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Especial
O
Brasil das oportunidades

Monica
Weinberg
Álbum de família
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Marcelo Zocchio
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O
MINISTRO ERA CONTÍNUO
Em
1947, Mailson da Nóbrega aparece com a família
na alfaiataria do pai, montada na sala da casa onde morava,
em Cruz do Espírito Santo, na Paraíba. Abaixo,
o registro da visita recente do ex-ministro aos pais e aos
nove irmãos. Ele foi o único do clã que
conseguiu o diploma universitário.
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Maíto
nasceu em Cruz do Espírito Santo, cidade que compõe
o cinturão pobre de João Pessoa, na Paraíba,
em 1942. Seu pai, Wilson da Nóbrega, hoje com 82 anos e aposentado,
trabalhava como alfaiate na sala da casa da família, que
tinha dois quartos. Num deles dormia o casal, e no outro dez crianças
dividiam quatro camas. Embora Maíto reforçasse o orçamento
doméstico vendendo amendoim, o pai decidiu abrir mão
da receita extra e mandar o garoto concluir os estudos na capital.
"Diziam para mim: 'Você é louco. Para que deixá-lo
estudar? Põe ele para trabalhar na mercearia'", recorda-se
Wilson, o alfaiate, pai de Maíto, apelido do economista Mailson
da Nóbrega, 61 anos, ex-ministro da Fazenda no governo de
José Sarney. Em João Pessoa, onde estudou e trabalhou
como contínuo, Mailson disputou o concurso do Banco do Brasil,
passou e foi parar numa agência do interior do Estado. Tempos
depois acabou sendo transferido para Brasília, onde se formou
em economia aos 32 anos. Começava assim uma das carreiras
mais bem-sucedidas da burocracia nacional, hoje referência
obrigatória sobre os rumos da economia brasileira. Por qualquer
critério que se observe a trajetória do ex-ministro,
ele deixou para
trás uma vida de privações e passou a pertencer
à elite. É interessante notar que tal percurso profissional
fez dele um vencedor, mas não o tornou uma exceção
pelo menos não no Brasil, que o tempo transformou
num dos países campeões de mobilidade social.
Três de cada quatro brasileiros são miseráveis,
pobres ou emergentes, uma denominação técnica
para definir o grupamento imediatamente abaixo da classe média.
(Nada a ver, portanto, com os chamados "emergentes" das colunas
sociais.) E apenas um pertence à classe média ou à
classe alta. No caso do ex-ministro, seus nove irmãos continuam
na Paraíba e se dividem entre emergentes e integrantes da
classe média. Há uma vendedora de cosméticos,
um taxista, uma costureira e uma cabeleireira. A pirâmide
social brasileira é larga demais embaixo e mais fina do que
deveria em cima. Como esse panorama se arrasta há muito tempo,
o Brasil autoriza leituras pessimistas a respeito do futuro das
camadas mais modestas da sociedade e mesmo da possibilidade de ascensão
da classe média. As previsões se tornam mais ácidas
em fases de estagnação econômica como a atual.
Nessas circunstâncias, o nível de atividade econômica
cai, o volume de investimento nacional e estrangeiro desaba, a taxa
de desemprego aumenta e as chances de o Brasil voltar a crescer
parecem remotas. Este é o retrato do momento. Mas, quando
se observam os dados em perspectiva, ao longo dos anos, vê-se
que os brasileiros vêm conseguindo se movimentar na pirâmide
mesmo em época de crise. Essa movimentação
se dá em bloco, com a melhoria de todos os segmentos, ainda
que discreta, e também individualmente.
Marcelo Zocchio
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Álbum de família
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A
LANCHONETE VIROU UMA REDE DE 204 LOJAS
Na
década de 70 (foto à dir.), os irmãos
Saraiva trabalhavam com os
pais em uma pequena padaria. Hoje são donos da segunda
maior rede de fast food do Brasil, atrás apenas do
McDonald's. A mãe, Júlia, que aparece nas duas
fotos, vivia da agricultura em Portugal.
