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Durante
as próximas duas semanas, atletas,
doping, bagunça e megacorporações vão
tentar
derrotar seus respectivos adversários
Dorrit
Harazim
AFP

GUGA
VENCE A PRIMEIRA:
Na queda-de-braço entre o seu patrocinador e o do COB, o ídolo
número 1 do esporte brasileiro usa todo o peso de sua popularidade
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"O
instante em que você está exaurido no chão da
batalha, vitorioso, vale uma vida", garante Bela Karolyi, o tonitruante
técnico romeno de ginástica artística que em
1976 revelou ao mundo Nadia Comaneci, a sublime. A veterana tenista
Billie Jean King descreve com outras palavras a sensação
que eletrocutava seu corpo quando desferia um voleio de perfeição
única, letal: "Meus olhos umedeciam, meu coração
pulsava, minhas orelhas pareciam abanar ao vento e ao mesmo
tempo tudo continuava perfeitamente calmo". São esses "momentos
brancos", expressão cunhada pelo levantador de peso russo
Yuri Vlasov (duas medalhas olímpicas, quatro vezes campeão
mundial), que melhor definem os instantes de consagração
atlética. "Subitamente", explica Vlasov, "enquanto o sangue
ainda está pulsando em sua cabeça, tudo se aquieta
dentro de você. O ar se torna mais cristalino e branco, como
se holofotes tivessem sido acesos. Nesse instante, você tem
a certeza de que todo o poder do mundo está em suas mãos,
de que você tem asas. Não existe nada mais precioso
do que esse momento branco, e você vai se matar durante os
quatro anos seguintes para saboreá-lo uma vez mais."
A partir desta sexta-feira, com a abertura oficial dos XXVII Jogos
Olímpicos de verão (verão?) em Sydney, 10.305
atletas entre os quais o brasileiro Gustavo Kuerten, içado
pelas circunstâncias a ícone nacional tentarão
alcançar, se não este patamar rarefeito, o algo mais
que somente um combate olímpico oferece. Por mais que se
fale da submissão do esporte ao poder das grandes corporações,
do emaranhado de contratos que estrangulam o atleta ou dos riscos
de colapso do evento pelo seu crescente gigantismo, o fato é
que nada se compara às Olimpíadas. Mesmo o mais anônimo
e barrigudo dos cidadãos apruma o peito e se sente parte
de algo único ao empunhar a tocha olímpica durante
o seu quilômetro de glória.
AP

A
CARGA MAIS PESADA:
A logística para fazer chegar a Sydney os cavalos do hipismo
incluiu cocheiras aéreas com ar condicionado, um cavalariço
para cada animal e e um veterinário a bordo |
Mas as Olimpíadas são bem mais do que a busca de um
abstrato momento branco. No caso de Sydney, elas estão ancoradas
numa cifra redonda e muito concreta: 8 bilhões de dólares,
para a realização de um evento que dura apenas dezenove
dias. Só a construção do arrojado estádio
olímpico de Sydney, palco da cerimônia de abertura
desta sexta-feira, sugou meio milhão de dólares. A
Vila Olímpica, cuja população pulou do nada
para 15.000 atletas, técnicos e oficiais de 199 países,
será a quinta maior cidade do Estado de Nova Gales do Sul
durante essas duas semanas olímpicas. E já figura
como a maior cidade do mundo operada por energia solar. Ali, durante
os Jogos, serão servidos mais de 2 milhões de refeições,
meio milhão de maçãs, 32.000 quilos de queijo
e 110 quilos de alho, para descer ao mais básico.
A
organização e a operação dos ogos de
Sydney foram bancadas basicamente por patrocinadores privados e
abraçadas com fervor por cerca de 40.000 voluntários
um terço do total das 120.000 pessoas contratadas
pela logística olímpica. Desde os Jogos de 1988, em
Seul, legiões legiões de voluntários são
arregimentadas por todas as cidades-sede que precisam conter gastos
e sempre fazem brotar os piores instintos na estressada tribo
dos jornalistas. Voluntário não tem pressa, sorri
o tempo todo, adora puxar conversa sobre países em geral
e nunca sabe o que está fazendo. Jornalista está sempre
atrasado.
