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As lições de Sydney
para sua saúde

Na Fórmula 1 são obtidas as inovações que
um dia estarão em carros na sua garagem.
De competições de alto nível, como os Jogos
Olímpicos, a medicina arranca segredos
do funcionamento do corpo humano

Maurício Cardoso e Sérgio Ruiz Luz, de Sydney

As pessoas empenhadas em perder peso, melhorar a postura, apurar a forma física, tonificar os músculos, azeitar as articulações ou aprimorar sua técnica em qualquer esporte têm uma razão a mais para acompanhar as Olimpíadas de Sydney, que serão abertas na próxima sexta-feira, 15. Durante duas semanas a elite do esporte mundial estará nas quadras, piscinas, campos e raias da Austrália em busca de glórias e medalhas. Esse pelotão de seres humanos com desempenho atlético muito acima da média estará também ajudando a medicina a desvendar segredos do funcionamento do corpo humano que só se revelam em condições excepcionais – sob o esforço físico e psicológico desumano a que os atletas de ponta aceitam submeter-se para chegar às alturas do Olimpo. Para ilustrar esta reportagem, VEJA obteve a exclusividade de publicação para o Brasil de um espetacular ensaio fotográfico feito com atletas da Austrália pela revista Black&White, daquele país. Seus corpos são a mostra mais exuberante dessa glória efêmera que tantos buscam e tão poucos conseguem atingir.

Uma analogia com a Fórmula 1 ajuda a entender o que se passa nas Olimpíadas do ponto de vista da medicina esportiva. Nas corridas de automóvel a indústria testa e aprimora a mecânica, a aerodinâmica e a eletrônica embarcada dos carros e, em seguida, repassa todos os avanços para os veículos que as pessoas comuns dirigem nas cidades do mundo inteiro. Os freios a disco, a ignição eletrônica, os cintos de segurança, os pneus radiais foram inventados e testados ao limite no automobilismo de competição antes de chegarem aos carros de passeio. O esporte olímpico é a Fórmula 1 da saúde. Conceitos que agora são recitados por todo personal trainer, como biotipo, massa muscular, freqüência cardíaca ideal, flexibilidade e dieta balanceada, nasceram no mundo dos atletas de alto desempenho.

Tratamentos avançados como a artroscopia, que permite operar com o uso de cânulas muito finas uma articulação do joelho de manhã e mandar o paciente para casa à tarde, foram criados em função dos atletas. Hoje, essa cirurgia é feita rotineiramente em diversas partes do mundo e também no Brasil, com uma vasta clientela de corredores de fim de semana. A artroscopia evoluiu mais rapidamente por pressão da comunidade esportiva. De uma solução ortopédica, esse tipo de cirurgia chamada mínima ou não invasiva conquistou outras especialidades médicas. Hoje ela é usada em operações ginecológicas, de apêndice, vesícula e, experimentalmente, até de coração. Os testes de esforço, a esteira ergométrica, os relógios e dispositivos portáteis que medem a freqüência cardíaca sob esforço surgiram nas pistas. Agora estão em todas as academias e são ferramentas convencionais de milhões de pessoas que as utilizam com a mesma naturalidade com que manejam garfo e faca nas refeições.

"O esporte de alto nível é o laboratório ideal para descobrir certos tipos de doença e desenvolver tratamentos eficientes para pessoas que nunca foram ou serão atletas", diz Justin Wernick, médico americano, diretor do Langer Biomechanics Group, uma clínica pioneira no ramo da biomecânica instalada nas cercanias de Nova York. A biomecânica, ciência que estuda os movimentos humanos, nasceu da necessidade de recuperar atletas com lesões profundas nas articulações. Atualmente tem os usos mais variados em situações distantes das pistas e quadras. Wernick, por exemplo, ficou famoso por desenvolver e patentear um dispositivo chamado Dressflex, que aumenta o conforto e a segurança das mulheres que se equilibram sobre sapatos de saltos muito altos.

O desenvolvimento da ciência do esporte iluminou também questões bem menos prosaicas. Foi graças ao estudo dos atletas que os pesquisadores passaram a colocar toda a ênfase dos programas de condicionamento físico no coração. "Antes havia exercícios destinados a desenvolver os pulmões ou alargar a cavidade torácica que eram absolutamente inúteis", diz Wernick. Um pulmão sadio sempre consegue fornecer mais oxigênio do que o organismo pode absorver. Hoje, os médicos sabem que a capacidade do corpo de oxigenar suas células depende muito mais da saúde do coração. Existe ainda uma vantagem adicional. A capacidade cardíaca pode ser aumentada e mantida com um mínimo de esforço. Os médicos sustentam que a maioria das pessoas conserva a boa saúde cardíaca andando rapidamente ou correndo pelo menos trinta minutos três vezes por semana. Com esse esforço mínimo elas têm uma probabilidade 60% menor de sofrer um infarto precoce (antes dos 50 anos) e ganham 70% de chances de sobreviver sem seqüelas graves ao ataque cardíaco.

