O barato legal
O
chá de ayahuasca é uma droga
como qualquer outra. Mas o governo
faz vista grossa
Ricardo
Galhardo
Fotos Claudio Rossi
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| Cerimônia
da seita União do Vegetal: quando a religião faz
mal à saúde |
Existe
uma droga legal no país: a ayahuasca, um alucinógeno
produzido pela mistura de duas plantas da Amazônia. Servida
em forma de chá, ela embala há pelo menos três
décadas as "experiências espirituais" dos seguidores
das seitas Santo Daime e União do Vegetal. A beberagem é
consumida regularmente por cerca de 15.000
pessoas, entre as quais figuraram artistas como o cantor Ney Matogrosso,
o compositor Peninha e as atrizes Lucélia Santos e Maitê
Proença. Essa gente diz que a ayahuasca, amarga como o diabo,
permite que se tenha contato com uma dimensão divina e lorotas
do gênero. Seria uma bizarrice sem importância não
fosse um indicativo de como as coisas funcionam no Brasil.
Há
sinais inequívocos de que a droga começa a ser consumida
fora dos rituais do Santo Daime e da União do Vegetal. Em
Rio Branco, capital do Acre, qualquer taxista sabe onde consegui-la.
A reportagem de VEJA constatou: 1 litro do chá sai por 50
reais. É pedir e meia hora depois o produto está nas
mãos do cliente. A ayahuasca também é exportada
para São Paulo sob o nome vago de "chá medicinal".
Informada sobre esses fatos, a Secretaria Nacional Antidrogas encomendou
à Universidade Federal de São Paulo um estudo mais
detalhado a respeito dos perigos da ayahuasca. Embora ainda não
esteja pronto, o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, responsável
pela pesquisa, adianta que a bebida de coloração ocre
e cheiro nauseabundo tem efeitos semelhantes aos do ácido
lisérgico. Pode deflagrar surtos psicóticos e, se
combinada com outras substâncias, é capaz de provocar
morte súbita. Entra aqui o dado curioso. Independentemente
dos resultados do estudo encomendado pelo seu pessoal, o general
Alberto Cardoso, ministro-chefe do Gabinete de Segurança
Institucional e secretário nacional antidrogas, afirma: "Não
proibiremos o uso do chá nos rituais. Religião é
religião".

O
cipó mariri e a folha chacrona: a substância produzida
pela mistura das duas plantas é alucinógena.
Também
está sendo consumida fora dos rituais |
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Dessa
frase é possível tirar duas conclusões: a)
o governo tem o hábito de solicitar pesquisas para depois
jogá-las no lixo; b) se um brasileiro fundar uma religião
que utilize em seu ritual maconha, cocaína, ecstasy, LSD
ou crack, terá a aprovação do secretário
nacional antidrogas. Afinal de contas, "religião é
religião". Mas há uma razão subterrânea
para a estranha tolerância em relação à
ayahuasca. Trata-se de uma substância "ecologicamente correta",
já que nasceu no habitat dos tais "povos da floresta". E
o lobby ecoxiita em favor do chá amazônico é
barulhento. Em abril passado, dois brasileiros que se diziam representantes
do Santo Daime foram presos no aeroporto de Madri com 10 litros
do chá. Acusação: tráfico de droga.
Depois de 53 dias em cana, a polícia os soltou. Os espanhóis
não suportaram a chiadeira. Mobilizaram-se pela libertação
da dupla os senadores acreanos Marina Silva e Tião Viana,
o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil,
dom Jayme Chemello, o frade dominicano frei Betto e o ex-frei Leonardo
Boff. Dai-me, dai-nos, paciência.
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