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Edição 1973 . 13 de setembro de 2006

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Entrevista: Asne Seierstad
As mulheres-objeto

A jornalista norueguesa, autora
de O Livreiro de Cabul, conta como
foi viver durante três meses com
uma família afegã


Ruth Costas

Quando decidiu escrever sobre suas experiências no Afeganistão, logo após a queda do regime talibã, a jornalista norueguesa Asne Seierstad, de 36 anos, não imaginava que o livro seria um sucesso em lugares tão diferentes quanto Brasil, Grécia e Islândia. O Livreiro de Cabul vendeu quase 3 milhões de cópias em mais de vinte países e está há onze semanas na lista dos mais vendidos de VEJA. A obra faz um registro dos três meses durante os quais Asne morou com uma família afegã em 2002, compartilhando seu dia-a-dia com olhos atentos e um bloquinho de anotações na mão. O resultado é uma crítica contundente à opressão feminina nas sociedades islâmicas. Asne diz que não há nada de errado em julgar um país islâmico tendo como referência os princípios e valores europeus. "A crítica faz com que as sociedades evoluam", diz a escritora. Antes do Afeganistão, ela trabalhou na cobertura de conflitos armados no Kosovo e na Chechênia. Em novembro, vem ao Brasil para o lançamento de seu novo livro, 101 Dias em Bagdá, sobre o período em que esteve no Iraque, em 2003, durante a invasão americana. Asne falou a VEJA de sua casa em Oslo, na Noruega.  

Veja – O que ficou do regime talibã, deposto em novembro de 2001 pelos Estados Unidos e seus aliados, no Afeganistão de hoje?
Seierstad – Os talibãs queriam obrigar os afegãos a viver como nos tempos de Maomé. Eles proibiam o uso de maquiagem, ouvir música, empinar pipa e consumir bebidas alcoólicas. Com os livros didáticos da época, em vez de contarem maçãs e peras, os meninos aprendiam a calcular quantos infiéis seria possível matar usando três pentes com vinte balas cada um. Nesse ponto, o país mudou. Boa parte do cotidiano do Afeganistão, no entanto, ainda é regida por tradições antigas, reforçadas durante o regime talibã. É o caso da crença na supremacia do homem sobre a mulher. A violência institucionalizada acabou, mas a opressão familiar persiste. De nada adianta o presidente, Hamid Karzai, anunciar que as mulheres podem fazer curso superior se o pai vira para a filha e diz: "Você não".  

Veja – Quais foram suas primeiras impressões do Afeganistão?
Seierstad – Entrei no Afeganistão junto com a Aliança do Norte (o grupo guerrilheiro antitalibã apoiado pelos Estados Unidos), poucas semanas depois do ataque às Torres Gêmeas, em Nova York. Havia bombardeios por toda parte e nem sinal de água ou eletricidade. Eu me acostumei rapidinho a essa situação, porque faz parte do meu trabalho viajar para lugares sujos e sem infra-estrutura. O que me incomodava era a dificuldade de entrar em contato com a população. Meu dia-a-dia era a guerra, com seus comandantes e soldados, não as pessoas. Foi quando comecei a freqüentar, em Cabul, uma das livrarias de Sha Mohammed Rais, que no livro recebeu o nome fictício de Sultan Khan.  

Veja – Por que a senhora decidiu escrever um livro sobre ele?
Seierstad – Rais chamou minha atenção porque era um defensor da arte e da cultura afegãs. Ele continuou a vender livros apesar das restrições do regime talibã, que proibia obras com ilustrações e aquelas consideradas ofensivas aos princípios islâmicos. Chegou a ser preso e teve de cobrir os desenhos de alguns livros para evitar que fossem queimados. A idéia do livro surgiu durante um jantar na casa de Rais para o qual eu e outros jornalistas havíamos sido convidados. No dia seguinte, disse ao livreiro que achei a sua família inspiradora e perguntei se podia morar com eles por alguns meses, para escrever sobre a experiência. Ele topou.

Veja – Eles formavam uma família típica do Afeganistão?
Seierstad – Não exatamente. Se fosse uma família típica, viveria no campo e não teria livros em casa. Com ou sem Talibã, eles seriam pobres e trabalhariam dezesseis horas por dia. A família de Rais é mais rica e educada que a maior parte das famílias afegãs. No entanto, eles são muito conservadores quando se trata de costumes e tradições. Isso me surpreendeu.  

Veja – O que foi mais difícil de suportar nos três meses de convivência com a família do livreiro?
Seierstad – Eu sentia claustrofobia, porque eles quase nunca saíam de casa. Queria acompanhar o dia-a-dia da família sem interferir, para poder ser apenas uma observadora. Foi difícil não dizer nada ao ver o modo como eram tratadas as mulheres da casa, as irmãs de Rais e suas duas esposas. Uma delas tinha apenas 16 anos quando se casou com ele, há alguns anos.  