A descoberta do aerobismo, nome que se dá a essa tendência, foi uma revolução nascida nas pistas. Nos anos 80, o fisiologista americano Jerome Dempsey, da Universidade de Wisconsin, lançou suas bases. Oxigenar bem as células passou a ser a preocupação primordial da preparação física e, conseqüentemente, da saúde do coração. Para isso era preciso medir com cuidado as freqüências cardíacas sob as mais diversas condições. Foi para registrar com precisão essas freqüências dentro de velocidades controladas que surgiram as esteiras de corrida das academias e, mais tarde, os sensores de freqüência cardíaca. O coração tornou-se então o alvo da preparação física. A exemplo do restante do organismo, o órgão se ressente da falta e também do excesso de exercício. Os preparadores físicos descobriram que o ritmo ideal do coração deve ficar dentro do que chamam de limiar aeróbico.

Descobriu-se fundamentalmente que para condicionar o coração não é preciso fazê-lo trabalhar a toda a carga. Com uma taxa de 70% a 85% de sua capacidade, o treinamento produz o máximo de resultado. Para medir isso, recorreu-se ao conceito de freqüência cardíaca máxima. Para calculá-la, faz-se uma conta simples: 220 menos a idade da pessoa. Os resultados obtidos revelaram que o exercício físico não é só benéfico como também está ao alcance de todos. "Antigamente a medicina esportiva estava voltada basicamente para tratar das lesões do atleta", diz o fisiologista Turibio Leite de Barros, da Universidade de São Paulo. "Hoje o paciente comum exige de seu médico particular conhecimentos sobre a prática de exercício físico, sobre a melhor maneira de perder peso ou sobre os hábitos que deve adquirir para prevenir doenças do coração." Essa tendência provocou mudanças de hábitos que vão da queda do tabagismo, passando pelo cuidado com a dieta, até o combate ao sedentarismo. O resultado claro de tudo isso é uma acentuada diminuição na incidência de doenças cardíacas entre homens e mulheres de até 50 anos.

A contribuição básica do americano Dempsey foi sugerir que os atletas, ao se submeter a esforços descomunais, acabavam fornecendo excelente material de estudo que pode ser aplicado em benefício de pessoas que nunca fizeram esporte tão seriamente quanto eles. Os efeitos exercidos sobre o coração e o pulmão por doenças, idade, tensão, vida em ambientes poluídos ou ar rarefeito podiam ser estudados com muito mais facilidade em atletas, descobriu Dempsey. "Um maratonista no final da competição, pelo desgaste que sofre, pode apresentar condições bioquímicas no sangue equivalentes às de um velho", explica Dempsey. Ou de um doente. Médicos de outras especialidades mediram no sangue desses corredores no instante de fadiga máxima a concentração de glóbulos brancos, responsáveis pelas defesas do organismo contra infecções. O resultado foi assustador. No final de uma maratona, o atleta tem menos células sanguíneas de defesa que um paciente de Aids. Ele leva até cinco dias para recuperar o nível normal de glóbulos brancos.

O nadador australiano Ian Thorpe, que seus conterrâneos esperam ver subir no pódio para buscar pelo menos duas medalhas de ouro, está servindo de laboratório para estudo de um dos maiores flagelos da humanidade, a dor. Aos 17 anos, Thorpe é candidato ao título de maior atleta das Olimpíadas do ano 2000. Ele é o atual recordista mundial dos 200 e 400 metros nado livre. Às vésperas das Olimpíadas, ele nadava uma média de 80 quilômetros por semana. Nos intervalos, submetia-se a sessões de musculação. Além de melhorar sua mobilidade, o objetivo de toda essa carga física era aumentar sua tolerância à dor. Seus músculos ficaram acostumados com o acréscimo da quantidade de ácido láctico. Como a fumaça que sai do escapamento de um carro, o ácido láctico é um subproduto da queima de oxigênio gerada pelo esforço físico. A substância produz no organismo a sensação de que a carne está queimando. Ao contrário de corredores e nadadores de longas distâncias, atletas de explosão como Thorpe têm de despejar toda a energia que possuem ao longo das poucas dezenas de segundos que duram as provas. Portanto, é crucial que aprendam a suportar a dor sem as atitudes de defesa que atrapalham o desempenho. O ácido láctico queima tanto que os nadadores tendem a encurtar a braçada para aliviar a dor, o que lhes custa frações de segundo fatais na chegada. Thorpe tem sido submetido nos treinos a cargas de musculação que o sujeitam a dores horrorosas. Tudo com o objetivo de enfrentar a competição sem ligar para a dor. "Estou preparado mentalmente para não sentir medo da dor", afirma. Sem se dar conta, Thorpe entrou num terreno extremamente promissor para a medicina. "O estudo dos anestésicos naturais que ajudam os atletas a prosseguir mesmo com uma contusão vai abrir uma nova fronteira na medicina", diz George McGlynn, fisiologista da Universidade de San Francisco, na Califórnia.

