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Entrevista:
Asne Seierstad As
mulheres-objeto A jornalista norueguesa,
autora de O Livreiro de Cabul, conta como foi viver durante três
meses com uma família afegã
 Ruth
Costas Quando decidiu escrever sobre suas
experiências no Afeganistão, logo após a queda do regime talibã,
a jornalista norueguesa Asne Seierstad, de 36 anos, não imaginava que o
livro seria um sucesso em lugares tão diferentes quanto Brasil, Grécia
e Islândia. O Livreiro de Cabul vendeu quase 3 milhões de
cópias em mais de vinte países e está há onze semanas
na lista dos mais vendidos de VEJA. A obra faz um registro dos três meses
durante os quais Asne morou com uma família afegã em 2002, compartilhando
seu dia-a-dia com olhos atentos e um bloquinho de anotações na mão.
O resultado é uma crítica contundente à opressão feminina
nas sociedades islâmicas. Asne diz que não há nada de errado
em julgar um país islâmico tendo como referência os princípios
e valores europeus. "A crítica faz com que as sociedades evoluam", diz
a escritora. Antes do Afeganistão, ela trabalhou na cobertura de conflitos
armados no Kosovo e na Chechênia. Em novembro, vem ao Brasil para o lançamento
de seu novo livro, 101 Dias em Bagdá, sobre o período em
que esteve no Iraque, em 2003, durante a invasão americana. Asne falou
a VEJA de sua casa em Oslo, na Noruega. Veja
O que ficou do regime talibã, deposto em novembro de 2001
pelos Estados Unidos e seus aliados, no Afeganistão de hoje? Seierstad
Os talibãs queriam obrigar os afegãos a viver como nos
tempos de Maomé. Eles proibiam o uso de maquiagem, ouvir música,
empinar pipa e consumir bebidas alcoólicas. Com os livros didáticos
da época, em vez de contarem maçãs e peras, os meninos aprendiam
a calcular quantos infiéis seria possível matar usando três
pentes com vinte balas cada um. Nesse ponto, o país mudou. Boa parte do
cotidiano do Afeganistão, no entanto, ainda é regida por tradições
antigas, reforçadas durante o regime talibã. É o caso da
crença na supremacia do homem sobre a mulher. A violência institucionalizada
acabou, mas a opressão familiar persiste. De nada adianta o presidente,
Hamid Karzai, anunciar que as mulheres podem fazer curso superior se o pai vira
para a filha e diz: "Você não". Veja
Quais foram suas primeiras impressões do Afeganistão?
Seierstad Entrei no Afeganistão junto com a Aliança
do Norte (o grupo guerrilheiro antitalibã apoiado pelos Estados Unidos),
poucas semanas depois do ataque às Torres Gêmeas, em Nova York. Havia
bombardeios por toda parte e nem sinal de água ou eletricidade. Eu me acostumei
rapidinho a essa situação, porque faz parte do meu trabalho viajar
para lugares sujos e sem infra-estrutura. O que me incomodava era a dificuldade
de entrar em contato com a população. Meu dia-a-dia era a guerra,
com seus comandantes e soldados, não as pessoas. Foi quando comecei a freqüentar,
em Cabul, uma das livrarias de Sha Mohammed Rais, que no livro recebeu o nome
fictício de Sultan Khan. Veja
Por que a senhora decidiu escrever um livro sobre ele? Seierstad
Rais chamou minha atenção porque era um defensor da arte
e da cultura afegãs. Ele continuou a vender livros apesar das restrições
do regime talibã, que proibia obras com ilustrações e aquelas
consideradas ofensivas aos princípios islâmicos. Chegou a ser preso
e teve de cobrir os desenhos de alguns livros para evitar que fossem queimados.
A idéia do livro surgiu durante um jantar na casa de Rais para o qual eu
e outros jornalistas havíamos sido convidados. No dia seguinte, disse ao
livreiro que achei a sua família inspiradora e perguntei se podia morar
com eles por alguns meses, para escrever sobre a experiência. Ele topou.
Veja Eles formavam
uma família típica do Afeganistão? Seierstad
Não exatamente. Se fosse uma família típica, viveria no campo
e não teria livros em casa. Com ou sem Talibã, eles seriam pobres
e trabalhariam dezesseis horas por dia. A família de Rais é mais
rica e educada que a maior parte das famílias afegãs. No entanto,
eles são muito conservadores quando se trata de costumes e tradições.
Isso me surpreendeu. Veja
O que foi mais difícil de suportar nos três meses de
convivência com a família do livreiro? Seierstad
Eu sentia claustrofobia, porque eles quase nunca saíam de casa. Queria
acompanhar o dia-a-dia da família sem interferir, para poder ser apenas
uma observadora. Foi difícil não dizer nada ao ver o modo como eram
tratadas as mulheres da casa, as irmãs de Rais e suas duas esposas. Uma
delas tinha apenas 16 anos quando se casou com ele, há alguns anos.
