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Direita, volver!

Dicionário analisa idéias e personagens
que se opuseram à esquerda no século XX

Carlos Graieb


Em dicionários de língua portuguesa como o Aurélio ou o Michaelis, a palavra "baderna" encontra meia dúzia de definições, nem todas elas negativas. Ela funciona como sinônimo de bagunça e corja. Também pode designar uma folia divertida, ou apenas um grupo de rapazes. No debate político nacional, contudo, a palavra adquiriu há tempos uma forte conotação pejorativa. Como afirma o historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva, "o termo, de uso corrente entre militares desde a República Velha, ficou marcado como o contrário do ideal de ordem e disciplina. Ele colonizou o universo político brasileiro, em especial os meios liberais, sempre temerosos frente à possibilidade de um descontrole das massas populares". Para Teixeira da Silva, baderna tem lugar de destaque no vocabulário dos conservadores e, nessa qualidade, faz parte do Dicionário Crítico do Pensamento da Direita, que ele acaba de organizar em parceria com os cientistas sociais Alexander Martins Vianna e Sabrina Evangelista Medeiros. Fruto de quatro anos de trabalho, o livro será lançado nesta semana (co-edição Faperj/Mauad; 459 páginas; 76 reais). Contou com a colaboração de 120 autores do Brasil e do exterior e tem cerca de 300 verbetes, que vão de "aborto" ao nazista brazuca Armando Zanine, passando por temas tão variados quanto "coronelismo", "eugenia", "futebol", "neofascismo", "rock-and-roll" ou "tortura".

Teixeira da Silva conta que, para organizar o dicionário, usou como ponto de partida o livro Direita e Esquerda (Editora Unesp), do filósofo italiano Norberto Bobbio. Esse ensaio tem três linhas mestras. Primeiro, afirma que a distinção entre direita e esquerda continua tendo plena validade, ao contrário do que afirmaram muitos depois do fim do comunismo. Em segundo lugar, tenta identificar um critério para distinguir os partidários de uma ou outra posição. Segundo Bobbio, a preocupação com o tema da igualdade é que tem caracterizado os partidários da esquerda ao longo da História. Ele ressalta, no entanto, que a igualdade não é um bem supremo e único. "Não desejo dizer que uma maior igualdade seja sempre e em todos os casos preferível a outros valores como a liberdade, o bem-estar, a paz." Daí decorre a terceira linha mestra do livro de Bobbio: ele não considera que toda pessoa que deixa o ideal da igualdade em segundo plano seja adepta do Mal. Por isso, não demoniza a direita. Ao usar essas idéias como guia, Teixeira da Silva pretendeu dar um perfil analítico e não-partidário ao Dicionário. Imaginou um livro que abordaria os excessos autoritários da direita no século XX, como o nazismo ou a Ditadura Militar brasileira, mas que também identificaria um "corpo teórico articulado, musculoso e seminal" de pensamento conservador, que faz parte integrante da modernidade e não é mero resquício de modos de raciocínio arcaicos. Imaginou um livro abrangente, que trataria de política e economia, cultura e comportamento.

A idéia é ótima. A realização deixou bastante a desejar. Há desníveis acentuados entre as colaborações. Algumas são claras e úteis, como as dos historiadores Ronaldo Vainfas ("Alteridade") e José Murillo de Carvalho ("Conservadorismo no Brasil República"). Outras são confusas e decepcionantes. Um segundo problema é que o tom equilibrado muitas vezes se perde. "Nem sempre é fácil lidar com o pequeno Lenin que há dentro de cada um de nós", reconhece Teixeira da Silva, referindo-se às filiações de esquerda da maioria dos colaboradores. Freqüentemente, eles relutam em apontar de maneira clara os acertos e vitórias da política conservadora: não dizem que o governo Reagan abriu um período de grande prosperidade na economia dos Estados Unidos nem reconhecem o rigor e a admirável consistência do pensamento de Roberto Campos. Além disso, há verbetes que não mereciam estar no dicionário, como o dedicado a Walt Disney. O desenhista americano pode até ter cortejado o fascismo, mas dizer que o Pateta é de direita é pura patetice esquerdista. Por outro lado, há temas e personagens que precisavam estar contemplados e não estão. É o caso de "decadência", palavra-chave para tantos intelectuais conservadores. O ditador Getúlio Vargas também precisava de um verbete biográfico. A ausência dele é imperdoável. Que acadêmicos brasileiros, financiados por uma instituição pública como a Faperj, tenham se dedicado a elaborar uma obra de referência como esta, é louvável. Mas, se quiser cumprir seu papel, o Dicionário precisará de uma segunda edição revista. E logo.

 

Os conservadores

Oscar Cabral
Roberto Campos: campeão do liberalismo no Brasil


Segundo seus organizadores, um propósito do Dicionário Crítico é demonstrar a existência de um corpo teórico vigoroso e progressista de pensamento conservador. "É importante não demonizar a direita como um todo", diz ele. Mesmo assim, alguns verbetes relutam em reconhecer méritos de conservadores como Ronald Reagan (cuja Presidência deu início a um período de grande prosperidade nos Estados Unidos) ou Roberto Campos (que se destaca pelo rigor e consistência de suas idéias).

 

Os extremistas

O século XX foi rico em líderes e partidos violentos e autoritários – de direita e de esquerda, diga-se. O Dicionário Crítico dedica verbetes a movimentos como o fascismo, o nazismo e o salazarismo. Mas também presta atenção a manifestações mais recentes da "direita raivosa", como os grupos de jovens neonazistas da Europa e as torcidas de futebol de alguns países, que se têm organizado como verdadeiras milícias.

 

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