Para boa parte dos países situados a muitos fusos horários
de distância de Sydney, como o Brasil, a logística
de simplesmente fazer chegar seus atletas e equipamentos à
Austrália, nas melhores condições possíveis,
não foi pouca coisa. Esta é a primeira participação
olímpica brasileira sob plena responsabilidade de Carlos
Arthur Nuzman, já que em Atlanta, quatro anos atrás,
ele acabara de ser empossado como presidente do Comitê Olímpico
Brasileiro. "Não estamos indo a um piquenique", lembrou Nuzman
aos chefes de equipe convocados pelo COB para um seminário
fechado realizado no Rio de Janeiro, há quatro semanas. "Não
tenham dúvidas de que em Sydney nós todos estaremos
na vitrine, e não apenas nossos atletas. Estejam na linha
de frente, não acreditem em nada, verifiquem composição
de chaves, horários de provas, de treinamento. É preciso
estar presente o tempo inteiro."
Antonio Milena

OPERAÇÃO ENXOVAL:
Ao todo, quase 100 peças diferentes para cada membro da delegação,
divididas em volumes de menos de 32 quilos para atender as exigências
dos carregadores australianos |
Nesta
última semana antes do início dos Jogos, 119 atletas
brasileiros já cumpriam em Camberra sua fase de adaptação
ao fuso local. "O corpo fica em frangalhos", conta o velocista André
Domingos, descrevendo os efeitos colaterais que perduram por quase
uma semana. "Os músculos sofrem, a coluna cervical vira um
trapo e o quadrado lombar chega a sair do lugar." A equipe de handebol,
que desembarcou na última terça-feira, obrigou-se
a sessões de videokê nos intervalos dos treinos para
acelerar o processo de adaptação. "Mesmo sonolenta,
fico cantando para não dormir e entrar mais rápido
na hora local", explica a jogadora Margareth Montão, a Meg.
A alteração do relógio biológico afeta
os ciclos hormonais por alguns dias, e os treinamentos não
produzem o efeito desejado. Devido às baixíssimas
temperaturas em Camberra, os corredores tiveram sua carga de treinos
reduzida em 30%, para evitar contusões. "Com essa temperatura,
eles demoram o dobro do tempo para chegar ao aquecimento ideal dos
músculos", explica Carlos Marcelo Pastre, fisioterapeuta
da equipe de atletismo.
Cravar uma planilha de vôos para a diáspora olímpica
que atua no exterior também não foi fácil.
As duplas de vôlei de praia feminino e masculino treinavam
em Los Angeles, o basquete feminino tinha amistoso em Honolulu,
o futebol feminino jogava em San Francisco, os cavaleiros Rodrigo
Pessoa e Luiz Felipe Azevedo treinam em Frankfurt, uma parte da
natação mora na Flórida, o tênis de mesa
estava em Pequim, e assim por diante. Guga, sozinho, precisou de
várias reservas que dependiam de seu desempenho no US Open.
Por sorte, o COB extinguiu a prática do vôo fretado,
quando toda a delegação brasileira era socada dentro
de um mesmo vôo, independentemente dos dias de competição
de cada esporte. Com isso, atletas ociosos (por já ter competido
vários dias antes) ou excessivamente ansiosos (por ainda
estar longe do dia de competir) formavam tribos distintas. "Atleta
ocioso dentro da Vila se torna uma pessoa perniciosa", explica José
Roberto Perillier, o Peri, superintendente técnico do COB
e cabeça de toda a operação logística.
Hoje, nenhum atleta brasileiro permanece na Vila Olímpica
mais de 48 horas após competir. Em alguns casos, como o da
judoca Vânia Ishii, sua passagem por Sydney será quase
uma miragem: ela só deixará sua base de treinamento
em Camberra na véspera de competir e volta para o Brasil
no dia seguinte.
