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Estudo revela que o país não fez o dever de
casa da educação e da pesquisa e se atola a
cada dia num arriscadíssimo atraso tecnológico

Consuelo Dieguez

 
Paulo Jares
Batista: alerta ao Planalto sobre o risco de o país ficar para trás

O presidente Fernando Henrique Cardoso reuniu no final de agosto um grupo de ministros no Palácio da Alvorada para ouvir uma das maiores autoridades brasileiras em política de desenvolvimento estratégico: o ex-ministro e ex-presidente da Vale do Rio Doce Eliezer Batista. Não foi um encontro de boas notícias. Durante quase duas horas, Fernando Henrique e o ministro da Fazenda, Pedro Malan, o da Ciência e Tecnologia, Ronaldo Sardenberg, e o do Desenvolvimento, Alcides Tápias, tiveram acesso a uma das mais dramáticas e completas radiografias da questão tecnológica no país. Trata-se de um estudo encomendado a Eliezer Batista pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), interessada, inicialmente, em fazer um levantamento do mercado tecnológico nacional para atrair mais investimentos para o Estado. O que se desvendou, porém, foi um quadro preocupante, que ultrapassou as barreiras regionais. O estudo revelou que o Brasil está tão fora do compasso mundial que corre o risco de se tornar um excluído tecnológico caso não tome medidas urgentes para escapar do atraso.


O que faz a situação ser ainda mais grave é que o Brasil está ficando para trás não só dos países desenvolvidos – o que não chega a ser uma surpresa – mas também de seus mais próximos competidores. Os vizinhos México, Argentina e Chile já ultrapassaram o padrão brasileiro na corrida tecnológica como um todo. Para chegar a essa conclusão, o estudo de Eliezer Batista não precisou de nenhuma nova metodologia. Apenas utilizou e cruzou dados recentes do Banco Mundial, do Banco Interamericano de Desenvolvimento, de institutos de pesquisa internacional e do próprio governo brasileiro sobre o desempenho de várias nações em diversos setores. O Brasil apresentou desempenhos sofríveis em quase todos os quesitos. Tem, por exemplo, o pior índice educacional entre os maiores países da América Latina. O índice de utilização da internet é outro problema: é um dos mais baixos entre os países em desenvolvimento. Para piorar, as exportações brasileiras de produtos tecnológicos estão despencando, e a utilização de conteúdo tecnológico nos produtos exportados tem crescido em proporção muito inferior à registrada nos produtos chilenos, argentinos e mexicanos (veja quadro ao lado). "Nós ficamos discutindo exportação de galinha para a Argentina enquanto nossos vizinhos nos empurram inteligência", desabafou recentemente Eliezer Batista a um amigo.

A crítica não é exagerada. Talvez o maior erro do governo brasileiro seja estar festejando apenas os progressos registrados internamente, sem perceber a revolução que está ocorrendo nos vizinhos. Essa miopia lembra a de um treinador que comemora o progresso de seu atleta como se ele estivesse sozinho na pista – e cerra os olhos para outros competidores que estão com um desempenho infinitamente melhor. "O Brasil não está atrasado tecnologicamente em relação aos outros países latino-americanos", contesta o ministro da Ciência e Tecnologia, Ronaldo Sardenberg. "O problema é que esse estudo se baseia em dados de renda per capita." Sardenberg garante que o governo está atento à questão. E cita como exemplo os 3,5 bilhões de reais que seu ministério investirá até 2004 para desenvolver uma infra-estrutura para a integração muito mais rápida das universidades brasileiras às redes de internet americana e européia.

Posição desvantajosa – A educação talvez seja o caso mais emblemático dessa política de enxergar apenas o próprio umbigo. O tempo médio que um estudante da União Européia fica na escola é de dezesseis anos. No Chile, é de 9,5 anos. E no Brasil, de apenas 6,2 anos. Ou seja, não é sequer o prazo necessário para um aluno completar o ensino fundamental. No ensino superior a situação não é diferente (veja quadro). "O número de brasileiros que chegam à universidade é proporcionalmente muito menor do que de argentinos, chilenos e mexicanos. Se continuarmos assim, não poderemos ser um país desenvolvido", reconheceu recentemente o ministro da Educação, Paulo Renato.

O quadro educacional põe, é óbvio, o Brasil em posição desvantajosa no cenário mundial. Os resultados dos esforços do governo para dar um salto nessa área ainda são muito tímidos. "O Brasil vai pagar por muito tempo a conta desse atraso", afirma o economista carioca José Alexandre Scheinkman, ex-diretor da prestigiosa Faculdade de Economia da Universidade de Chicago e atualmente professor da Universidade de Princeton. "Trata-se de uma falha grave ter-se ignorado por tantos anos a questão da educação." O Brasil tem uma mão-de-obra malformada se comparada à de nações com o mesmo nível de renda. E isso aconteceu porque aqui, ao contrário de outros países, o Estado não desempenhou o papel que lhe cabia na educação, principalmente nos ensinos básico, médio e fundamental.

