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A amargura de De la Rúa

Suspeito de corromper senadores e com seu
vice flagrado com amante, o presidente
argentino perde prestígio

Raul Juste Lores, de Buenos Aires


AP
De la Rúa: ausente na hora da crise e brigas com o vice


Pela primeira vez em muitos anos, a política consegue dar mais dor de cabeça que a economia na Argentina. As finanças continuam mal como sempre – déficits fiscais e comerciais, consumo e PIB em queda, desemprego alto e carestia pela hora da morte. Mas só se fala na denúncia de que o governo do presidente Fernando de la Rúa pagou propina a senadores para aprovar a reforma trabalhista, em abril. Na semana passada, numa decisão sem precedentes na História do país, a Justiça pediu a suspensão da imunidade parlamentar de onze senadores e a quebra do sigilo bancário de 67. Só escaparam dois, exatamente aqueles que denunciaram os colegas. Os líderes das duas maiores bancadas tiveram de renunciar. Fiel a seu estilo "não tenho nada a ver com isso", De la Rúa embarcou no Tango Uno, o luxuoso Boeing 757 da Presidência que prometera vender assim que chegasse ao poder, e foi passar duas semanas no exterior.

Dois, três ou meia dúzia de senadores suspeitos de corrupção seriam motivo para crise política em qualquer país. Como os argentinos devem reagir tendo praticamente todo o Senado sob investigação? Uma pesquisa do Ibope constatou que 94,6% dos argentinos acreditam que aceitar suborno é rotina no Senado. Sete em cada dez acham que as investigações vão dar em nada. Por uma particularidade constitucional argentina, o vice-presidente da República, Carlos Chacho Alvarez, é também o presidente do Senado. A batata quente chegou duplicada a suas mãos. Com a viagem de De la Rúa, Chacho é também o presidente da República em exercício. Na semana passada, ele anunciou que assumiria pessoalmente o comando das investigações – providência que só fez aumentar a confusão. A imprensa portenha entendeu que, dando maior atenção ao escândalo, ele teria como objetivo ofuscar o burburinho sobre seu caso extraconjugal com a irmã do prefeito de Buenos Aires, a vereadora Vilma Ibarra. As implicações são tortuosas. Chacho é casado com a secretária de governo do prefeito, Liliana Chiernajowsky. Liliana e Vilma, que se odeiam há tempos, são do mesmo partido de Chacho, que por sua vez é o líder político e padrinho do prefeito Anibal Ibarra.


Reuters
Chacho Alvarez chega ao tribunal para depor sobre corrupção: intrigas atribuídas ao chefe da polícia secreta


Furioso com a divulgação de sua relação extraconjugal, o vice acusou Fernando de Santibañes, chefe do Side, o serviço secreto, de ser o responsável pela espionagem de sua vida amorosa. Isso tem tudo a ver com a corrupção no Senado, pois Santibañes é o suspeito número 1 de ter subornado os senadores. O Side é um órgão do governo que não precisa prestar contas de como gasta sua verba, que no ano passado foi de 300 milhões de dólares. Milionário, Santibañes é também um dos melhores amigos do presidente De la Rúa. Se ele briga com Chacho é porque a coligação de governo vai mal. A aliança entre De la Rúa, da conservadora União Cívica Radical, e Chacho, da Frepaso, uma frente de esquerda, foi formada para derrotar o presidente Carlos Menem, do partido peronista, há três anos. Coligação é novidade na Argentina, marcada por meio século de rivalidade entre peronistas e radicais. A reforma trabalhista foi a gota d'água num relacionamento difícil. O que De la Rúa fez foi adotar no país o mantra neoliberal da flexibilização das relações entre patrões e empregados – Chacho aceitou porque neste momento se está aceitando qualquer coisa que ajude a amenizar o desemprego no país. A denúncia de corrupção deu munição para os sindicatos e a esquerda reagirem. "A reforma trabalhista deveria ser revogada, já que há suspeitas de suborno", opina a deputada Alicia Castro, da Frepaso. "A coligação só não acaba porque os peronistas também não chegam a um acordo uns com os outros", diz o analista político Carlos Pagni, respeitado colunista do diário Ámbito Financiero.

Carlos Menem modernizou a economia argentina, mas a política ainda funciona à moda antiga. No ano que vem serão realizadas as primeiras eleições diretas para o Senado. Até agora, os senadores eram escolhidos pelas assembléias legislativas das províncias. Vários setores do governo manejam recursos secretos, uma bela oportunidade para os corruptos. Mesmo com maioria no Congresso, nos governos das províncias e o apoio das centrais sindicais, o presidente Carlos Menem não descansou até criar uma estrutura de poder que sobrevivesse a seu próprio governo. Ele assinou mais decretos-lei que todos os emitidos nos 100 anos anteriores. Mudou a composição da Corte Suprema, que tinha cinco juízes e passou a nove, e instalou um ex-sócio como presidente. Não satisfeito, usou fundos secretos do Ministério do Interior para recompensar governadores que apoiassem suas reformas. Custou 605 milhões de dólares em 1998 e 430 milhões em 1999.


Editorial Perfil
Cecília Bolocco, a namorada de Menem: candidato à Presidência nas eleições de 2003

De la Rúa chegou à Presidência com apenas duas bandeiras: austeridade e honestidade. Isso se tornou um problema, pois a bandalha que os argentinos toleravam em Menem é inadmissível em De la Rúa. Ninguém duvida de sua austeridade pessoal, mas seu filho Antonito, responsável pelo marketing político do governo, passou os últimos três meses viajando com a cantora colombiana Shakira. O dinheiro que está torrando nas estações de esqui de Bariloche e nas praias de Miami são um escândalo se comparado ao cinto apertado que a política econômica de seu pai impôs à maioria dos argentinos. O único com motivos para boas risadas é o infatigável Carlos Menem. Depois de paquerar uma infinidade de vedetes, aos 70 anos ele mantém, há quase um ano, namoro com uma mulher lindíssima, 33 anos mais jovem, a ex-miss Universo e apresentadora de TV chilena Cecília Bolocco, de 37 anos. "Estou fazendo muito pela integração da Argentina com o Chile", diverte-se Menem, quando perguntam sobre a namorada. Zulemita Menem, a filha que fez o papel de primeira-dama no governo do pai, está tendo chiliques de ódio contra Cecília. O amor não afastou Menem da política. Ele é candidatíssimo nas eleições presidenciais de 2003. Menos de um mês atrás, advertiu que a política de paridade entre o peso e o dólar já não se sustenta e sugeriu que o país adote de vez a moeda americana. A bolsa caiu, demonstrando que, para muitos investidores estrangeiros, ainda é Menem que dá as cartas.

 

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