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Roberto Pompeu de Toledo

Independência ou morte?
– Morte!

De como uma dúvida tola acaba por sugerir a
extinção
de todo um país – e de seus habitantes

De quando em quando, sem data marcada, mas principalmente nas proximidades do 7 de setembro, ressoa em certos meios uma conhecida cantilena. Seria o Brasil realmente independente? A pergunta, muito cara a certos militantes do PT, certos bispos da CNBB e certos dirigentes do MST, ou é fruto da singeleza de espírito ou, ao contrário, da malícia ideológica. Ou revela certa dose de confusão, na cabeça de quem a faz, ou o desejo de provocar confusão, na cabeça de quem a ouve. Caso se queira ser mal-educado, pode-se acrescentar que a pergunta é tola. Vá lá, sejamos mal-educados: a pergunta é tola. O problema é que ela revela uma síndrome perigosa. Por isso, vale dois minutos de atenção.

Que é um país independente? A resposta é das mais fáceis. É o que se quer independente e é reconhecido como tal pelos outros. Que tem hino, bandeira, território definido, governo, assento próprio nos organismos internacionais e embaixadores em outros países, além, naturalmente – e isso é decisivo no caso brasileiro –, de uma seleção nacional de futebol1. O conceito de país independente surge em oposição ao de colônia. Quando se é colônia, usa-se a bandeira e o hino da metrópole, bem como o governo dela, com as poucas vantagens e as muitas desvantagens que isso acarreta, fica-se na contingência de ser representado por ela, perante outros países, e não se tem time próprio de futebol. Aos craques locais não resta senão reforçar o time da metrópole2.

Pode-se acrescentar, para dar mais conteúdo ao conceito de país independente, que um país independente é... um país. Qual seja, possui uma identidade, uma personalidade, uma série de características distintivas, em suma, que o fazem digno do nome "país". De novo, isso decorre da oposição entre país independente e colônia. Quando se é colônia, tem-se uma personalidade ainda algo impregnada, quando não totalmente impregnada, pela da metrópole3. A independência, mais ou menos como ocorre com um ser humano, vem com a afirmação da própria personalidade. O Brasil, ao conquistá-la, deixara de ser o Portugal de ultramar. Tinha um jeitão seu. Acrescente-se que, da independência para cá, esse jeitão (e também o jeitinho, não deixemos de registrar) só se robusteceu. Ninguém confunde Portugal com o Brasil.

Dito isso, conclui-se ser líquido e certo que o Brasil é um país independente. Nem de longe tem problemas como os da Palestina ou do Timor Leste. Por que, então, a dúvida? Porque, de boa ou má-fé, mais de má do que de boa, ao conceito de independência – a independência que se festeja no dia 7 de setembro, e que celebra o nascimento e a continuidade da nação – pretende-se atar um tema estranho a ela: o do atraso no desenvolvimento, que leva a crônicas situações de inferioridade, nas relações com países mais fortes. Não se discute a relevância deste segundo tema, candente e polêmico. O problema é identificá-lo com o conceito da independência que o país comemora a 7 de setembro. Este é pacífico, e não devia suscitar dúvida. Não por patriotismo, que, até prova em contrário, continua sendo o último refúgio dos patifes, mas por uma questão de – não se espante o leitor – sobrevivência.

Sim, sobrevivência – e com isso chegamos à síndrome perigosa enunciada acima. Em que consiste ela? No desejo – ou compulsão – de anular o Brasil como um todo. Revogá-lo, riscá-lo do mapa, expatriá-lo da história do mundo. Isso já aparecia nas celebrações dos 500 anos do Descobrimento. Assacou-se ferozmente contra elas. Não haveria o que celebrar. Razão tinham os índios, e tudo o que se seguiu foi um equívoco. Igualmente, quando se duvida da independência, a conseqüência é arrasadora. A que fica reduzido um país que nem independente é? A um molambo da ordem internacional. Um pária. Além de um impostor, que finge ser o que não é. Em resumo: a um não-país. E, para os não-países, o que resta? Resta não ser, afogar-se no seu nada. O problema – daí falar em sobrevivência – é que, com ele, afogamo-nos nós todos, os habitantes, inclusive os que duvidam da independência, e os que se revoltam contra o Descobrimento, os exaltados do PT, os bispos xiitas, o MST, todos desaparecidos na mesma ignomínia de quem é fruto de um Descobrimento que não descobriu, de uma Independência que não independentizou e de um país que, não tendo vingado, só finge ser, como uma miragem no deserto.

1. O leitor esperto pode argumentar que a Escócia e o País de Gales têm seleções de futebol e não são independentes. Certo. Mas tal anomalia reflete, antes, as origens da Fifa, criada para regular as competições internas das Ilhas Britânicas, do que o desrespeito aos critérios pelos quais os Estados se reconhecem uns aos outros. Não se criou, a partir daí, precedente que permitisse, por exemplo, ao País Basco ou à Catalunha possuir seleções próprias, diferentes da espanhola.

2. Vide os craques de Guadalupe, Martinica ou Ilha de Reunião que reforçavam – e como – a seleção francesa campeã de 1998.

3. Talvez isso seja menos verdade no caso de velhas nações que em certo momento estiveram sob o jugo de uma potência imperialista – caso da Índia, quando colônia da Inglaterra. No entanto, mesmo a Índia mais que milenar, tão ela mesma, não deixou de ter sua personalidade impregnada pela da metrópole.

 

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