Desejo, logo
existo
Bigas
Luna surpreende com um filme elegante
Isabela
Boscov
Divulgação
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| O
operário e a camareira misteriosa: a apatia dos atores
é um problema |
Em
seu filme mais famoso, Jamón, Jamón, o catalão
Bigas Luna criou um herói que deixava as mulheres transtornadas
de paixão ao mascar dentes de alho. Em Ovos de Ouro,
a audácia já começava pelo título, que
nada tinha a ver com galináceos. A sutileza nunca foi o ponto
forte do diretor, tido como um dos mais talentosos, e mais exagerados,
do cinema espanhol. Por isso A Camareira do Titanic (La
Femme de Chambre du Titanic, Espanha/França/Itália,
1997), que estreou na quinta-feira em São Paulo, é
tão surpreendente. Elegante nas idéias e na execução,
o filme conta a história de Horty (vivido por Olivier Martinez),
um operário francês que ganha do patrão uma
passagem para ir até a Inglaterra ver o Titanic zarpar.
Horty é um modelo de resignação: trabalha o
dia inteiro no calor escaldante de uma fundição, mas
acha que a vida está ótima. Tão estreita é
sua visão que ele nem se dá conta de que o patrão
está de olho em sua mulher. Na Inglaterra, porém,
Horty vive uma aventura. Uma jovem (a espanhola Aitana Sánchez-Gijón)
bate à porta de seu quarto e, dizendo-se camareira do Titanic,
pede guarida por aquela noite. A moça tenta seduzir o operário,
mas ele recusa ao menos aparentemente. De volta ao lar, ele
ouve insinuações de que sua mulher pulou a cerca e
se enfurece. Vai à taverna e, de revanche, passa a inventar
histórias sobre sua noite de paixão com a camareira.
O que se apresenta como brincadeira acaba ficando sério:
os relatos são tão vivazes que narrador e platéia
tornam-se dependentes deles para dar alguma graça à
vida.
Como
nos outros filmes de Bigas Luna, o desejo é uma peça
central da trama. Cada vez que Horty abre a boca, o diretor corta
para as cenas que ele diz ter vivido com a camareira fantasias
tão singelas e domesticadas quanto seu narrador. Mais do
que a luxúria, o que importa aqui é o poder transformador
da imaginação. Pena que a interpretação
da dupla de amantes não acompanhe a toada de Luna. Aitana,
que fez parzinho com Keanu Reeves no fraco Caminhando nas Nuvens,
não convence no papel de mulher em fogo, e Martinez é
quase bovino em sua apatia. Ambos levam um baile da francesa Romane
Bohringer, a mulher de Horty, que passa o filme ouvindo o marido
falar de seu romance e não pára de se indagar: e aí,
rolou ou não rolou? A graça, como se pode conferir,
está na dúvida.
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