Claudio
de Moura Castro é economista
(claudiomc@attglobal.net)
Smithsonian
ou
Ibirapuera?
"Na
Mostra do Redescobrimento, o Brasil
revelou que tem o que
mostrar um país
pujante, criativo e competente , e mostrou
que sabe fazê-lo"
Ilustração Ale Setti
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Voltando para Washington, onde moro, pensava visitar algum museu
do Smithsonian Institution. Mas atrasou-se a conexão de
Brasília e acabei pernoitando em São Paulo. Fui
então ao Ibirapuera ver a gigantesca exposição
Mostra do RedescobrimentoBrasil + 500. Optava entre amostras
da arte e da cultura de dois países continentais
Brasil e Estados Unidos com a mesma idade, com os mesmos
influxos étnicos e culturais e com a mesma diversidade.
Ao caminhar, pensava nas aproximações e contrastes.
Nossos índios estavam aquém das grandes civilizações
do continente, mas deixaram manifestações artísticas
importantes. A arte plumária é imbatível.
Mas, sobretudo, os índios mesclaram-se em nossa cultura.
Quase desapareceram como etnia, mas reapareceram plasmados no
nosso sangue, cultura, temperamento, vocabulário e culinária.
Os americanos não podem dizer o mesmo. Foram-se os seus
índios e quase nada deixaram de herança. Diante
do barroco brasileiro, pobres americanos, cujo puritanismo não
permitia os arroubos de uma propaganda religiosa tão apoteótica.
Vivíamos pobremente no século XVIII, mas deixamos
muito para a posteridade. Os corredores do Smithsonian revelam
uma arte tão ascética quanto as capelas da Nova
Inglaterra (já que os esforços iam para as realizações
práticas). O século XIX é a ocidentalização
do país, a busca de identidade, em uma relação
dialética da arte com a sociedade, no épico alienado
de Pedro Américo, na aristocracia diletante, no sensualismo
de Visconti. Essa mesma cópia deslumbrada do europeu existiu
nos Estados Unidos, mas a pintura tecnicamente cuidada deve ser
mais numerosa que a nossa. Nossa arte do século XX é
respeitável, não passa vergonha. Há muita
variedade e muitas obras de boa cepa e criatividade. Mas aí
perdemos feio para o país que se tornou o centro mundial
da arte. O negro, bem representado na exposição,
aparece como incompreendido e maltratado. Mas, tal como o índio,
não foi apenas vítima dos brancos, é também
protagonista. O sincretismo incontível da cultura brasileira
leva o negro a contribuir para construir esta nação
tão ambiguamente integrada. A lei dos direitos civis americana
incorpora os negros, mas não incorpora sua cultura (exceto
na música). São americanos tão logo adotam
a cultura dos brancos.
Na arte popular, aí estamos em ampla dianteira, por causa
da extraordinária criatividade do nosso povo, desde os
escultores GTO (Geraldo Teles de Oliveira) e Nhô Caboclo
até os ex-votos. O que nos mostra o Smithsonian é
pobre, apesar da existência de um artesanato culto de primorosa
qualidade, fruto da educação e da tecnologia do
país. Mas esse é só um lado da exposição.
O outro é o que revela o gigantesco esforço de mais
de três anos para organizar um evento que reúne obras
trazidas de vários continentes, por via de uma organização
em que colaboram governo, fundações filantrópicas
e empresas privadas. Não é coisa de país
atrasado. O resultado é primoroso. Organização,
bilheterias e catálogos, tudo funciona, tudo é bem
explicado. No dia em que visitei, para cada adulto haveria umas
vinte crianças, todas guiadas por monitores bem preparados.
Crianças com caderninho, tomando notas, como nos museus
europeus. A mostra sobre a origem do homem é didática
e atraente, com meios muito modestos. É uma exposição
para o povo, não apenas para as elites. Talvez o mais dramático
tenha sido o uso de cenógrafos ousados e criativos para
apresentar algumas exposições. O uso das flores
artificiais, criando planos ondulantes, lembra o paisagismo de
Burle Marx. Caminhando por corredores escuros, construídos
com massas de flores, de repente, na curva está um Aleijadinho
iluminado por spot. Em meio a uma floresta de troncos verticais
está uma clareira com imagens seiscentistas. Jamais vi
um uso tão eloqüente da cenografia teatral para mostrar
arte. Certamente, o Smithsonian não ousaria. Terminado
o passeio, com os pés moídos, fiquei pensando no
país pujante, criativo e competente que ali se exibia.
O Brasil tem o que mostrar, e mostrou que sabe fazê-lo.