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Edição 2073

13 de agosto de 2008
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A grande caça aos atores

Por que escalar o elenco de uma novela virou uma
operação difícil – que põe os autores em pé de guerra


Marcelo Marthe

Divulgação
VIAGEM INDIANA
Juliana Paes: Glória Perez
a quis – e levou


O próximo folhetim das 8 da Globo, com título provisório de Caminho das Índias, tem estréia prevista para o começo do ano que vem – mas um drama já se desenrola nos bastidores. Ele gira em torno da escalação do elenco. Dia sim, dia não, a autora Glória Perez trata do assunto em seu blog. Em seus posts, ela rufou os tambores para anunciar que o veterano Tony Ramos embarcaria no projeto. Em seguida, comemorou a conquista de atores que hoje estão nas novelas das 6 e das 7. Também usou da internet para, digamos, tomar posse de Márcio Garcia (ou, dependendo do ponto de vista, desmentir que o artista, recém-contratado pela Globo depois de passar pela Record, lhe fora imposto como galã a contragosto): "Ninguém tasca, eu vi primeiro!". Sua maior batalha foi pela heroína. Um dos poucos nomes plausíveis, senão o único, para o papel de uma beldade indiana, a morena Juliana Paes já estava na novela das 8 atual. Mas isso não deteve Glória: ela convenceu a emissora a abortar a participação da atriz em A Favorita para fazê-la mergulhar em sua viagem hindu. E nem esperou sua saída se concretizar para noticiar no blog que Juliana está aprendendo a vestir sári e fez uma imersão no mundo do telemarketing (ela será uma telemarqueteira indiana). O noveleiro João Emanuel Carneiro cobrou pedágio para liberar o passe: em breve, a jornalista sonsinha representada por Juliana em A Favorita será assassinada de forma brutal. Mas o autor é solidário com Glória, pois já sentiu o drama na pele: em qualquer folhetim da Globo, escalar o elenco tornou-se tarefa complexa. "É um desespero", diz.

A Globo tem um elenco de 500 atores fixos. Destes, 150 formam uma reserva estratégica – são os rostos conhecidos de que a emissora não abre mão. O gargalo se estreita quando a questão é achar atores com carisma para segurar um papel central e fazer a diferença no ibope. Essa elite é composta de aproximadamente cinqüenta nomes – o que explica por que os noveleiros se angustiam tanto. A opção no horário das 8 se reduz ainda mais. Nos últimos dez anos, pouco mais de vinte atores responderam por 75% dos papéis de destaque nessas novelas (veja o quadro). Nenhum grupo é mais crítico do que o dos galãs na faixa dos 30 aos 40 anos. Atores desse nicho como Eduardo Moscovis e Rodrigo Santoro se afastaram das novelas para embarcar em aventuras no teatro ou no cinema. E os que sobraram são disputados. É o caso de um Marcello Antony, que desempenhou quatro papéis de peso em folhetins das 8 desde 1998. Ele não foi o protagonista propriamente dito de nenhum deles, enquanto o colega Murilo Benício acumula dois desses papéis. Mas Antony goza de uma unanimidade entre os noveleiros que Benício nunca conquistou.

Unanimidade, aliás, é algo raro entre os noveleiros. Silvio de Abreu e Glória Perez são olhados de viés por alguns de seus pares, pela maneira como "capturam" seus escolhidos. "A Glória tem essa característica: quando ela diz ‘eu quero’, ninguém se atreve a impedir", diz Aguinaldo Silva. Reclama-se também das panelinhas de determinados autores. Malu Mader, por exemplo, é da turma de Gilberto Braga, e ninguém tasca. Mas mesmo um autor tão disputado quanto Braga às vezes tem de engolir seus micos. Recentemente, ele reclamou em público da falta de química com a atriz Alessandra Negrini, que fez as gêmeas de Paraíso Tropical – o noveleiro queria Cláudia Abreu para os papéis, mas ela declinou do convite porque estava grávida.