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O
austríaco Joseph Schumpeter, um dos pensadores que moldaram
a economia moderna, comparava a estrutura social de um país
a um hotel que oferece aos hóspedes suítes luxuosas,
apartamentos-padrão e quartos modestos. Quem passa em frente
ao hotel mas o vê lá do outro lado da rua conclui que
nada muda naquele edifício. Há os mais ricos, ocupantes
das suítes, e os mais pobres, habitantes da ala mais modesta.
Ano após ano permanece a distribuição desigual
dos quartos. Se alguém atravessar a rua, entrar no saguão
e se interessar pela história dos hóspedes, verá
que muitos deles trocaram o quarto pelo apartamento, este pela suíte,
e vice-versa. Assim são as sociedades, dizia Schumpeter.
O empresário gaúcho Lírio Parisotto é
um dos que, ao longo da vida, já ocuparam todos os quartos
do hotel, e atualmente mora na cobertura. Aos 49 anos, Parisotto
se tornou o maior fabricante brasileiro de fitas de videocassete,
virgens e gravadas, CDs, DVDs e disquetes, além de produzir
a matéria-prima para tudo isso numa fábrica de poliestireno
que montou em Manaus. Seu grupo, a Videolar, faturou 600 milhões
de reais no ano passado, e deve chegar a 1 bilhão até
2004. Há quarenta anos, Lírio vivia numa casa de madeira
em Nova Bassano, no interior do Rio Grande do Sul, por cujas frestas
entrava o vento gelado no inverno. Estudava em uma escola para onde
ia descalço com o objetivo de não gastar calçado.
Ele e os nove irmãos ajudavam os pais nas atividades da roça,
de onde tiravam o sustento produzindo vinho e criando suínos.
Lírio começou a reescrever sua história quando
se tornou sócio de uma pequena loja de instalação
de som em automóveis, há 22 anos.
A observação do "hotel Brasil" confirma a imagem de
Schumpeter. O sociólogo José Pastore, professor da
Universidade de São Paulo, estuda há trinta anos a
composição da sociedade brasileira. Num de seus trabalhos,
ele concentrou a atenção sobre um pedaço específico
da população, justamente aquele que ocupa as suítes
luxuosas. Trata-se da fatia dos 5% mais ricos. Entre eles estão
as pessoas com maior renda e o mais alto nível educacional,
a maioria com ensino superior completo. São empresários,
gerentes em empresas financeiras, engenheiros, médicos, advogados
e grandes proprietários rurais. Pastore descobriu que apenas
18% dos que formam o topo da sociedade segundo esse critério
pertencem a famílias cujos antepassados já compunham
a elite. Os outros 82% são recém-chegados. Algumas
das curiosidades a respeito dos forasteiros: 20% são filhos
de agricultores, na maioria analfabetos. E 16% nasceram num lar
sustentado por profissionais como serventes e pedreiros. No total,
mais da metade da elite é integrada por filhos de trabalhadores
manuais, como Mailson e Parisotto. "A mobilidade social brasileira
impressiona meus colegas sociólogos do mundo todo", comenta
José Pastore.
Claudia Martins
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Álbum de família
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QUEBROU
CINCO VEZES ATÉ FAZER SUCESSO
O
empresário Alexandre Accioly aos 10 anos, no Rio de
Janeiro (na foto em preto e branco), quando a família
era sustentada pela aposentadoria da avó. Accioly deslanchou
aos 29 anos, depois de cinco tentativas fracassadas. Hoje
possui um patrimônio estimado em 200 milhões
de reais.