Veja – Em quais momentos a senhora teve de se segurar para não interferir?
Seierstad – Diariamente. Em uma ocasião, as mulheres da família estavam se preparando para ir a um casamento, a única diversão que elas tinham na vida, quando o livreiro decidiu de última hora que ninguém iria a lugar algum. Como elas não podiam contestar as ordens de Rais, pediram-me para interceder. Se eu o tivesse confrontado, não haveria livro. Só me permiti fazer algumas interferências quando senti que já havia convivido com eles tempo suficiente. Uma das mulheres me confessou que queria trabalhar, e eu tentei convencê-la a não aceitar um não tão facilmente. Outra vez, pedi a Rais para retirar a acusação de roubo contra um carpinteiro que trabalhava em sua loja. O empregado de fato havia roubado centenas de cartões-postais de Rais, mas o fizera para dar de comer à família, miserável e numerosa. Seus parentes não teriam como se sustentar se fosse preso, e ainda havia o risco de ele não resistir à temporada nas prisões de Cabul. Nada dissuadiu o livreiro.  

Veja – É verdade que na sociedade afegã cada mulher tem um preço?
Seierstad – Sim, as mulheres afegãs são como objetos. Primeiro elas pertencem ao pai, depois são vendidas ao futuro marido. O preço é estabelecido de acordo com critérios como beleza e habilidade para o trabalho. Se a mulher foi bem protegida dos olhos masculinos – proibida de sair de casa e obrigada a usar a burca –, seu valor também sobe. Mais um pouco e as mulheres do Afeganistão estariam carregando etiquetas com a indicação de quanto valem: uma jóia, uma vaca ou uma quantia em dinheiro.  

Veja – Como foi usar a burca, o manto que cobre as mulheres dos pés à cabeça?
Seierstad – Muito desconfortável. Para não marcar as linhas do corpo, as burcas são feitas de um material grosso, que impede a circulação do ar. É úmido e sujo lá dentro, e não dá para enxergar direito. Eu tropeçava o tempo todo e suava muito. Para mim foi oportuno porque eu podia transitar em muitos lugares e observar sem ser observada. Ao viajar toda coberta, eu evitava os pedidos de suborno e assaltos, comuns nas estradas afegãs, especialmente quando se é estrangeiro. Também me permitiu sentir como é ser uma mulher afegã – e ter, por exemplo, de me espremer no porta-malas de um táxi por não ser permitido sentar no banco de trás com um homem.  

Veja – Algumas muçulmanas dizem ser mais felizes porque o Islã as protege. Por quê?
Seierstad – É natural que as muçulmanas se sintam mais protegidas. Nas sociedades islâmicas, é o argumento de que as mulheres devem ser resguardadas que justifica a opressão. Quando os talibãs proibiram as escolas femininas, apenas disseram que não tinham condições de garantir a proteção delas fora de casa. "As meninas têm um valor especial e, até termos guardas suficientes, não haverá escolas para elas", argumentava o regime. Esse discurso às vezes convence até as mulheres. Certa vez, algumas afegãs me perguntaram: "Por que seus pais não gostam de você?". Para elas, se meus pais me amassem, não me deixariam viajar para outros países. As mulheres afegãs acham o mundo tão ameaçador porque isso é repetido para elas de forma incessante. O problema é que, se elas nunca saem, estão seguras contra os perigos da rua, mas não contra o que pode acontecer em sua própria casa.

Veja – Por que os muçulmanos são tão obcecados por cobrir o corpo feminino?
Seierstad – Essa é, de fato, uma questão crucial. A origem dessa obsessão é a idéia de que as mulheres são objetos. Quanto mais escondidas estiverem, maior seu valor. O pai é o primeiro interessado em cobrir as mulheres da família. Depois, o marido. É curioso, porque no Corão há tantas passagens ordenando às mulheres cobrir o corpo quanto na Bíblia. Graças a uma onda recente de fundamentalismo em todo o mundo muçulmano, o uso do véu está mais difundido. Antes da guerra no Iraque, mais de um terço das mulheres do país andavam sem o adereço. Agora, muitas delas não só cobrem o cabelo como usam uma espécie de burca que só deixa à mostra os olhos. Pode-se adivinhar quão radical é uma sociedade islâmica pelas partes do corpo das mulheres que ficam descobertas.  

