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André
Petry
As elites e os pobres
"Palocci foi indiciado pela Polícia
Federal
no início de abril. Já faz cinco meses! E até
agora a polícia não mandou o relatório final
ao Ministério Público! Será que a coisa só
vai andar depois da eleição?"
Virou moda dizer que os pobres
não dão bola para a corrupção, não
se importam com a ética, não estão nem aí
para os padrões de moralidade pública. Por isso, votam
em Lula sem tampar o nariz. Será que esse descaso é
mesmo um comportamento de pobres antiéticos?
O ex-ministro Antonio Palocci
é candidato a deputado, e as projeções petistas
indicam que sua vitória está praticamente assegurada.
Palocci não aparece em público, não se exibe
diante da massa, não sobe em palanques, evita entrevistas
à imprensa. Dedica-se a fazer jantares e reuniões
privadas. Também realiza palestras para uma certa elite em
São Paulo. Vinha cobrando 15 000 reais para falar em bancos
e empresas privadas, que não são lugares freqüentados
pelas camadas mais pauperizadas do eleitorado. Recentemente, participou
de um seminário para discutir os desafios nacionais ao lado
de outros ex-ministros da Fazenda. Como se fosse dono de biografia
tão íntegra quanto a de Pedro Malan.
Há, portanto, banqueiros
e empresários que ouvem Palocci, gostam de Palocci e votam
em Palocci. E não é que o ex-ministro está
indiciado pela Polícia Federal? Depois de José Dirceu,
Palocci é a imagem da lama no governo Lula. É acusado
de mandar perseguir o caseiro que o denunciou, num dos atos mais
sórdidos e covardes patrocinados neste governo. É
suspeito de ter montado um esquema para receber um mensalinho de
50 000 reais quando era prefeito de Ribeirão Preto. É
acusado de ter arrecadado dinheiro clandestino na campanha de Lula.
De cercar-se de assessores ávidos por enriquecer às
sombras. De mentir sistematicamente sobre sua presença no
casarão dos negócios em Brasília. De esconder
que usava o jatinho que viajou com dinheiro de Cuba. Por tudo isso,
sua candidatura, que parte dos eleitores abastados tanto prestigia,
é uma busca desesperada pelo foro privilegiado.
Palocci está em campanha,
mas anda meio de lado, meio escondido. Primeiro, porque sua campanha
é feita junto a essa parcela endinheirada que adora ouvi-lo.
Segundo, porque Palocci tem de ser discreto. Se aparecer muito,
sempre pode surgir alguém para lembrar que seu inquérito
na Polícia Federal essa instituição
tão ágil em outras operações
não sai do mesmo lugar. Palocci foi indiciado como mandante
da quebra do sigilo bancário do caseiro no início
de abril. Já faz cinco meses! E até agora a polícia
não mandou o relatório final ao Ministério
Público! Será que a coisa só vai andar depois
da eleição? Depois do foro privilegiado?
Os banqueiros e empresários
que votam em Palocci e tratam-no como se fosse uma autoridade sem
máculas estão fazendo um cálculo: acham que
Palocci escorregou, mas suas idéias econômicas são
tão sensatas, tão ponderadas, que vale a pena prestigiá-lo
apesar das trambicagens.
Isso significa que os pobres
são imorais, malandrinhos e antiéticos quando escolhem
trocar um prato de arroz pelo voto em candidatos enlameados, como
Lula, paizão dos pobres, do mensalão, das dívidas
ocultas e, não menos significativo, de Lulinha. Mas, quando
os abastados prestigiam um candidato enlameado, aí não
tem problema nenhum? Há nisso algum eco querendo nos dizer
que pobres são descarados e abastados são pragmáticos?
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