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Em
muitos países se registram trajetórias como a do carioca
Alexandre Accioly, 41 anos, dono de um patrimônio estimado
em 200 milhões de reais. Mas a maneira fulminante como ele
encontrou seu caminho rumo ao topo da pirâmide guarda uma
relação próxima com o fenômeno tipicamente
brasileiro apontado por Pastore. Na adolescência, Accioly
morava com a mãe e duas irmãs num apartamento de quarto
e sala no Rio de Janeiro depois que o pai saiu de casa. A família
se sustentava com o dinheiro que a avó materna recebia como
aposentadoria. Aos 17 anos, Accioly abriu seu primeiro negócio,
uma agência de figurantes. Não deu certo. Montou uma
agência de publicidade. Quebrou. Quebraria mais três
vezes com um restaurante, um jornal de esportes e um jornal de classificados.
Em 1991, aos 29 anos, abriu uma empresa de telemarketing, a Quatro/A.
Em 1999, a Telefônica comprou a companhia por 140 milhões
de reais. Atualmente, Accioly tem participação em
onze empresas. É amigo de empresários, banqueiros,
políticos e colunáveis, e namorou celebridades como
Adriane Galisteu e Carolina Ferraz.
A maior parte dos brasileiros não dá saltos tão
largos em tão pouco tempo. Mas os dados mostram que um contingente
expressivo, muito mais numeroso do que as crises freqüentes
da economia permitiriam imaginar, vem progredindo em ramos e graus
variados. No maior trabalho já publicado sobre o assunto,
resultado de uma parceria de José Pastore com o também
sociólogo Nelson do Valle Silva, foram entrevistados 42.000
chefes de família, homens com idade entre 20 e 64 anos. Os
números pertencem à Pesquisa Nacional por Amostra
de Domicílios do IBGE e foram atualizados até 1996.
Muita coisa mudou nos últimos sete anos, principalmente o
quadro econômico, mas Pastore informa que, como se trata de
estatísticas que retratam movimentos de longo prazo, a tendência
captada na pesquisa original continua válida. Os indicadores
daquele estudo mostram que cinco de cada dez brasileiros vivem melhor
do que viviam seus pais. Outros quatro possuem padrão de
vida semelhante ao dos pais. Apenas um está pior. O trabalho
catalogou 259 profissões, divididas em seis grupos segundo
uma certa hierarquia. Ocupações manuais como lavrador
e pescador foram colocadas no pé da lista e lá no
topo estão as atividades liberais, como medicina e advocacia.
Numa comparação feita com dezenove países,
entre os quais Espanha, França, Estados Unidos, Itália,
Canadá e Japão, o Brasil foi apontado naquele ano
como o país de maior mobilidade social do mundo.
José
Pastore se interessou recentemente pelas transformações
sociais ocorridas na política após a vitória
de Lula. Ele colocou números naquilo que apenas se supunha:
95% dos ocupantes de cargos do primeiro escalão do governo
federal vêm de famílias cujos pais possuem educação
rudimentar, a maioria sem diploma de ensino fundamental, alguns
deles até analfabetos. Isso sem falar do próprio presidente
Lula e do vice, José Alencar, dois que vieram de baixo. A
cúpula petista é formada por brasileiros nascidos
em famílias de lavradores e pequenos comerciantes, atividades
de rendimento baixo e pouco horizonte profissional. Ingressaram
na elite por meio da atuação política. "A política
brasileira é a mais porosa do mundo", afirma o cientista
político Hélio Jaguaribe, que estuda o sistema de
outros países.
Álbum de família
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Marcelo Zocchio
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SALVA
PELA DOENÇA
A
chance de estudar surgiu só aos 17 anos, quando Marina
Silva deixou o seringal no interior do Acre para tratar de
uma doença em Rio Branco. À esquerda, em 1986,
ela marcha contra a derrubada de árvores. Em Brasília,
já como ministra do Meio Ambiente, posa ao lado do
pai, Pedro.
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Tome-se
o caso da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que tem 45 anos.
