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Edição 2073

13 de agosto de 2008
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Roberto Pompeu de Toledo
Barba de Tolstoi,
alma de Dostoievski

"Soljenitsin foi um grande escritor que ajudou
a derrubar um regime. No exílio, passou de
dissidente russo a dissidente do tempo em que
vivia. Revelou-se um desamparado da história"

Saudade da União Soviética. Também conhecida por URSS (serviço poupa-Google para os jovens: a sigla quer dizer União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), quase tudo deu errado em sua atribulada existência (1917-1991), mas pelo menos um produto notável ela gerou: o dissidente soviético. Que vozes respeitáveis! Que impacto universal não provocavam! Entre todos, o mais notável foi o que morreu na semana passada, em Moscou, aos 89 anos: o escritor Alexander Soljenitsin.

O dissidente russo era, à sua época, a mais acabada encarnação do "grande homem". Ninguém mais fala em "grande homem". Antes se falava. Júlio César foi um grande homem. Napoleão foi um grande homem. Depois veio a consciência do custo que cobraram, em vidas, para atingir o estágio de grandes homens, e ficou incorreto continuar a referir-se a eles como tal. O epíteto sobrou para as pessoas dedicadas a causas de indiscutível justeza e dotadas de inatacável autoridade moral. A podridão do regime da URSS não oferecia margem a dúvidas. Os dissidentes eram intelectuais dispostos a sacrifícios pessoais, inclusive enfrentar a prisão e o exílio, em favor da causa. A combinação de causa justa com autoridade moral encaixava-os à perfeição no molde do grande homem. Foram os últimos. Depois deles não surgiram causa nem autoridade moral suficientes para produzir grandes homens.

Ora, direis, e os dissidentes chineses? Não são espécies da mesma têmpera. Falta-lhes o páthos que distinguia os dissidentes russos e, entre eles, sobretudo, Soljenitsin. Falta-lhes a barba de Soljenitsin. Soljenitsin irrompeu no cenário russo e mundial com a barba de Tolstoi e a alma revolta de Dostoievski. Eram armas que, num russo, equivalem a um escudo sagrado e a uma espada invicta. Com elas derrotou um câncer, quando tinha 35 anos, sobreviveu a oito anos de prisão, no Gulag (poupa-Google: sigla do órgão governamental que administrava os campos de concentração soviéticos), e contribuiu para a derrocada de um regime. Seu livro mais conhecido, Arquipélago Gulag, é um completo e impressionante compêndio da repressão na era soviética. A crueldade cínica do regime revela-se em histórias como a da moça que é cortejada por um agente do regime, apaixona-se por ele, aceita um convite para o Balé Bolshoi, assiste ao espetáculo em idílio com o acompanhante – para no fim do espetáculo ser conduzida por ele à Lubianka, a praça de Moscou onde ficava a polícia secreta. E no entanto…

No entanto, entre 1976 e 1994, período durante o qual, depois de expulso da URSS, viveu nos Estados Unidos, o mundo travaria conhecimento com um outro Soljenitsin. Enganava-se quem pensava que enfim ganharia o sossego que as perseguições na terra natal jamais lhe haviam permitido. Enganava-se mais ainda quem imaginava que a democracia ocidental lhe merecesse os louvores. Ao contrário, a barba de Tolstoi e a alma de Dostoievski agora se punham em guarda contra um novo inimigo. Num famoso discurso na Universidade Harvard, teceu seu diagnóstico do lado do mundo em que agora vivia. Atacou o consumismo. Chamou o processo democrático de "vitória da mediocridade". Investiu contra os filmes "cheios de pornografia, de violência e de horror" e contra a imprensa, dada a "adivinhações, rumores e suposições" que levam a julgamentos "apressados, imaturos e superficiais".

Seu ponto era a perda de espiritualidade num mundo movido a ambições materiais. A vida espiritual, para ele, estava sendo destruída tanto no Oeste quanto no Leste – no Leste "pelas maquinações do partido governante" e no Oeste pelos "interesses comerciais". Se algumas de suas conclusões podem fazer sentido, outras o projetam para algum lugar distante da história. Soljenitsin via o desenvolvimento humano numa trilha errada que, iniciada no Renascimento, ganhara velocidade no Iluminismo. Ou seja: perdemo-nos ao perder os valores da Idade Média. Alguns o viram como um dissidente também no Ocidente, mas na verdade ele ia além: era um dissidente do tempo em que vivia. Com isso, perdeu a audiência. Como pode alguém que prega contra os valores do seu tempo ser aclamado pelas pessoas do seu tempo? Não encarnava mais o grande homem. Este ficara lá atrás. Morrera junto com a União Soviética.



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