Executivos
de chinelos
Multinacionais
no Brasil incentivam
trabalho em casa, tendência que
já atinge milhões de americanos
Maurício
Oliveira
Selmy Yassuda
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| Cláudia,
da American Express, com a família: produtividade aumentada
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Para
ir e voltar de sua residência, em Niterói, à
sede da American Express, onde trabalha, no centro do Rio de Janeiro,
a executiva Cláudia Martello gastava pelo menos duas horas
por dia. De uns tempos para cá, ela está livre dessa
rotina. Foi a escolhida pela multinacional para testar, no Brasil,
uma modalidade de trabalho que poderá transformar o cartão
de ponto em relíquia: o escritório doméstico.
A empresa forneceu todos os equipamentos telefone, fax, computador
e providenciou o mobiliário para que Cláudia
desfrutasse os recursos tecnológicos e o conforto de que
dispunha no escritório da companhia. Coube à executiva
reservar um cômodo da casa e estipular regras bem claras para
os filhos Luiza, de 10 anos, e Lucas, de 2. "Instalei uma porta
de vidro para que as crianças possam me ver de fora", conta
a diretora de cheques de viagem. "Elas só têm autorização
para entrar quando faço o sinal que combinamos."
Histórias
semelhantes começam a ser contadas por dezenas de funcionários
de outras multinacionais instaladas no país. A idéia
vem do mercado americano, onde 18 milhões de pessoas já
trabalham em casa em tempo integral e outros 16 milhões,
em tempo parcial. No Brasil, o grande empecilho era a má
qualidade da rede de telefonia. Agora, com a maior oferta de linhas
e a crescente capacidade de transmissão de dados, algumas
grandes companhias estimulam funcionários a trabalhar na
própria casa. A Kodak já montou 120 escritórios
domésticos. Na Shell, o trabalho a distância deu certo
e deverá ser adotado por todo o departamento de vendas até
o fim do ano. A Nortel está iniciando um projeto que prevê
a permanência em casa de quase metade dos funcionários
no Brasil. São iniciativas que apontam para uma renovação
no conceito de escritório conforme se viu ao longo do século
XX.
No
setor de serviços, grande parte das funções
pode ser transferida para o ambiente residencial. Na teoria, o método
traz vantagens para todas as partes envolvidas. As empresas economizam
com aluguel e os demais gastos de uma estrutura corporativa. O funcionário
ganha a chance de estar mais perto da família e de ser dono
do próprio tempo. Na prática, contudo, trabalhar em
casa não é tão simples. Quem se afasta do convívio
diário com os colegas pode sentir-se abandonado. Para combater
o isolamento, a Kodak promove encontros semanais entre os funcionários
que trabalham em casa. Os integrantes do antigo departamento de
vendas de São Paulo almoçam juntos às sextas-feiras,
com o duplo objetivo de confraternizar e discutir assuntos profissionais.
"Às vezes o papo vai até as 7 da noite", conta o gerente
de vendas Roberto Maroti. Há 21 anos na empresa, ele aprova
com entusiasmo o novo cotidiano. "Posso levantar um pouco mais tarde,
tomar banho tranqüilo e ler o jornal antes de começar
o trabalho. Quando estou cansado, vou ouvir um som, dar um passeio
e volto com o ânimo renovado", diz ele. A Shell transformou
em virtual todo o departamento de vendas, que abriga 300 dos 1.300
funcionários da empresa no país. Com o fechamento
de nove escritórios regionais, restaram apenas os do Rio
e os de São Paulo, este reduzido à metade. Montar
cada escritório doméstico custa, em média,
15.000 reais, mas o investimento está
sendo rapidamente recuperado.
Os
profissionais que experimentam a novidade relutam em abandoná-la.
Sandra Capelli, funcionária da Dupont, teve um começo
difícil. Ela entrava no carro e ia tomar café da manhã
na padaria da esquina apenas para ter a sensação de
que não trabalhava na própria casa. Depois, a adaptação
foi plena. Em julho, Sandra assumiu um novo cargo e teve de voltar
a cumprir expediente na companhia. "Está sendo muito difícil
enfrentar as pequenas burocracias que toda empresa tem", diz Sandra.
"Antes eu só dependia de mim mesma, e nada pode ser mais
produtivo do que isso." Pesquisa realizada pela empresa AT&T
nos Estados Unidos revelou que 73% dos profissionais que trabalham
em casa consideram que a mudança melhorou a vida pessoal.
Na canadense Nortel, apenas 3% dos 15.000
funcionários que passaram pela experiência em todo
o mundo desistiram por falta de adaptação. Estudos
americanos credenciam esse alto índice de aprovação
à possibilidade de trabalhar na hora em que se deseja e de
resolver problemas pessoais durante o expediente. O principal resultado
disso tudo é o aumento de eficiência. "A produtividade
de quem trabalha em casa é 30% maior", afirma a coordenadora
do projeto da Shell, Ellen Hartmann.
Constatações
parecidas fazem com que todas as empresas que já iniciaram
a experiência estejam planejando ampliar o número de
escritórios domésticos. A Nortel está implantando
o método com quarenta gerentes e diretores, mas a intenção
é mandar para casa (no bom sentido) pelo menos 400 dos 1.000
funcionários no país. Na Kodak, a expectativa é
de que 500 pessoas adotem o sistema nos próximos anos, o
que corresponderia a um terço da força de trabalho
da companhia no Brasil. Na Siemens, o projeto é para janeiro.
"Vamos começar com uma proporção de quatro
dias em casa e um na empresa, para que a pessoa não esqueça
o rosto dos colegas", diz o consultor de desenvolvimento organizacional
da Siemens, Tácito Maranhão.
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