Ela e dez irmãos nasceram num seringal a 75 quilômetros
de Rio Branco, no Acre. Três deles não sobreviveram
aos primeiros anos de vida. Os sete restantes perderam a conta de
quantas vezes contraíram malária, doença típica
da região. Marina foi infectada cinco vezes. Além
disso, sofreu de hepatite e leishmaniose, doença que lhe
deixou uma marca permanente no nariz. Com a saúde debilitada,
Marina largou o seringal para se tratar em Rio Branco. Tinha 17
anos. Na cidade, aonde chegou analfabeta, trabalhou como empregada
doméstica e começou a estudar. Fez supletivo, ingressou
na faculdade de história e mais tarde se envolveu com política
sindical. Os irmãos de Marina continuam no Acre, e nenhum
deles concluiu o ensino fundamental. Marina tem quatro filhos, dois
deles já na universidade. "Sei que no seringal a oportunidade
que tive de estudar e crescer na vida é coisa rara", diz
a ministra.
Países não são mais ou menos móveis
socialmente porque assim decidiram seus governantes de forma arbitrária.
Foi a história de cada um e os avanços sociais e econômicos
que levaram a isso. De modo geral, nações "novas"
são socialmente mais mutáveis que as "antigas". Em
países como Estados Unidos, México e Canadá
pertencer a uma linhagem familiar com raízes na nobreza conta
pouco quase nada, em comparação a países
monárquicos, como a Inglaterra, ou repúblicas ainda
fortemente marcadas pelas dinastias hieráticas do passado,
como a França. Além da importância secundária
reservada à tradição familiar, certos hábitos
dos países novos promovem a mobilidade. Um deles é
a cultura do consumo. O americano médio compra mais que o
europeu médio, e se endivida mais. Aproveitando-se dos estímulos
de mercado, entre os quais os juros baixos, o consumidor americano
abre oportunidades a empreendedores, aquece a economia e alarga
as vias de ascensão social. Na Índia, a mobilidade
tende a zero. Apesar de alguma melhora recente, o país ainda
é engessado por sua milenar cultura de castas. O choque interno
entre etnias, religiões e idiomas diferentes cria ambiente
fértil a violência grupal e desconfianças. Tudo
isso desestimula o empreendedorismo.
Raul Junior
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Álbum de família
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O
EXECUTIVO QUE VENDIA FLORES
Aos
15 anos, o administrador de empresas Manoel Horácio
vestiu sua roupa de ir à missa e foi a um estúdio
fotográfico, com a mãe e os dois irmãos,
tirar o único retrato que tem da infância (foto
em preto e branco). Depois de vender flores e ser entregador
de armazém, entrou para a universidade e tornou-se
um dos mais bem-sucedidos executivos da atualidade. Hoje é
diretor da holding do Banco Fator.
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Na
Europa, a mobilidade pode ser definida como uma conta de soma zero.
Para que um indivíduo ascenda, outro precisa cair. Uma promoção
no trabalho quase sempre é decorrência de uma demissão
ou aposentadoria. Não se abrem postos de trabalho novos,
não se criam oportunidades de emprego. Observe-se a pirâmide
social da Suécia, símbolo do bem-estar europeu e uma
das nações mais igualitárias e invejadas do
planeta. Os suecos, que possuem renda per capita de 26.000 dólares
(dez vezes a renda brasileira), adaptaram-se a um patamar de vida
tão elevado que praticamente não têm estímulos
para enfrentar projetos muito desafiadores. Na Inglaterra, dependendo
do desempenho do aluno no ensino médio, ele já sabe
em que tipo de escola de ensino superior poderá estudar.
As instituições técnicas estão reservadas
aos alunos de pior desempenho, as faculdades absorvem os estudantes
medianos e um seleto grupo de universidades ultra-elitizadas, às
quais o acesso é dificílimo, recruta os melhores da
turma. Os estudos apontam para uma relação de causa
e efeito notável entre a renda familiar dos estudantes e
a escola superior em que ingressam. Os mais pobres são maioria
nas escolas técnicas, e os mais ricos ficam com as vagas
das universidades de elite. Uma explicação adicional
para a baixa mobilidade na Europa é também a principal
virtude do continente: a excelente distribuição de
renda existente na região. Se tudo está mais ou menos
dividido fraternalmente, como e para que melhorar de vida? Por ironia,
a mesma explicação vale para compreender a estabilidade
social de alguns dos países mais miseráveis do mundo,
como a Etiópia, a Tanzânia, o Camboja e o Nepal. A
miséria está em toda parte, muito "bem" distribuída.