Veja Em quais momentos
a senhora teve de se segurar para não interferir? Seierstad
Diariamente. Em uma ocasião, as mulheres da família estavam se preparando
para ir a um casamento, a única diversão que elas tinham na vida,
quando o livreiro decidiu de última hora que ninguém iria a lugar
algum. Como elas não podiam contestar as ordens de Rais, pediram-me para
interceder. Se eu o tivesse confrontado, não haveria livro. Só me
permiti fazer algumas interferências quando senti que já havia convivido
com eles tempo suficiente. Uma das mulheres me confessou que queria trabalhar,
e eu tentei convencê-la a não aceitar um não tão facilmente.
Outra vez, pedi a Rais para retirar a acusação de roubo contra um
carpinteiro que trabalhava em sua loja. O empregado de fato havia roubado centenas
de cartões-postais de Rais, mas o fizera para dar de comer à família,
miserável e numerosa. Seus parentes não teriam como se sustentar
se fosse preso, e ainda havia o risco de ele não resistir à temporada
nas prisões de Cabul. Nada dissuadiu o livreiro.
Veja É verdade que na sociedade afegã
cada mulher tem um preço? Seierstad Sim, as mulheres
afegãs são como objetos. Primeiro elas pertencem ao pai, depois
são vendidas ao futuro marido. O preço é estabelecido de
acordo com critérios como beleza e habilidade para o trabalho. Se a mulher
foi bem protegida dos olhos masculinos proibida de sair de casa e obrigada
a usar a burca , seu valor também sobe. Mais um pouco e as mulheres
do Afeganistão estariam carregando etiquetas com a indicação
de quanto valem: uma jóia, uma vaca ou uma quantia em dinheiro.
Veja Como foi usar
a burca, o manto que cobre as mulheres dos pés à cabeça? Seierstad
Muito desconfortável. Para não marcar as linhas do corpo,
as burcas são feitas de um material grosso, que impede a circulação
do ar. É úmido e sujo lá dentro, e não dá para
enxergar direito. Eu tropeçava o tempo todo e suava muito. Para mim foi
oportuno porque eu podia transitar em muitos lugares e observar sem ser observada.
Ao viajar toda coberta, eu evitava os pedidos de suborno e assaltos, comuns nas
estradas afegãs, especialmente quando se é estrangeiro. Também
me permitiu sentir como é ser uma mulher afegã e ter, por
exemplo, de me espremer no porta-malas de um táxi por não ser permitido
sentar no banco de trás com um homem. Veja
Algumas muçulmanas dizem ser mais felizes porque o Islã
as protege. Por quê? Seierstad É natural que
as muçulmanas se sintam mais protegidas. Nas sociedades islâmicas,
é o argumento de que as mulheres devem ser resguardadas que justifica a
opressão. Quando os talibãs proibiram as escolas femininas, apenas
disseram que não tinham condições de garantir a proteção
delas fora de casa. "As meninas têm um valor especial e, até termos
guardas suficientes, não haverá escolas para elas", argumentava
o regime. Esse discurso às vezes convence até as mulheres. Certa
vez, algumas afegãs me perguntaram: "Por que seus pais não gostam
de você?". Para elas, se meus pais me amassem, não me deixariam viajar
para outros países. As mulheres afegãs acham o mundo tão
ameaçador porque isso é repetido para elas de forma incessante.
O problema é que, se elas nunca saem, estão seguras contra os perigos
da rua, mas não contra o que pode acontecer em sua própria casa.
Veja Por que os muçulmanos
são tão obcecados por cobrir o corpo feminino? Seierstad
Essa é, de fato, uma questão crucial. A origem dessa
obsessão é a idéia de que as mulheres são objetos.
Quanto mais escondidas estiverem, maior seu valor. O pai é o primeiro interessado
em cobrir as mulheres da família. Depois, o marido. É curioso, porque
no Corão há tantas passagens ordenando às mulheres
cobrir o corpo quanto na Bíblia. Graças a uma onda recente
de fundamentalismo em todo o mundo muçulmano, o uso do véu está
mais difundido. Antes da guerra no Iraque, mais de um terço das mulheres
do país andavam sem o adereço. Agora, muitas delas não só
cobrem o cabelo como usam uma espécie de burca que só deixa à
mostra os olhos. Pode-se adivinhar quão radical é uma sociedade
islâmica pelas partes do corpo das mulheres que ficam descobertas.
Veja Rais ameaçou
processá-la por denegrir a sua imagem, a de sua família e a do país.
