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Edição 1973 . 13 de setembro de 2006

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André Petry
As elites e os pobres

"Palocci foi indiciado pela Polícia Federal
no início de abril. Já faz cinco meses! E até
agora a polícia não mandou o relatório final
ao Ministério Público! Será que a coisa só
vai andar depois
da eleição?"

Virou moda dizer que os pobres não dão bola para a corrupção, não se importam com a ética, não estão nem aí para os padrões de moralidade pública. Por isso, votam em Lula sem tampar o nariz. Será que esse descaso é mesmo um comportamento de pobres antiéticos?

O ex-ministro Antonio Palocci é candidato a deputado, e as projeções petistas indicam que sua vitória está praticamente assegurada. Palocci não aparece em público, não se exibe diante da massa, não sobe em palanques, evita entrevistas à imprensa. Dedica-se a fazer jantares e reuniões privadas. Também realiza palestras para uma certa elite em São Paulo. Vinha cobrando 15 000 reais para falar em bancos e empresas privadas, que não são lugares freqüentados pelas camadas mais pauperizadas do eleitorado. Recentemente, participou de um seminário para discutir os desafios nacionais ao lado de outros ex-ministros da Fazenda. Como se fosse dono de biografia tão íntegra quanto a de Pedro Malan.

Há, portanto, banqueiros e empresários que ouvem Palocci, gostam de Palocci e votam em Palocci. E não é que o ex-ministro está indiciado pela Polícia Federal? Depois de José Dirceu, Palocci é a imagem da lama no governo Lula. É acusado de mandar perseguir o caseiro que o denunciou, num dos atos mais sórdidos e covardes patrocinados neste governo. É suspeito de ter montado um esquema para receber um mensalinho de 50 000 reais quando era prefeito de Ribeirão Preto. É acusado de ter arrecadado dinheiro clandestino na campanha de Lula. De cercar-se de assessores ávidos por enriquecer às sombras. De mentir sistematicamente sobre sua presença no casarão dos negócios em Brasília. De esconder que usava o jatinho que viajou com dinheiro de Cuba. Por tudo isso, sua candidatura, que parte dos eleitores abastados tanto prestigia, é uma busca desesperada pelo foro privilegiado.

Palocci está em campanha, mas anda meio de lado, meio escondido. Primeiro, porque sua campanha é feita junto a essa parcela endinheirada que adora ouvi-lo. Segundo, porque Palocci tem de ser discreto. Se aparecer muito, sempre pode surgir alguém para lembrar que seu inquérito na Polícia Federal – essa instituição tão ágil em outras operações – não sai do mesmo lugar. Palocci foi indiciado como mandante da quebra do sigilo bancário do caseiro no início de abril. Já faz cinco meses! E até agora a polícia não mandou o relatório final ao Ministério Público! Será que a coisa só vai andar depois da eleição? Depois do foro privilegiado?

Os banqueiros e empresários que votam em Palocci e tratam-no como se fosse uma autoridade sem máculas estão fazendo um cálculo: acham que Palocci escorregou, mas suas idéias econômicas são tão sensatas, tão ponderadas, que vale a pena prestigiá-lo apesar das trambicagens.

Isso significa que os pobres são imorais, malandrinhos e antiéticos quando escolhem trocar um prato de arroz pelo voto em candidatos enlameados, como Lula, paizão dos pobres, do mensalão, das dívidas ocultas e, não menos significativo, de Lulinha. Mas, quando os abastados prestigiam um candidato enlameado, aí não tem problema nenhum? Há nisso algum eco querendo nos dizer que pobres são descarados e abastados são pragmáticos?

 
 
 
 
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