O despreparo da mão-de-obra, contudo, é apenas um dos componentes que ajudam a emperrar a engrenagem tecnológica brasileira. Aliada perversamente a isso está a intrincada estrutura tributária e fiscal, que acaba estimulando o mercado informal. Nesse caldo entram também a péssima distribuição de renda, impedindo que o país tenha uma economia de escala, e os baixos investimentos governamentais em pesquisa. Neste ano, por exemplo, o Brasil receberá apenas 142 milhões de dólares pelo uso de suas patentes. O México embolsará quase o triplo. Além disso, outro fator de atraso foi a reserva de mercado de informática, que limitava brutalmente a entrada de produtos do gênero no país. Ela praticamente engessou a economia brasileira na década de 80 e início dos anos 90. Até hoje se sofre pelas conseqüências desse equívoco nacional. "Está provado que quando se protege um setor se desprotege todos os outros", ensina Scheinkman.

Ana Araújo
Fernando Henrique: todo o esforço em educação e desenvolvimento feito pelo governo não basta

Mesmo com o fim da reserva de mercado, o Brasil ainda tem barreiras que dificultam muito a disseminação da tecnologia. Segundo o estudo da Firjan, o imposto de 30% cobrado pelo Brasil sobre a importação de computadores é o mais alto do mundo. Sobre esse imposto incidem ainda outras taxas que acabam por elevar o preço dos PCs em 100%. O computador ainda é um produto de luxo no Brasil, praticamente inacessível à população de baixa renda. Um levantamento feito pela Associação Americana de Eletroeletrônicos indica que apenas 2,7% da população brasileira tem hoje acesso à internet. Deste total, 90% estão nas classes A e B. "O analfabetismo digital é um poderoso fator de exclusão", afirma o presidente da Firjan, Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira. Nos Estados Unidos, um americano médio trabalha dezenove semanas para ter renda disponível para comprar um computador. Para fazer a mesma compra, o brasileiro médio precisaria trabalhar um ano e oito meses. Isso faz com que apenas 25 brasileiros em cada 1.000 tenham acesso à internet, contra 485 em cada 1.000 nos Estados Unidos.

O Brasil está ficando tão defasado na questão tecnológica que está sendo obrigado a mudar seus paradigmas de competição. Nos anos 50, o PIB da Coréia do Sul equivalia a quase a metade do brasileiro. No início da década de 80, os dois países se equiparavam e competiam. Hoje, a economia coreana está se alinhando muito rapidamente aos países mais ricos. Grande parte deste salto ocorreu graças aos pesados investimentos em educação e capacitação tecnológica, que deram formidável empurrão nas exportações de um dos mais agressivos Tigres Asiáticos. Nesses campos, o Brasil ficou paralisado.

Há vinte anos, quando as diferenças tecnológicas entre os dois países não eram ainda tão evidentes, a participação brasileira no comércio internacional representava 1,6% do total negociado. Caiu para 0,9%. No mesmo período, a Coréia passava celeremente de 1,05% para 2,5%. Enquanto uma parte do mundo ia agregando cada vez mais produtos tecnológicos a suas exportações, o Brasil se manteve agarrado a quase os mesmos produtos que exportava nos anos 80 – com a agravante de que os manufaturados começaram a registrar quedas nas vendas, porque não estão conseguindo ganhar competitividade. Traduzindo em números, isso significa que os coreanos devem exportar 175 bilhões de dólares neste ano e nós, apenas 55 bilhões de dólares.

Enquanto caem as exportações brasileiras de produtos mais complexos, como máquinas e equipamentos, o que aumenta é a venda de matérias-primas como ferro, pescados e frutas, que têm impacto financeiro muito menor. Ou seja, em vez de avançar para a era tecnológica, o Brasil recua para os produtos básicos. "Nenhum país ficou rico só com matéria-prima", diz Eliezer Batista. Mas o que a tecnologia tem a ver com isso? Tudo. Os grandes saltos nas economias internacionais nas últimas décadas ocorreram justamente quando os países mais desenvolvidos se apropriaram dos avanços tecnológicos. A estimativa do Banco Mundial é de que o uso intensivo de tecnologia seja capaz de reduzir os custos de produção dos países em 30% e, portanto, aumentar sua competitividade.

Apesar desse quadro, o Brasil registrou alguns progressos. Na semana passada, um estudo divulgado pelo Fórum Econômico Mundial, uma ONG que assessora a ONU, revelou que o Brasil saiu do 51º lugar no ranking mundial de crescimento de competitividade para o 46º. O país continua atrás de Chile, Argentina e México, mas é um sinal de avanço. Este, porém, é o momento crucial para definir quem vai ficar no jogo. Uma das propostas apresentadas pela Firjan ao grupo reunido no Palácio da Alvorada para azeitar a engrenagem é que sejam derrubados todos os impostos sobre a importação de computadores pelo prazo de três anos. Estima-se que, dessa forma, os custos baixariam tanto que nesse período pelo menos mais 11 milhões de brasileiros teriam acesso ao computador. Isso beneficiaria principalmente a população de menor renda, aumentando as chances de competição dos mais pobres no mercado de trabalho. A Argentina está tão preocupada em elevar sua educação digital que iniciou um programa para aumentar o acesso da população ao computador por meio de concessão de empréstimos subsidiados para a compra de PCs. O Banco do Brasil parece ter se antenado para o problema. Tanto que na semana passada abriu uma linha de crédito de 2 bilhões de reais para financiar a venda de computadores e celulares wap a juros mais baixos que os de mercado. Esse é só o começo da corrida. O importante é que o país entenda que não pode ficar para trás numa área tão crítica que irá definir agora em que time o Brasil jogará no futuro.







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