O fato de um grupo pequeno de artistas monopolizar os holofotes não chega a surpreender – no cinema e na TV americanos, em vários períodos também se viveu sob a égide do "sistema de estrelas". Mas, no caso das novelas da Globo, as dificuldades se avolumaram nos últimos anos. Hoje se produz mais dramaturgia na emissora e as novelas ficaram mais longas e apinhadas de personagens. Para compor seu time atual de 160 atores, a Record tirou muita gente da Globo nos últimos anos e limitou ainda mais as opções. A rede tem de lidar com os humores das estrelas. Muitas se recusam a fazer novelas porque preferem uma vaga numa sitcom ou minissérie, nas quais se trabalha menos. Há ainda outros contratempos. Na busca de uma protagonista para a novela das 7, Beleza Pura, pensou-se primeiro em Cláudia Abreu e Carolina Dieckmann, mas ambas estavam em licença-maternidade. Giovanna Antonelli, a terceira opção, já estava no ar em Sete Pecados. Apostou-se então na emergente Regiane Alves – que, apesar de ser uma graça, não emplacou no papel.

É claro que a Globo nunca deixa de testar novos nomes. Mas, nas novelas de qualquer horário, isso tem de ser contrabalançado com a presença de um contingente de atores "de retorno garantido". "Um casal romântico bonitinho a gente sempre arranja. O problema são os personagens que mantêm uma novela de pé", diz Aguinaldo Silva. Ele mesmo recorreu à apagada Marjorie Estiano em Duas Caras, mas não dispensou uma dupla mais que testada e aprovada, Susana Vieira e Renata Sorrah. "Essas, sim, fazem falta", diz.

Ter o dom de "segurar a onda" de uma novela não equivale a um atestado de talento (embora em alguns casos as duas qualidades coincidam). Como lembra Silvio de Abreu, a história do cinema e da TV está repleta de atores ruins que foram excelentes protagonistas e atores de primeira que nunca chegaram lá. "Sempre foi e continuará sendo raro encontrar gente com carisma verdadeiro", diz. No estamento mais baixo da elite das novelas estão os artistas em quem a Globo já detectou uma centelha especial, mas que ainda precisam provar a que vieram. Grazi Massafera, a ex-Big Brother, terá sua chance como protagonista da próxima novela das 6, Negócio da China. Da mesma forma, Juliana Paes vai ter de mostrar serviço em Caminho das Índias. Nem que seja só para justificar o drama armado por Glória Perez.

 

AS CASTAS DAS NOVELAS

Globo conta com um elenco fixo de 500 atores, dos quais 150 formam o primeiro time de seus folhetins. Mas a lista daqueles que têm carisma para segurar um papel central e fazer a diferença nos índices de audiência é bem menor, de não mais que 50 nomes. Pode-se dividi-los da seguinte forma:

AS APOSTAS

São aqueles que já demonstraram ter carisma, mas ainda estão por provar que funcionam como protagonistas. Nesse nicho, a carência de nomes masculinos salta aos olhos.
Exemplos: Isis Valverde, Juliana Paes, Grazi Massafera, Priscila Fantin, Deborah Secco, Mariana Ximenes, Murilo Rosa.


Carlos Zambrotti/Ag. News
QUERIDINHA Carolina: heroína do primeiro time

OS EMERGENTES

Nessa categoria figuram atores mais jovens que ascenderam à elite do elenco da Globo nos últimos anos, depois de vencer a prova de fogo de seus primeiros papéis de destaque.
Exemplos: Carolina Dieckmann, Giovanna Antonelli, Reynaldo Gianecchini, Murilo Benício, Flávia Alessandra, Rodrigo Santoro, Lázaro Ramos, Wagner Moura, Thiago Lacerda.

 

Ciete Silverio/AE

ARTIGO RARO Antony: galãs estão em falta

A TROPA DE ELITE

Trata-se de artistas na faixa dos 30 aos 50 e poucos anos que são disputados a tapa pelos autores, por serem opções seguras para um tipo de papel crucial numa novela das 8: o dos protagonistas maduros.
Exemplos: Glória Pires, Edson Celulari, Christiane Torloni, Marcello Antony, Claudia Raia, Fábio Assunção, Patrícia Pillar, Cláudia Abreu, Marcos Palmeira, José Mayer, Ana Paula Arósio.


A PRATA DA CASA

São os veteranos cuja trajetória se confunde com a história das novelas. Seus rostos são familiares para o público e remetem de imediato às produções da Globo. Mesmo em papéis secundários, sempre atraem atenção.
Exemplos: Susana Vieira, Glória Menezes, Lima Duarte, Renata Sorrah, Tony Ramos, Tarcísio Meira, Antonio Fagundes, Regina Duarte, Marília Pêra.



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