Comunicação
é tudo
Marqueteiro de Clinton e
De
la Rúa diz que
as campanhas devem ser permanentes, até
para quem já está no poder
Raul
Juste Lores, de Buenos Aires
Aos
52 anos, Dick Morris conheceu o céu e o inferno. Marqueteiro
político, ele ajudou a levar Bill Clinton, com quem trabalhava
desde 1977, do governo de um Estado desimportante para a Presidência
dos Estados Unidos. Reconhecido como excelente estrategista, foi
considerado "o homem mais influente do país" pelas revistas
Newsweek e Time. Mas foi forçado a abandonar
a Casa Branca depois que se tornou público que permitia
a uma prostituta escutar suas conversas com o presidente. Nem
por isso ficou no desabrigo. Ganhou 2,5 milhões de dólares
por suas memórias, Behind the Oval Office, criou
um site na internet de pesquisas de opinião instantâneas
e é comentarista político da rede de TV Fox e do
jornal New York Post. No exterior, ele dirigiu as campanhas
vitoriosas de Fernando de la Rúa na Argentina, de Jorge
Batlle no Uruguai e de Vicente Fox no México. Nesta entrevista
a VEJA, Morris afirma que a primeira preocupação
de um presidente deve ser com a comunicação. "Fernando
Henrique é impopular porque não se comunica com
seus eleitores", diz.
Veja O senhor andou se metendo com sucesso em política
em diversos países. Isso indica que há uma receita
global para vencer eleições?
Morris Nos Estados Unidos, temos cinqüenta
Estados e eu digo que a política do Mississippi é
muito diferente da de Massachusetts. Estive aprendendo as enormes
diferenças entre tantos Estados e estou utilizando esse
conhecimento em outros países. Começo as campanhas
com muita antecedência. Na Argentina, dois anos antes, e
no México, três anos, para aprender sobre cada país,
suas tradições, sua política. Fui umas cinqüenta
vezes à Argentina e mais do que isso ao México.
Aprendi muito em pleno calor da campanha, mas também antes
dela.
Veja Na campanha para a reeleição de
Clinton o senhor deu ênfase aos valores familiares, aos
ataques à indústria do fumo e à violência.
Os eleitores não se interessam mais por ideologia?
Morris
Não, eles não ligam para isso. A maior diferença
entre republicanos e democratas é que os primeiros acordam
cedo e conversam comigo no café da manhã. Os democratas
são notívagos, marcam reuniões à tarde.
Muitos dos temas que você tem de lidar não podem
ser definidos como conservadores ou liberais. Qual a diferença
entre a maneira liberal e a maneira conservadora de combater as
drogas? Ou de limpar as ruas? Só há a maneira efetiva
e a maneira fracassada.
Veja As ideologias estão mortas?
Morris
As ideologias estão mortas. Vamos em direção
a um consenso global sobre como gerir as economias. Só
um punhado de países, meio loucos, como Mianmar, Iraque
ou Irã, estão fora. O mundo sabe que a educação
e a luta contra o crime são muito importantes, independentemente
da ideologia.
Veja Um político só deve tomar decisões
depois de ler as pesquisas?
Morris
O propósito de uma pesquisa não é dizer o
que um político deve apoiar, mas como vender aquilo que
ele já apóia. Quando o presidente Clinton decidiu
enviar 25.000 soldados para a Bósnia, eu lhe disse que
isso era impopular. Mas ele já tinha decidido, só
queria saber como torná-lo popular. Fiz uma pesquisa das
ações que os soldados deveriam fazer lá.
E uma lista do que não deveriam. Descobri o que as pessoas
não queriam e lhe disse: "Quando você for à
TV anunciar o envio de tropas, não fale apenas que as estará
enviando, mas o que elas farão por lá. Isso levará
as pessoas a apoiar a missão ao invés de se opor".
Veja O financiamento das campanhas é fonte
de corrupção e problemas. Como um político
pode conseguir dinheiro sem se comprometer no futuro?
Morris
O candidato deve evitar dinheiro de quem precisa de favores específicos,
como cargos, promessas ou comissão. Há dinheiro
mais do que suficiente entre aqueles que concordam com você,
detestam seu adversário ou apóiam seu partido. Também
dá para obter contribuições de pessoas que
só querem ter o ego acariciado com um lugar especial em
um jantar ou um telefonema do candidato. São inofensivas.
Veja A economia brasileira vive um momento de reativação,
com crescimento industrial e baixa inflação. Mas
a popularidade do presidente Fernando Henrique Cardoso é
baixíssima. Como o senhor explica isso?