Ele tem razão? Seierstad Ele devia ter se controlado
se não queria que eu descrevesse o modo autoritário como tratava
as mulheres e os filhos. Não ouvi conversas secretas atrás das portas.
Relatei cenas que presenciei e diálogos traduzidos para mim por Rais e
seus parentes. Ele achava que eu escreveria um conto de fadas no qual seria o
herói. Em vez disso, eu o descrevi como um pai afegão típico,
e ele não gostou. Entendo que tenha ficado chateado. Talvez eu pudesse
ter sido mais cautelosa, sabendo que um dia o livro poderia ser lido por seus
vizinhos. Suprimir, por exemplo, o diálogo em que Rais conta piadas sujas
e comenta com a mulher sobre a vida sexual de uma viúva não destruiria
o livro. Na época, achei interessante contar que, apesar de a sociedade
ser tão tradicional, no Afeganistão há anedotas sobre a sexualidade
dos outros como em qualquer parte do mundo. Veja
O cineasta Theo van Gogh foi morto na Holanda por causa de um filme
que denunciava a opressão contra mulheres muçulmanas. Na Dinamarca,
a publicação de uma charge do profeta Maomé causou uma explosão
de violência. A senhora se sente ameaçada? Seierstad
Não. Os fundamentalistas não estão nem aí se você
critica o modo como tratam as mulheres. O que realmente os irrita é o desrespeito
aos símbolos sagrados. Fazer uma reprodução do profeta Maomé
é um sacrilégio. Quanto ao filme de Theo van Gogh, a causa da fúria
dos fanáticos não foi a imagem da mulher espancada, mas os versos
sagrados pintados em seu corpo nu. Os muçulmanos de meu país não
se identificam com Rais, porque acham que ele só está atrás
de fama e dinheiro. Certa vez, um taxista de origem afegã me disse: "O
livreiro foi estúpido em lhe contar todas essas coisas e você foi
estúpida em escrevê-las". Recebi cartas de apoio de mulheres muçulmanas
na Europa. Elas dizem que, ao ler o livro, quase conseguem sentir o cheiro de
sua casa. Veja
Qual sua opinião sobre o relativismo cultural, a idéia de que
toda cultura tem o direito de manter seus costumes, por mais errados que eles
pareçam a quem os vê de fora? Seierstad Eu acredito
na Declaração Universal dos Direitos Humanos, segundo a qual todos
têm valores e direitos iguais. O relativismo cultural justifica costumes
inaceitáveis das sociedades islâmicas. Há muito abuso em uma
família em que o poder e o destino das mulheres ficam concentrados nas
mãos de um único homem. As agressões psicológicas
são inevitáveis e os castigos físicos, freqüentes. Não
se pode dizer que as mulheres muçulmanas não sofram só porque
a submissão feminina faz parte da sua cultura. Um tapa dói do mesmo
jeito em uma mulher afegã, norueguesa ou brasileira. Algumas pessoas me
criticam dizendo que não se pode julgar uma sociedade islâmica, de
Terceiro Mundo, com base em valores e padrões europeus. É uma das
coisas mais estúpidas que já ouvi na vida. A crítica faz
com que as sociedades evoluam. Os muçulmanos também nos julgam.
Dizem que somos imorais e impuros. E se tiverem razão em algum ponto? O
mundo precisa de debates. Tentar impedir alguém de dar opinião é
muito perigoso. Veja
A que se deve o sucesso de O Livreiro de Cabul? Seierstad
Foi o livro certo na hora certa. A guerra ao terror e o 11 de Setembro colocaram
o Afeganistão em evidência e aumentaram o interesse sobre essa região,
até então ignorada pelo público ocidental. Ao escrever sobre
o dia-a-dia de uma família afegã, consegui mostrar às pessoas
um aspecto da história que não aparece nos noticiários da
guerra. Evidentemente, não esperava que fosse vender quase 3 milhões
de cópias. Veja
Seu novo livro fala da invasão americana no Iraque sob a perspectiva
da população local. Como foi trabalhar no país? Seierstad
Quando eu entrei no Iraque, Saddam Hussein ainda estava no poder. Os
iraquianos estavam apavorados e era difícil encontrar alguém disposto
a falar. Eles me repetiam um discurso pronto, dizendo amar Saddam. Logo depois
da queda do ditador, as pessoas se sentiram repentinamente livres. Ficou evidente
que a maior parte dos iraquianos gostou de se ver livre de Saddam, embora achasse
que os americanos não deveriam ficar muito tempo no país. A euforia
durou pouco. Hoje, com a ocupação se prolongando, eles acham humilhante
que estrangeiros estejam dirigindo seu destino. O medo voltou e o ambiente tornou-se
mais ameaçador. Agora, só é possível trabalhar nas
zonas seguras, de onde não dá para fazer muita coisa. Por isso eu
decidi não voltar. |