Como contornar a situação? Como progredir?
Nos países africanos, as pessoas nascem lá embaixo
e não chegam lá em cima (até porque não
há "lá em cima"). Será que na África
Subsaariana o filho de um jardineiro com uma empregada doméstica
chegaria aos postos mais altos do mundo dos negócios? Provavelmente
não. E é essa a trajetória do administrador
de empresas Manoel Horácio Francisco da Silva, 58 anos, um
dos mais bem-sucedidos executivos da atualidade. Manoel Horácio
trabalhou na Ericsson, na Sharp, na Vale do Rio Doce e presidiu
a Telemar. Atualmente, dirige a holding do Banco Fator. Seu pai
nunca entrou numa sala de aula e se estabeleceu como jardineiro
em São Paulo. A mãe trabalhava como empregada doméstica.
Para ajudar no orçamento, Manoel vendia flores, foi contínuo
e entregador de armazém. A família morava numa casa
com quarto e sala. O único banheiro do imóvel era
também usado pelos vizinhos. Quando chegou à idade
de entrar na universidade, arranjou uma bolsa de estudos num cursinho
pré-vestibular, onde trabalhava na secretaria. Passou para
administração de empresas numa universidade particular.
Pagava as mensalidades com o salário de gerente de malharia.
"Estudar era uma questão de honra lá em casa. Não
podia decepcionar meus pais, pois eles deram o sangue para que melhorássemos
de vida", diz Manoel Horácio.
Claudio Rossi
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Álbum de família
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ELE
COMEÇOU NA ROÇA
À
esquerda, o empresário Lírio Parisotto, o maior
fabricante brasileiro de fitas de videocassete, DVD e CD.
Acima, Lírio aos 3 anos, durante procissão em
Nova Bassano, no Rio Grande do Sul, onde vivia na roça.
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Nos
países ricos, as pessoas chegam lá em cima, só
que, em geral, ninguém parte de um ponto tão baixo
como acontece muitas vezes no Brasil (até porque não
existe um ponto "tão baixo"). Bill Gates é filho de
um advogado e estudava em Harvard quando montou a Microsoft. Sua
família situava-se num ponto elevado da pirâmide. O
primeiro-ministro Silvio Berlusconi, a um só tempo a maior
força política e econômica da Itália,
foi outro que começou de cima. Seu pai, Luigi, era diretor
de banco. O Brasil conseguiu uma mistura estranha. Juntou o ponto
de partida próprio das nações mais pobres ao
ponto de chegada das nações mais ricas. No caso brasileiro,
há ingredientes adicionais para explicar a mobilidade social,
e um dos mais importantes foi o processo de urbanização.
Quando as pessoas trocaram o campo pela cidade, elas foram apresentadas
aos serviços públicos, tiveram acesso a saúde,
água limpa e esgoto tratado, além de um mundo de oportunidades
de trabalho próprias da industrialização: salário,
vale-transporte, auxílio-maternidade, plano de saúde,
tíquete-refeição. Num passo seguinte, a industrialização
dá lugar aos empregos na área de serviços,
ocupação de perfil menos manual, que exige um aprendizado
maior. A migração do campo para a cidade não
acabou. Um quinto dos brasileiros ainda se mantém no campo,
contra apenas 3% da força de trabalho americana.
Existem vários conceitos embutidos no termo "mobilidade social".
Um deles, aquele estudado por Pastore, não dá atenção
à melhoria coletiva dos indicadores nacionais. Analisa a
movimentação das pessoas pelas classes sociais. Estudos
assim se interessam por casos como o dos agricultores portugueses
Antônio Saraiva e Júlia, que se mudaram para o Brasil
na década de 50 trazendo no colo o filho Alberto, de apenas
6 meses. Trocaram uma vida modesta num povoado onde criavam ovelhas
e plantavam uva por uma vida modesta no interior do Paraná.