Morris
Ele não tem contado aos eleitores o que está
fazendo. O governo tem de ser baseado em comunicação.
Comunicação é tudo. Ele deveria estar na
TV, com anúncios pagos, contando diretamente aos eleitores
o que está fazendo e por quê. Em um país como
o Brasil, em que muitas pessoas não podem comprar revistas
ou jornais, só a elite se mantém bem informada.
Veja Isso significa que um presidente deve estar
sempre em campanha?
Morris
Governar é estar em campanha permanente. Cada dia
é uma eleição. É preciso fazer campanhas
para persuadir o povo do que se está fazendo certo. Sem
uma forte aprovação popular, o mandatário
perde poder político. Particularmente no Brasil, pois o
partido do presidente não tem presença majoritária
no Parlamento. Se a maioria dos eleitores o apóia, você
consegue aprovações rápidas do Congresso
para o que quer ou para gerar confiança em sua política
econômica.
Veja O senhor quer dizer que o poder político
decorre do resultado das pesquisas?
Morris
Quando um presidente perde o apoio dos eleitores, e cai
para 20% ou 30% de aprovação, ele está, de
fato, fora do cargo, já não pode fazer o que realmente
quer. Um presidente precisa explicar seus planos de forma acessível
aos eleitores. Não significa apenas melhores discursos,
mas também anúncios pagos e todas as ferramentas
de uma campanha política.
Veja Clinton usou recursos de campanha eleitoral
para se manter no poder?
Morris
Em junho de 1995, dezoito meses antes das eleições
presidenciais, Clinton começou a colocar anúncios
na televisão só para ganhar o poder político
que precisava para governar. Nunca na história da política
americana alguém tinha feito propaganda dois anos antes
das eleições. Gradualmente, ele foi reconquistando
as pessoas. Os anúncios permitiram que ele voltasse a governar.
O povo não critica os gastos em publicidade, quando sente
que está sendo informado de como as coisas estão
indo, que lhe estão contando a verdade.
Veja Fernando Collor ficou conhecido nacionalmente
e ganhou as eleições em um período de apenas
oito meses.
Morris
Se seu adversário já fosse muito popular antes desses
oito meses, teria sido muito difícil sua vitória.
Um candidato como Collor acaba preenchendo um vácuo. E
o vácuo só existe para ser ocupado. Se alguém
ocupa um assento primeiro, você não pode sentar-se
nele.
Veja O que leva o senhor a aceitar um convite para
trabalhar para um candidato?
Morris
Quando estava começando a minha carreira, eu trabalhava
para qualquer um que me pagasse. Não tinha nenhum paladar.
Nos últimos anos fiquei mais seletivo. Recusei convites
de Imelda Marcos, Benjamin Netaniahu, do Partido Revolucionário
Institucional, do México, do atual presidente da Bolívia.
Não aceito trabalhar para candidatos de quem só
ouço falar mal. Isso nada tem a ver com ideologia. O caráter,
a inteligência do candidato me chamam mais a atenção
do que saber se ele é liberal ou conservador.
Veja Como lidar com o pessimismo gerado pelo crescimento
do desemprego em países como México, Argentina e
Brasil? Dá para convencer a população dos
benefícios da abertura da economia?
Morris
Nenhum candidato pode lutar contra a globalização.
Seria como lutar contra o clima. O Brasil tem um instrumento tremendamente
importante de barganha, que é a floresta tropical. Há
uma crença generalizada de que é preciso preservar
as florestas tropicais para salvar o clima do planeta. Os produtores
de cítricos da Flórida fecham o mercado americano
às laranjas do Brasil. O povo americano quer que os plantadores
da Flórida tenham seu dinheirinho, mas acha importante
ajudar os pobres no Brasil. Se o Brasil disser aos Estados Unidos
que, para proteger as matas, precisa de um mínimo sacrifício
americano para ajudar sua economia, comprando laranjas, a maioria
dos americanos diria aos fazendeiros da Flórida que se
danem. Um dos temas-chave para um candidato no Brasil é
como usar a Floresta Amazônica para obter vantagens econômicas.
Não sei se isso é algo conservador ou liberal, mas
é uma boa idéia.
Veja Faz diferença para o Brasil quem vai
ganhar as eleições nos Estados Unidos?
Morris
A direita americana é sempre a favor do comércio
livre; a esquerda, por causa dos sindicatos, é contra.
Mas a esquerda é profundamente comprometida com o meio
ambiente. Se o Brasil fizer um acordo de livre comércio
com os Estados Unidos, em um pacote que inclua a proteção
da floresta, ele dividirá a esquerda, os ambientalistas,
que são a força dominante, e deixará os sindicatos
de lado. É particularmente importante porque possivelmente
o próximo presidente dos Estados Unidos será Al
Gore. Sua maior preocupação é o meio ambiente.
