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Gustavo Franco
Economista da PUC-RJ e ex-presidente
do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)

 

O menino e a dívida

"Incomoda-me a possibilidade de algumas escolas secundárias estarem impingindo as visões obtusas e amalucadas que aparecem no 'Veredicto' do 'Tribunal da Dívida Externa' no site do plebiscito da CNBB"

Ilustração Ale Setti


Uma das cartas (e-mail, na verdade) mais extraordinárias que esta coluna já recebeu veio nesta semana de um menino de 13 anos, de Goiânia, que está vivendo um drama: "Estou precisando de material para um trabalho de escola: dívida externa do Brasil, FMI etc. Este trabalho vale nota e, como está difícil encontrar, minha mãe indicou o senhor. Ela lê sua coluna toda semana e diz que o senhor é fera".

A despeito do fantástico elogio, a carta me deixou angustiado, pois não vou conseguir ajudar. Tenho dois filhos mais ou menos da mesma idade e que também têm professores que, às vezes, lhes dizem barbaridades sobre o governo, os bancos, a taxa de juros e a privatização. É raro conseguir algum material de boa qualidade para estudantes do curso secundário sobre temas de economia, especialmente os do noticiário.

Mas, de novo, lá fui eu vasculhar minha biblioteca, desta vez para ajudar Diogo, o menino de Goiânia, e novamente saí frustrado. Voltei a encontrar O Capital em quadrinhos e alguns volumes de uma coleção de livretos "O que é?", sobre imperialismo, mais-valia e coisas do gênero. Pura doutrinação. Exultei quando encontrei um ABC da Dívida Externa, escrito em 1989, por Celso Furtado, exatamente com o propósito de usar uma "linguagem simples" para explicar o problema. Mas depois de ler, e com todo o respeito ao mestre, devolvi o fino volume à estante. O problema do Brasil, conforme ali se explica, é a vultosa e absurda "transferência de recursos ao exterior", um conceito popular naquele tempo e que corresponde ao que hoje chamamos de superávit comercial. Curiosamente, em nossos dias, tem muita gente dizendo que o problema do Brasil é a falta de superávit comercial.

É claro que, no mundo dos economistas, tudo tem pelo menos duas explicações inconsistentes entre si e uma terceira, bem mais simples e errada. As querelas podem ser instigantes, mas o menino tem 13 anos. Pensei então em indicar um livro de época: nossa experiência com dívidas no exterior é muito rica. Jorge Caldeira bem que podia escrever sobre isso, mas sei que ele já está bem ocupado em revisar as 38 camadas de interpretações marxistas da história econômica do Brasil.

Algumas outras alternativas me ocorreram até que, diante de um estalo, parei o que estava fazendo: esse menino não tinha nada que estar trabalhando nesse assunto. Na faculdade de economia, o tema entra em pauta lá pelo quinto ou sexto semestre, quando os alunos já aprenderam contabilidade nacional e macroeconomia, já dirigem automóvel e estão estagiando em empresas que tomaram dinheiro emprestado no exterior. Alguns já têm empregos onde ganham mais que o professor.

É aceitável o argumento de que pré-adolescentes devam tomar algum contato com as grandes questões de nosso tempo. Mas a dívida externa está longe de pertencer a essa categoria. Podemos estar na presença de um erro de dosagem do professor, semelhante ao da própria Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que traz um tema complexo para o foro errado e acaba causando confusão e fornecendo alento ao oportunismo político dos velhos caloteiros de sempre. Ou não. Incomoda-me deveras a possibilidade de algumas escolas secundárias estarem impingindo a meninos de 13 anos as visões obtusas e amalucadas que aparecem, por exemplo, no "Veredicto" do "Tribunal da Dívida Externa" que o leitor poderá encontrar no site do plebiscito da CNBB. Eu me pergunto que espécie de material está sendo disponibilizado para o menino de Goiânia, e também que tipo de aprendizado sobre o ser humano a CNBB espera promover com o esforço de "conscientização" que parece acompanhar o plebiscito.

De toda maneira, fracassei em indicar material para o trabalho do menino, pois tudo que pude aconselhar foi o exercício do senso crítico, inclusive com relação ao professor, sem dúvida uma responsabilidade pesada demais para um menino dessa idade.

 

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