de aço retiradas dos escombros do World Trade Center. Já o documentário produzido pelos três jovens, financiado com bicos em restaurantes e a venda de sorvetes, baseia-se em suposições sem precisão técnica e nas informações desencontradas dadas por jornalistas durante a cobertura dos ataques. Até a Wikipedia, uma enciclopédia on-line que pode ser modificada por qualquer pessoa, é citada como fonte.

Nos Estados Unidos, cada geração tem sua teoria conspiratória. A mais popular foi a tese de que o assassinato do presidente John F. Kennedy, na década de 60, não foi obra apenas de uma pessoa. A prisão de Lee Harvey Oswald, autor dos tiros que mataram o presidente, não foi suficiente para acalmar a crença de que havia um segundo atirador. Em 1991, o cineasta Oliver Stone lançou o filme JFK, insinuando que o FBI e a CIA estavam envolvidos no assassinato. Sete anos depois, uma comissão do Congresso americano concluiu, após estudar 60.000 documentos, que não havia nenhum indício de um segundo atirador, tampouco de uma megaconspiração. A tendência em se deixar atrair por conspirações encontra explicação no funcionamento da mente humana. "Trata-se de uma reação de defesa do cérebro, que cria memórias falsas para permitir às pessoas que se sintam melhor, alheias à realidade nua e crua", diz o neurocientista Ivan Izquierdo, da PUC do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Como aceitar que a nação mais poderosa do mundo seja vulnerável a uma agressão em seu próprio território? "Estão nos escondendo algo", pensam os teóricos da conspiração.

 

Carmen Taylor/AP
EM CHEIO
Na foto, o segundo avião pouco antes de chocar-se contra a Torre Sul do World Trade Center. No quadro, o gráfico mostra o buraco provocado pelo avião na estrutura de aço do edifício

 

 
 
 
 
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