Para ele, o Brasil é um dos mais importantes países
do mundo, por causa de seu impacto na temperatura mundial.
Veja O senhor derrotou o marqueteiro brasileiro Duda
Mendonça, que trabalhou para o candidato peronista Eduardo
Duhalde, na Argentina, no ano passado. O que achou do estilo de
Duda?
Morris
Ele tinha um candidato muito ruim, Eduardo Duhalde, e não
é uma boa idéia julgar o trabalho de uma pessoa
por apenas uma campanha. Ele pegou a direção da
campanha quando já estava tudo perdido. Não foi
um teste justo para suas habilidades.
Veja O senhor criou um site chamado Vote.com, que
convida o internauta a opinar sobre tudo. O senhor pretende substituir
os institutos de pesquisa tradicionais?
Morris
É como em um programa de TV ou a seção
de cartas de um jornal, nos quais as pessoas expressam suas opiniões,
tanto faz se representam ou não a opinião do país
inteiro. É como um karaokê político, você
canta o que quer. Estamos no ar há nove meses e já
temos cadastrados mais de 1 milhão de usuários nos
Estados Unidos. Até o final do ano, estaremos em dez países,
incluindo o Brasil. No futuro, minhas pesquisas serão feitas
pela internet, uma economia de milhares de dólares, sem
contas telefônicas nem pesquisadores.
Veja Que valores ou idéias estão em
alta na campanha pela Presidência americana?
Morris
Educação, meio ambiente e aposentadoria são
os três temas mais discutidos. Os Estados Unidos têm
uma grande parcela da população que nasceu logo
após a II Guerra, que estão com 50 e poucos anos,
e que começam a pensar na terceira idade. Tudo que tenha
a ver com aposentadoria se tornará mais significativo.
Veja Qualquer um que tiver um bom marqueteiro pode
ser um candidato vitorioso?
Morris
Se Fernando de la Rúa não tivesse uma reputação
bem estabelecida como honesto, não haveria nada para eu
criar. Vicente Fox é carismático, De la Rúa,
não. Num anúncio importante, De la Rúa admitia
que era chato. É como um casamento. É legal se ela
é bonita, mas não é o mais importante. A
personalidade de um candidato e suas conquistas se tornam carismáticas.
No início, as pessoas achavam que Bill Clinton falava muito,
que era uma matraca. Que ele era um pouco informal demais, que
não era elegante. Agora isso significa carisma, dizem que
ele é comunicativo, que tem empatia.
Veja O senhor encontrou muitas diferenças
entre Estados Unidos, México e Argentina na hora de pilotar
campanhas eleitorais?
Morris
Nos Estados Unidos, você tem de sintetizar a mensagem
em poucos segundos, "dêem-me os fatos". Na Argentina, o
povo quer mensagens mais longas, poéticas e líricas,
que contenham emoção e alma. No México, o
humor é mais importante. Lá, o PRI mandava presentes
aos eleitores, de cestas básicas a televisores. Então,
fizemos um comercial com humor que mostrava uma família
que era visitada em seu casebre por cabos eleitorais do PRI. A
mulher aceita uma cesta básica e outros presentes, dizendo
que iria votar no candidato deles. Ao fechar a porta, ela se dirige
ao seu quartinho, que está cheio de bandeiras e cartazes
de Fox e comenta com o marido, com sorriso maroto: "Por 75 anos,
eles nos ferraram. Agora é a nossa vez de ferrá-los".
No México, depois de presidentes cinzentos e burocráticos,
eles precisavam de um candidato forte, colorido, bem-humorado
como o Fox. Os Estados Unidos queriam um presidente mais jovem
e dinâmico, depois de um presidente muito mais velho como
George Bush.
Veja
O senhor assistiu ao filme Wag the Dog, que ironiza
seu trabalho e as operações militares de Clinton
como cortina de fumaça para o caso Lewinsky?
Morris
Fui convidado à pré-estréia. Eles
achavam que eu era o personagem do assessor vivido por Robert
De Niro. Não acho que Bill Clinton inventou uma guerra
para camuflar seus problemas. Talvez o timing de algumas de suas
operações militares estivesse ligado a melhorar
sua popularidade. Mas políticos fazem isso todo o tempo
para aparecer bem. Em 1972, Richard Nixon anunciou com antecedência
os entendimentos da Guerra do Vietnã que ainda não
tinham sido feitos, foi reeleito e apenas um mês e meio
depois é que houve acordos de paz. Políticos fazem
isso sempre.