O transporte dos cavalos das equipes de hipismo, como sempre, deu
trabalho. A Austrália tem leis sanitárias rigorosíssimas
em relação à entrada de animais no país,
e não aceitava cavalos vindos diretamente do Brasil. Por
isso, eles seguiram primeiro de avião até Frankfurt
e Londres, para uma quarentena de sessenta dias, antes de ser levados
para Sydney. Viajaram em vôos específicos para cargas
vivas, com cocheiras armadas dentro de contêineres. À
disposição de cada animal, muita água, alimento,
medicação e ar condicionado, além de um cavalariço
individual. Também é obrigatória a presença
de um veterinário para cada grupo de cinco cavalos. Despachar
os cavalos de salto com dois meses e meio de antecedência
é menos problemático, porque os cavaleiros dessa modalidade
são todos profissionais e têm casa na Europa. Mas,
para a equipe do concurso completo, composta de cavaleiros de recursos
financeiros bem mais modestos, a logística ficou mais pesada.
"A opção de mandar somente os cavalos não existe",
explica o chefe de missão Marcus Vinicius Freire, "porque
a equipe chegaria em Sydney só para apanhar, depois de ficar
sem treinar tanto tempo." Assim, durante mais de sessenta dias,
o COB teve de pagar diárias, hotel e seguro na Europa para
todos os cavaleiros do conjunto completo de equitação.
Antonio Milena

OLIMPIADAS
DE INVERNO: Em Camberra, a equipe de revezamento
4 x 100 (Claudinei Quirino, André Domingos, Vicente Lenílson
e Edson Ribeiro) treina apesar do frio que aumenta os riscos
de contusão |
Também por exigência das autoridades australianas,
que proíbem os carregadores do aeroporto de transportar volumes
de mais de 32 quilos, a tradicional mala única de cada integrante
da delegação teve de ser dividida em duas. A complexidade
da operação enxoval olímpico, aliás,
não é pequena. "A única roupa que o atleta
precisa levar para uma olimpíada é cueca e calcinha.
Tudo o mais é oferecido pelo COB", explica Tiago Pinto, o
encarregado pela patrocinadora oficial Olympikus de montar a logística.
Já no ano passado, à medida que atletas e equipes
iam se classificando para Sydney, o COB repassava os dados à
empresa. Em julho, começou a separação do material
na Central de Recebimento em Porto Alegre. Um programa de computador
classificava o material de acordo com modalidade, tamanho, sexo
do atleta e tipo de roupa (para competição, treino,
viagem, passeio ou premiação). Ao final, cada atleta
recebeu duas sacolas e uma mochila, contendo perto de 100 itens.
Somando-se o material de reposição que está
armazenado em Sydney e Camberra, o enxoval total da delegação
comporta mais de 50.000 peças. Por instrução
de última hora do COB, a Olympikus ainda adicionou alguns
itens extra de inverno, para a eventualidade de fazer frio na longa
noite da festa de abertura. Na prática, porém, gorros,
cachecóis, luvas, ceroulas e moletons estão sendo
usados diariamente, dado o capricho do tempo.
Alguns atletas já pegaram resfriado, outros se encolhem de
frio, mas quem vem recebendo cuidados maiores é Claudinei
Quirino da Silva, a estrela maior do atletismo brasileiro. Um dos
melhores corredores do mundo nos 200 metros, Claudinei está
com olheiras e mais quieto que o habitual. A depressão pela
qual passou no final do ano passado ainda o ronda. Na época,
a idéia de suicídio chegou a acompanhá-lo.
"Por três vezes, parei meu carro ao lado de uma ponte e pensei
seriamente em me jogar", contou Claudinei ao repórter Sergio
Ruiz, de VEJA. A fase mais aguda da depressão foi superada,
mas nestes dias que antecedem a abertura dos Jogos sua ansiedade
está em alta. "A força mental é responsável
por 80% dos resultados de um competidor de alto nível como
Claudinei", diz seu técnico, Jayme Netto Júnior. "Ele
está em excelente forma física, mas precisa ajustar
a cabeça para Sydney."
