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Ponto
de vista: Luiz
Felipe de Alencastro
O
lugar da violência
"Um
estudo recente demonstra
que a
criminalidade só cairá no Brasil se
a
desigualdade social
reduzir-se"
O sucesso
de livros tornados filmes, como Cidade de Deus (Paulo Lins/Fernando
Meirelles) e Carandiru (Drauzio Varella/Hector Babenco),
instalou a violência urbana do Rio de Janeiro e de São
Paulo como parte essencial da realidade brasileira. Algo similar
sucedeu na primeira metade do século passado, quando o romance
regionalista cristalizou a violência rural do país.
Agora, as quizílias entre o governo fluminense e o paulista
a respeito da criminalidade em seus Estados e as divergências
sobre a cidade onde seria filmada a cena em que a personagem Fernanda
(Vanessa Gerbelli), da novela Mulheres Apaixonadas, é
morta por uma bala perdida atraíram a atenção
da mídia internacional.
Um
estudo recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
(Ipea), subordinado ao Ministério do Planejamento, com base
em dados de 1999, com projeções até 2006, coloca
o desafio que a criminalidade apresenta ao conjunto da sociedade
brasileira.
Ilustração Ale Setti
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Embora
se refira aos Estados do Rio e de São Paulo, onde se concentra
cerca de metade dos assassinatos perpetrados no país nas
décadas de 1980 e 1990, o estudo elaborado pelos pesquisadores
Daniel Cerqueira e Waldir Lobão, autores de outras análises
sobre a matéria, demonstra que a criminalidade só
cairá se a desigualdade social reduzir-se no Brasil. Nem
o aumento de investimentos nas forças de segurança
pública nem o crescimento econômico diminuiriam o número
de crimes. Ao contrário do que tem sido dito de boa-fé
por muita gente, por si só, o crescimento da economia não
reduz a criminalidade. Na hipótese de registrar-se um aumento
anual de 4% na renda per capita paulista, o que não é
pouca coisa, o Estado de São Paulo terá em 2006 32%
de assassinatos a mais que em 2001, caso não haja redução
da desigualdade social. Em certa medida, as conclusões do
estudo restringem as alternativas e desembocam num impasse: como
acelerar a distribuição de renda num contexto de crescimento
econômico lento ou nulo?
Não
sei se o país terá tido outra crise social desse tamanho.
Nas etapas finais, até mesmo a abolição da
escravidão foi menos complicada que os problemas atuais.
Como
é sabido, depois de decidir, sob a pressão e os tiros
da Marinha de guerra britânica, a cessação do
tráfico negreiro clandestino (1850), o governo imperial retardou
quanto pôde o projeto de abolir a escravidão. Durante
esse período, caracterizado por Joaquim Nabuco como o longo
"sono moral" do Império, ocorreram manobras protelatórias
ilustradas no programa enunciado pelo conselheiro Dantas, chefe
do governo imperial em 1884, a respeito da abolição
da escravatura: "Neste assunto, nem retroceder, nem parar, nem precipitar!".
No
entanto, àquela altura, o problema da escravidão se
tornara mais fácil de ser solucionado. Efetivamente, a partir
do momento em que os abolicionistas mais radicais, como André
Rebouças e Joaquim Nabuco, favoráveis a uma reforma
agrária, foram isolados, ficou patente que o latifúndio
iria sobreviver ao escravismo. Nas fazendas de café, os imigrantes
pegavam na enxada no lugar dos escravos, enquanto os ex-escravos
se tornavam mão-de-obra "livre" nos engenhos. Nessa perspectiva
conservadora, a crise gerada pela escravidão podia ser resolvida,
em sua essência, por uma medida legal, por um único
voto do Parlamento que abolisse o sistema escravista. Mesmo assim,
o Império tardou a avançar. O resultado foi o que
se viu. Na hora em que o governo decidiu agir, já era tarde:
a abolição da escravatura levou de roldão o
parlamentarismo e o regime monárquico.
Hoje,
para resolver os problemas atuais, a complicação é
muito maior. Mesmo que quisesse, mesmo que estivesse disposto a
agir logo, apoiado por uma decidida maioria parlamentar, o governo
jamais conseguiria reduzir a criminalidade urbana com o voto de
uma só lei. Passou-se o tempo das leis áureas.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne
(abomey@uol.com.br)
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