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O elogio da incompetência


Ilustração Pepe Casals


Desde que mudei para a Itália, desisti de ir ao cinema. Não é só uma questão de salas apertadas e com cheiro de esgoto. Tem também o problema da dublagem. Para dar uma idéia, Robert De Niro, Al Pacino, Dustin Hoffman e Sylvester Stallone têm a voz do mesmo dublador, um velho chamado Amendola, que, nas horas vagas, também faz propaganda de detergente em pó. No começo, eu achava graça. Depois cansei. O único período do ano em que me reconcilio com o cinema é quando se realiza o Festival de Veneza. Mesmo que a maioria dos filmes seja ruim, sempre acontece algo de memorável comigo. No ano passado, por exemplo, virei chapa de Hector Babenco, que me apresentou a Lauren Bacall. Este ano foi ainda mais movimentado. Obrigado a enviar reportagens diárias do festival para uma TV on-line, tornei-me uma espécie de Marcello Mastroianni em La Dolce Vita, melancólico e entediado, sempre à caça de celebridades, acompanhado por um cinegrafista paparazzo.

Não que eu tenha tido muito sucesso nessa nova função. Passei horas e horas na minha lanchinha, em frente ao Hotel Cipriani, comendo sanduíches de salame, à espera de Clint Eastwood ou Sharon Stone, mas nenhum dos dois deu as caras. Tentei arrumar convites para as melhores festas, como a da MTV ou a de Claudia Schiffer, homenageada em Veneza com um documentário de dezesseis minutos, e nem sequer fui levado em consideração. Por puro acaso, o cinegrafista e o produtor do meu programinha conseguiram colher umas imagens tremidas e fora de foco de Takeshi Kitano. No dia seguinte, roubaram uma entrevista com Richard Gere. Onde eu estava? Fechado num cinema, vendo algum filme inútil. Essa experiência veneziana provou que sou ainda mais incompetente do que imaginava. Um dia, esqueci minha credencial em casa e não tive acesso às salas. Outro dia, errei o título do filme de Robert Altman. Em outro, dormi até mais tarde e perdi a chegada de Michelle Pfeiffer ao aeroporto. O meu único consolo foi a notícia de que a estátua de David, de Michelangelo, não tem 4,10 metros, como sempre se acreditou, mas 5,17. Não sou o único incompetente do universo. Aliás, o mesmo estudioso que descobriu esse erro de medida revelou que David, eternamente considerado o modelo de perfeição masculina, é vesgo. Se Michelangelo fez uma estátua vesga, por que não posso fazer uma bobagem atrás da outra?

Nesses dez dias de pauleira do Festival de Veneza, porém, consegui realizar meus mais recônditos sonhos jornalísticos: copiei artigos de jornais estrangeiros e publiquei-os anonimamente, abandonei filmes pela metade e depois fui me informar com amigos sobre seus finais, mudei de idéia duas ou três vezes a respeito do mesmo filme para me conformar às opiniões vigentes, entrevistei diretores sem ter visto seus trabalhos, ignorei completamente a cinematografia do Terceiro Mundo, roubei a fita de um colega francês porque nosso microfone falhou e perdemos uma entrevista importante, tapeei um colega italiano para pegar seu lugar na passarela em que Harrison Ford ia desfilar. Sou incompetente, mas estou orgulhosíssimo da minha performance.

 

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