A batalha que Claudinei medalhável mais cotado do
atletismo brasileiro trava consigo mesmo é silenciosa
e surda. Já a que envolveu Guga, a estrela mais cintilante
e popular do cenário esportivo nacional, foi tempestuosa,
barulhenta e mobilizou gente graúda além de
deixar a torcida brasileira em pé de guerra. O conflito de
marcas que ameaçou tirar Guga das quadras olímpicas
começou em março passado, quando a Olympikus se tornou
a fornecedora oficial do COB. Como algumas confederações
tinham contratos ainda vigentes com outros patrocinadores, convocou-se
uma reunião. Os representantes do futebol e do atletismo
informaram de suas parcerias com a Nike e a Fila, e ficou decidido
que seus atletas poderiam competir com os uniformes dessas empresas,
mas deveriam vestir Olympikus na hora de subir ao pódio.
Na ocasião, os dirigentes da Confederação Brasileira
de Tênis entraram mudos e saíram calados do encontro.
Foi somente em julho, a menos de dois meses da abertura dos Jogos,
que o assunto reapareceu. Os executivos do consórcio Octagon/Koch-Tavares,
administradores da carreira de Guga, comunicaram a Nuzman que o
tenista não usaria a logomarca por ter contrato pessoal com
a Diadora italiana. "Disse que não poderia abrir exceções",
conta Nuzman a Mauricio Cardoso, de VEJA, e saiu da reunião
com a sensação de que o assunto estava encerrado.
Oscar Cabral

MARCUS
VINICIUS
FREIRE:
Esta é sua segunda ida às Olimpíadas. Na
de Los Angeles, em 1984, era o Marcão da equipe de vôlei
que levou a medalha de prata. Hoje é o chefe de missão
da delegação brasileira |
Não estava. Na queda-de-braço que explodiu na semana
passada, o atleta mais popular do país (e o que mais fatura,
com mais de 1,8 milhão de dólares em prêmios
só neste ano) venceu por aclamação. Liberado
pela Olympikus para negociar uma saída, Carlos Nuzman propôs
a fórmula final: Guga entra em quadra na segunda-feira 18
com um uniforme especial destituído de qualquer logomarca.
Se vier a ganhar alguma medalha, vestirá o agasalho oficial
confeccionado pela Olympikus. A megatonagem da disputa é
fácil de entender: no maior evento esportivo do mundo, retransmitido
para 3,5 bilhões de pessoas, apenas a marca do patrocinador
oficial de cada delegação pode ser mostrada. Sob essa
ótica, 1,5 milhão de dólares (2,7 milhões
de reais) do contrato da Olympikus com o COB, na forma de material
esportivo, valem ouro.
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Como
falar com um terrorista

Uma surpresa cor de laranja no meio
de avisos sobre competições
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Atlanta
1996 ronda Sydney 2000, a começar pelo risco de um
colossal colapso do transporte olímpico. Mas a assombração
maior de toda cidade-sede dos Jogos será sempre a segurança.
Sobretudo depois que uma bomba caseira explodiu em pleno Centennial
Park quatro anos atrás, marcando as Olimpíadas
de Atlanta como uma das mais bagunçadas dos últimos
tempos. Isso talvez explique o formulário cor de laranja
que na terça-feira passada apareceu em todos os escaninhos
do centro de imprensa de Sydney. São instruções
do que fazer se uma voz anônima telefonar ameaçando
explodir uma bomba. Recomenda-se manter o interlocutor falando
o máximo de tempo possível, fazendo todo tipo
de perguntas, e anotar as características de sua voz.
A começar pelo sotaque (australiano?, do Oriente Médio?,
asiático?, irlandês? etc.), o tom de voz (mulher
ou homem?, calmo?, obsceno?, irado? etc.) e o tipo de fala
(rápida/lenta?, arrastada?, distorcida?, gaguejante?
etc.). Favor não se esquecer de anotar o tipo de ruído
de fundo (rádio ou TV, trem, avião, trânsito,
obra etc.) e de assinar o formulário antes de passá-lo
por fax à polícia.
Algumas
das perguntas sugeridas:
A que horas a bomba deve explodir?
Onde você a colocou?
O que acionará a explosão?
Que tipo de bomba é?
De onde você está ligando?
Não foram divulgadas as perguntas reais feitas pela
polícia australiana aos agentes da equipe olímpica
de Israel, que tentavam entrar no país trazendo coletes
à prova de balas e coldres para revólver.
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