Veja – Rais ameaçou processá-la por denegrir a sua imagem, a de sua família e a do país. Ele tem razão?
Seierstad – Ele devia ter se controlado se não queria que eu descrevesse o modo autoritário como tratava as mulheres e os filhos. Não ouvi conversas secretas atrás das portas. Relatei cenas que presenciei e diálogos traduzidos para mim por Rais e seus parentes. Ele achava que eu escreveria um conto de fadas no qual seria o herói. Em vez disso, eu o descrevi como um pai afegão típico, e ele não gostou. Entendo que tenha ficado chateado. Talvez eu pudesse ter sido mais cautelosa, sabendo que um dia o livro poderia ser lido por seus vizinhos. Suprimir, por exemplo, o diálogo em que Rais conta piadas sujas e comenta com a mulher sobre a vida sexual de uma viúva não destruiria o livro. Na época, achei interessante contar que, apesar de a sociedade ser tão tradicional, no Afeganistão há anedotas sobre a sexualidade dos outros como em qualquer parte do mundo.  

Veja – O cineasta Theo van Gogh foi morto na Holanda por causa de um filme que denunciava a opressão contra mulheres muçulmanas. Na Dinamarca, a publicação de uma charge do profeta Maomé causou uma explosão de violência. A senhora se sente ameaçada?
Seierstad – Não. Os fundamentalistas não estão nem aí se você critica o modo como tratam as mulheres. O que realmente os irrita é o desrespeito aos símbolos sagrados. Fazer uma reprodução do profeta Maomé é um sacrilégio. Quanto ao filme de Theo van Gogh, a causa da fúria dos fanáticos não foi a imagem da mulher espancada, mas os versos sagrados pintados em seu corpo nu. Os muçulmanos de meu país não se identificam com Rais, porque acham que ele só está atrás de fama e dinheiro. Certa vez, um taxista de origem afegã me disse: "O livreiro foi estúpido em lhe contar todas essas coisas e você foi estúpida em escrevê-las". Recebi cartas de apoio de mulheres muçulmanas na Europa. Elas dizem que, ao ler o livro, quase conseguem sentir o cheiro de sua casa.  

Veja – Qual sua opinião sobre o relativismo cultural, a idéia de que toda cultura tem o direito de manter seus costumes, por mais errados que eles pareçam a quem os vê de fora?
Seierstad – Eu acredito na Declaração Universal dos Direitos Humanos, segundo a qual todos têm valores e direitos iguais. O relativismo cultural justifica costumes inaceitáveis das sociedades islâmicas. Há muito abuso em uma família em que o poder e o destino das mulheres ficam concentrados nas mãos de um único homem. As agressões psicológicas são inevitáveis e os castigos físicos, freqüentes. Não se pode dizer que as mulheres muçulmanas não sofram só porque a submissão feminina faz parte da sua cultura. Um tapa dói do mesmo jeito em uma mulher afegã, norueguesa ou brasileira. Algumas pessoas me criticam dizendo que não se pode julgar uma sociedade islâmica, de Terceiro Mundo, com base em valores e padrões europeus. É uma das coisas mais estúpidas que já ouvi na vida. A crítica faz com que as sociedades evoluam. Os muçulmanos também nos julgam. Dizem que somos imorais e impuros. E se tiverem razão em algum ponto? O mundo precisa de debates. Tentar impedir alguém de dar opinião é muito perigoso.  

Veja – A que se deve o sucesso de O Livreiro de Cabul?
Seierstad – Foi o livro certo na hora certa. A guerra ao terror e o 11 de Setembro colocaram o Afeganistão em evidência e aumentaram o interesse sobre essa região, até então ignorada pelo público ocidental. Ao escrever sobre o dia-a-dia de uma família afegã, consegui mostrar às pessoas um aspecto da história que não aparece nos noticiários da guerra. Evidentemente, não esperava que fosse vender quase 3 milhões de cópias.  

Veja – Seu novo livro fala da invasão americana no Iraque sob a perspectiva da população local. Como foi trabalhar no país?
Seierstad – Quando eu entrei no Iraque, Saddam Hussein ainda estava no poder. Os iraquianos estavam apavorados e era difícil encontrar alguém disposto a falar. Eles me repetiam um discurso pronto, dizendo amar Saddam. Logo depois da queda do ditador, as pessoas se sentiram repentinamente livres. Ficou evidente que a maior parte dos iraquianos gostou de se ver livre de Saddam, embora achasse que os americanos não deveriam ficar muito tempo no país. A euforia durou pouco. Hoje, com a ocupação se prolongando, eles acham humilhante que estrangeiros estejam dirigindo seu destino. O medo voltou e o ambiente tornou-se mais ameaçador. Agora, só é possível trabalhar nas zonas seguras, de onde não dá para fazer muita coisa. Por isso eu decidi não voltar.

 
 
 
 
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