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Os brasileiros que
decifram o
câncer

Brasil dá um salto científico com pesquisa
sobre as origens
genéticas dos tumores

Bia Barbosa

 
Fotos Ricardo Benichio
Os artífices do genoma do câncer: Ricardo Brentani, presidente do Instituto Ludwig; Andrew Simpson, coordenador-geral; e Luiz Fernando Reis, Anamaria Camargo e Emmanuel Dias, coordenadores de áreas

Pense em um laboratório de genética de primeira linha, no qual se desenvolvem as pesquisas mais avançadas do mundo para a cura do câncer. Se a imagem que lhe vem à cabeça é daquelas vastas salas brancas repletas de computadores e inundadas de luz em algum país do Primeiro Mundo, esqueça. Uma das mais arrojadas e criativas pesquisas de genética do mundo está sendo conduzida em laboratórios relativamente acanhados, instalados em hospitais e universidades brasileiros. Nesses ambientes trabalham os 150 pesquisadores empenhados em identificar os genes responsáveis pelo surgimento de tumores cancerígenos – a mais audaciosa iniciativa científica já empreendida no país. É o Projeto Genoma Humano do Câncer, financiado pelo Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, com sede na Suíça, e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Os resultados em pouco mais de um ano são espetaculares. A meta inicial de seqüenciar 500.000 trechos de DNA até 2001 já foi ultrapassada em 125.000 novas seqüências e deve chegar a 1 milhão até o fim deste ano. Trinta por cento de todas as seqüências são inéditas. Ou seja, foram identificadas pela primeira vez no Brasil. Nesse tipo de pesquisa a produtividade brasileira só é menor que a dos Estados Unidos.

 
Pesquisadora com amostra de material genético: trinta laboratórios espalhados em São Paulo

O salto científico brasileiro num tipo de pesquisa só realizado em países ricos e desenvolvidos é resultado do sucesso de outra experiência recente: o seqüenciamento genético da bactéria Xylella fastidiosa, que ficou pronto em fevereiro. Esse microrganismo ataca os laranjais e causa prejuízo de 100 milhões de dólares anuais aos produtores brasileiros. Foi o primeiro genoma de uma praga seqüenciado no mundo. Mais que isso: pela primeira vez decifrou-se um código genético completo fora do eixo Estados Unidos–Europa–Japão. O projeto serviu para treinar cerca de 200 pesquisadores de 35 laboratórios e trouxe novos equipamentos para o país. Igualmente importante foi como se organizou a pesquisa. Em lugar de construir um centro faraônico, que consumiria recursos e tomaria tempo até ficar pronto, a pesquisa foi pulverizada entre muitas instituições. "Queríamos dar um salto de competência em genética que atingisse muita gente", explica José Fernando Perez, diretor científico da Fapesp. "Daí a idéia de montar uma rede em várias universidades."

O mesmo sistema foi utilizado no Projeto Genoma Humano do Câncer. O estudo envolve trinta laboratórios de universidades públicas e privadas do Estado de São Paulo. O custo de 20 milhões de dólares está sendo bancado, em partes iguais, pela Fapesp e pelo Instituto Ludwig. Desde os anos 60, a Fapesp recebe, por lei, 1% da arrecadação estadual paulista. Ao todo são 520 milhões de reais por ano para aplicar em pesquisas. Diferentemente do que ocorre com a maioria das instituições públicas brasileiras, tem feito isso com independência e pouca influência política. Isso dá grande vantagem aos pesquisadores paulistas, pois os demais Estados só podem contar com o escasso dinheiro federal. O Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer é o maior e o mais duradouro projeto do falecido Daniel Ludwig, o multimilionário americano que foi dono do megalomaníaco Projeto Jari, na divisa do Amapá com o Pará, nos anos 60.

O fato é que a produção científica cresceu em todo o país. O volume de trabalhos brasileiros publicados nas principais revistas científicas saltou nos últimos quinze anos de 0,4% para 1,2% do total mundial. Esse crescimento só foi menor que o da Coréia do Sul e mostra que não há razões para que países periféricos não tenham sucesso em pesquisas de ponta, desde que saibam como usar os recursos disponíveis.

O câncer é basicamente uma alteração no sistema de reprodução da célula. Uma mutação no DNA, o conjunto de instruções para o funcionamento do organismo que está no núcleo celular, afeta a divisão celular. Quatro gerações de células defeituosas são o suficiente para provocar um tumor cancerígeno. O objetivo da pesquisa é identificar até o final do próximo ano pelo menos 2.000 genes que possam ser responsáveis por essas mutações. "Será possível, então, descobrir um tumor maligno com base em alterações nos genes antes mesmo de ele aparecer", diz o bioquímico Luiz Fernando Reis, um dos cinco coordenadores do projeto. No futuro, as informações sobre os genes identificados na pesquisa serão dispostas lado a lado com as dos genes retirados do paciente numa pequena lâmina de vidro, o biochip. O computador então poderá comparar as duas amostras e fazer o diagnóstico. Do ponto de vista científico, o Projeto Genoma Humano do Câncer foi beneficiado por uma nova técnica de seqüenciamento dos fragmentos de DNA, desenvolvida pelo coordenador-geral do projeto, Andrew Simpson, e pelo biólogo Emmanuel Dias Neto. Consiste em analisar os fragmentos de DNA a partir do centro, e não das extremidades, como se faz no exterior. Como o centro é mais rico em informações genéticas, a busca fica mais fácil.

A pesquisa adotou como prioridade a identificação de genes ligados aos cânceres mais comuns na população brasileira, como de mama, cabeça, pescoço, estômago e intestino. Até 2001, os pesquisadores acreditam que terão identificado todos os genes relacionados ao câncer de mama, que só neste ano deve atingir 28.000 mulheres no Brasil. Com tudo isso, a pesquisa genética brasileira continua ganhando maior impulso. Os produtores de laranja, que ajudaram a financiar a pesquisa da Xylella fastidiosa, querem agora pagar a identificação de outra doença grave, o cancro cítrico. Os produtores de cana-de-açúcar estão financiando outro projeto, o seqüenciamento do genoma da planta. O Instituto Nacional do Câncer (NCI), ligado ao poderoso Instituto Nacional de Saúde (NIH), do governo dos Estados Unidos, propôs um acordo de parceria com a Fapesp-Ludwig, que deve ser assinado nas próximas semanas. "Ficamos impressionados com a visão dos pesquisadores brasileiros e sua determinação em liderar uma ciência de ponta", diz Robert Strausberg, coordenador do projeto de genoma do câncer no NCI.

 

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