O terreno do desempenho atlético sem dor tem também seu lado perigoso. Sem dor não há alarme. Sem alarme, o organismo pode tentar ultrapassar seu limite e simplesmente quebrar – igualzinho à Ferrari do Rubens Barrichello. Saber o limite do desempenho mas não ultrapassá-lo é outra contribuição do esporte de alto nível que os freqüentadores de academia desfrutam. "Antigamente, os planos de ginástica eram indiferenciados. Aplicava-se o mesmo conjunto de exercício a velhos, moços, gordos ou magros", diz Edward Jackowski, Ph.D. em fisiologia e autor do livro Pare. Você Está Fazendo o Exercício Errado. Hoje em dia, além de treinadores pessoais, podem-se escolher exercícios não apenas para idades diferentes, mas para biotipos distintos. "Ao decidir quem vai para o halterofilismo ou para a ginástica olímpica, os treinadores esportivos foram os pioneiros na definição de biotipos. Hoje, essa noção é levada em conta por todos os profissionais de saúde", diz Jackowski. "Cada biotipo tem um limite. Ele não pode ser ultrapassado."

Em 1992, durante um torneio de atletismo realizado em Nova York, a torcida ficou chocada quando o americano Llewellyn Starks, um dos melhores competidores de salto triplo da época, ultrapassou seu limite. Ele aterrissou sobre o tanque de areia, contorcendo-se de dor. Foi uma cena chocante. A perna direita dobrou-se para trás e o osso rasgou a carne. Diagnóstico: fratura exposta da tíbia e do perônio. Depois de analisar o caso, os médicos descartaram qualquer hipótese de o jovem atleta ser portador de algum problema congênito de formação óssea. Ele sofreu um tipo de contusão que pode ocorrer entre pessoas muito ativas. Trata-se da fratura de stress, provocada pelo acúmulo de microlesões do tecido ósseo. Esse problema passou a ser estudado a fundo depois da observação de casos como o de Starks, permitindo que os médicos compreendessem melhor as condições nas quais se dão essas lesões ósseas.

Uma observação muito útil para a saúde da mulher brotou de um estudo de corredoras de longa distância feito pela Universidade da Califórnia. Os médicos descobriram que, paradoxalmente, o sedentarismo e o excesso de treinamento físico provocam o mesmo tipo de distúrbio da saúde. Tanto nas atletas que abusavam do exercício quanto nas mulheres sedentárias apareciam com mais freqüência desequilíbrios hormonais, os primeiros sinais de osteoporose (descalcificação óssea) e perda de apetite. O exercício físico estimula o depósito de cálcio no osso e, em tese, evita ou ameniza a osteoporose – mas tanto o exagero como a falta de atividade provocavam a inibição da produção de hormônio feminino. A partir dessa constatação, o exercício físico em dose adequada e a reposição hormonal passaram a fazer parte do tratamento da osteoporose.

É uma zona de sombra do esporte o uso de drogas banidas pelas confederações esportivas mundiais. Elas migraram da medicina comum para o esporte de forma clandestina e proibida, mas fizeram muito sucesso. Embora não declaradamente, pode-se afirmar sem medo de erro que muitos dos recordes que estão em vigor hoje não teriam sido possíveis sem o uso das drogas proibidas, principalmente os hormônios e os anabolizantes. Em alguns casos, as drogas que turbinam o desempenho dos atletas destruíram reputações duramente construídas, como no caso do ex-recordista mundial dos 100 metros, o canadense Ben Johnson, flagrado por um teste antidoping depois de vencer uma prova nas Olimpíadas de Seul, em 1988. As drogas para atletas causam danos irreparáveis à saúde, mas até mesmo elas, com seu lado sombrio, acabaram sendo testadas como nunca poderiam ter sido à luz da legalidade. "Os atletas que se drogam e seus treinadores desenvolveram maneiras absolutamente criativas de tomar os aditivos sem serem notados. Temos de tentar nos antecipar para flagrá-los", diz o médico brasileiro Eduardo De Rose, membro da comissão médica do Comitê Olímpico Internacional. Algumas dessas drogas fizeram o caminho de volta. Depois de banidas nas pistas, encontrou-se para elas aplicação de grande valia na medicina convencional. Osteoporose, doenças musculares e até Aids têm sido tratadas com bastante sucesso com o emprego dos anabolizantes. A eritropoetina, o famoso EPO que faz sucesso como um dos mais poderosos dopings em esportes de resistência, tem hoje larga aplicação no tratamento de anemia e leucemia.

Mais impacto do que essas aplicações restritas teve a fórmula da nutrição balanceada desenvolvida para atletas. Boa parte das pesquisas realizadas sobre o papel de vitaminas, proteínas e carboidratos na alimentação humana deve-se à medicina esportiva. Foi ela que descobriu, por exemplo, que os carboidratos têm papel fundamental na recuperação dos atletas entre os intervalos dos exercícios físicos. Descobriu-se também que, não utilizados para produzir energia, os carboidratos tendem a ser estocados e tornar obeso quem abusa deles. "Manter uma dieta balanceada parece uma idéia óbvia hoje, mas esse conceito só ficou claro com a observação constante do que ocorria com a nutrição dos atletas", afirma o médico Victor Matsudo. O consumo de suplementos alimentares é outra idéia surgida no esporte que foi adotada no dia-a-dia das pessoas. No princípio, a concentração de aminoácidos e outras substâncias na forma de pílulas era adotada apenas na dieta de atletas de alto nível. Agora, em qualquer farmácia se podem comprar cápsulas cujo objetivo é suprir necessidades de que a dieta cotidiana não dá conta. Tomadas com orientação médica, elas podem ser bastante úteis. Vistas pela ótica da contribuição que deram à saúde de pessoas que nunca pisaram numa quadra ou pista de atletismo, as Olimpíadas são um espetáculo ainda mais rico.

 

 Coração e pulmões

O coração, e não os pulmões, como se acreditava antigamente, é a peça-chave para se obter o máximo desempenho da máquina humana

Os pulmões sempre conseguem suprir mais oxigênio do que o organismo necessita. O que limita o rendimento físico é a capacidade de bombeamento de sangue do coração. É o sangue que leva o oxigênio que alimenta as células dos tecidos

Com o triunfo do aerobismo, criou-se o conceito de que ter saúde é ter um coração saudável

Como ocorre com a musculatura em geral, o coração também se fortalece com a atividade física

O conceito de limiar aeróbico, utilizado no esporte, ensinou que, para se conseguir o melhor condicionamento, o exercício físico deve ser feito com 70% a 85% da freqüência cardíaca máxima

 

 Cérebro

Os cientistas constataram que os corredores costumam apresentar um estado de euforia durante a prática de uma atividade física prolongada

Essa sensação de bem-estar é causada pela endorfina, uma substância neurotransmissora que atua sobre o cérebro e o sistema nervoso central. Em alguns casos extremos, a endorfina faz com que as pessoas fiquem viciadas em esporte

O aumento do nível de endorfina já foi relacionado também com casos de alcoolismo e de dependência a drogas como a cocaína

Os cientistas começam a investigar qual o real papel desempenhado pela endorfina no processo de dependência química

Eles já constataram que ela explica os efeitos benéficos da atividade física no tratamento de viciados em geral e também de pessoas com distúrbios como depressão e ansiedade

 

 Músculos

O músculo, o mais abundante e adaptável tecido do corpo humano, é o mais exigido na prática do esporte

Treinamentos com peso podem dobrar ou triplicar seu tamanho. A inatividade provoca a perda de até 20% de volume em duas semanas

A partir dos 25 anos, a pessoa tende a perder massa muscular. Aos 50, ela já perdeu 10% e, aos 80 anos, a metade

A atividade física é o melhor remédio para diminuir a perda de musculatura  

O alongamento, técnica desenvolvida originalmente para esportistas, ajuda a manter a flexibilidade dos músculos, que tendem a enrijecer-se com o envelhecimento

Os anabolizantes, que apesar de proibidos continuam sendo usados por atletas que precisam aumentar a massa muscular, são empregados no tratamento de perda muscular

 

 Ossos

Os ossos também são muito exigidos na prática do esporte

A observação de atletas ensinou que o exercício estimula a absorção de cálcio, reforçando os ossos

O exercício é uma boa maneira de prevenir a osteoporose, o enfraquecimento dos ossos que ocorre com o envelhecimento, principalmente entre as mulheres  

Os cientistas já constataram que existe uma relação entre osteoporose, distúrbios hormonais e perda de apetite. Os sintomas aparecem tanto em corredoras de longa distância como em mulheres na menopausa

O exagero é tão prejudicial quanto a falta de atividade física. Pessoas nos dois extremos apresentam uma densidade óssea mais baixa do que o normal

O excesso de exercício pode provocar a fratura de stress. O impacto repetido do exercício causa pequenas fissuras no osso

 
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  Especial "Guia Olimpíadas"

 

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