Semi-analfabeto, Saraiva só conseguiu trabalhar como vendedor.
Comercializava balas e doces de porta em porta. Em 1970, a família,
já ampliada com o nascimento de mais duas crianças,
mudou-se para São Paulo, onde Saraiva comprou uma padaria.
Alberto tinha 17 anos e um infortúnio o obrigou a assumir
o negócio. Seu pai foi assassinado durante um assalto. Estudando
no turno da manhã e tocando o negócio de pães
até tarde da noite, Alberto chegou a se formar em medicina,
mas não exerceu a profissão. Manteve-se à frente
da padaria, comprou meia dúzia de bares, uma pastelaria e
uma pizzaria. Em 1988, abriu uma lanchonete com dez mesinhas, onde
vendia três esfihas pelo preço de um cafezinho. O nome:
Habib's. Começava assim a segunda maior rede de fast food
do Brasil, só perdendo em faturamento para o McDonald's.
Alberto tem hoje 50 anos e a Habib's, quinze. São 204 lojas,
seis delas no México, com faturamento de 500 milhões
de reais por ano.
Há um segundo conceito, que se preocupa com os benefícios
coletivos que melhorem a qualidade de vida, tais como a educação
e a saúde. Recentemente, a ONU divulgou que o Brasil foi
o país onde as pessoas mais melhoraram de vida nos últimos
28 anos isso coletivamente. Os indicadores utilizados são
a taxa de analfabetismo, a taxa de matrícula no ensino fundamental,
a longevidade da população, o produto interno bruto
e a renda per capita dos países, números apropriados
para o monitoramento da chamada mobilidade coletiva. Não
há na lista um único indicador destinado a diferenciar
as pessoas, a medir a competição na sociedade, o sucesso
individual. Os dois estudos são importantes e têm objetivos
distintos. Pastore preocupa-se em apontar as chances de alguém
progredir contornando as limitações sociais impostas
pela renda familiar, pela escolaridade dos pais e pelas condições
macroeconômicas. A ONU quer saber se o conjunto dos habitantes
de um país está vivendo melhor, em condições
mais dignas.
Os estudos a respeito da mobilidade brasileira chamam a atenção
para uma característica nacional lamentável: a desigualdade
na partida. No Brasil, nem todos competem em pé de igualdade
por uma vaga na escola e no trabalho. Até alguns anos atrás,
homens e mulheres eram tratados de forma diferente, e eles levavam
vantagem quando disputavam uma oportunidade profissional com elas.
Após uma luta intensa, a distância diminuiu significativamente
e há estudiosos dizendo até mesmo que desapareceu.
A briga brasileira se inspirou na batalha das grandes lideranças
feministas mundiais e surtiu efeito. No caso da diferença
racial, que também vem sendo combatida a partir de exemplos
estrangeiros, os avanços parecem mais lentos. Um branco e
um negro com origem social idêntica não têm a
mesma oportunidade de progredir na vida. Negros e pardos, que representam
46% da sociedade, ocupam apenas 21% dos bancos universitários.
Um levantamento recente realizado no Rio de Janeiro e em São
Paulo mostra que, enquanto a pobreza atinge 30% dos brancos, ela
vitima 45% dos negros.
Um país justo não é aquele cujo governo garante
a todos um padrão de vida único, como prometiam os
utópicos de todos os matizes ideológicos. O destino
de cada um deve estar ligado às virtudes individuais, ao
preparo, ao talento e até mesmo à sorte. Compete às
autoridades zelar para que a disputa seja justa. Quando o governo
cria programas que estimulam os mais pobres a manter o filho em
sala de aula, está contribuindo para que as próximas
gerações tenham condições de brigar
por trabalhos mais dignos. As ações governamentais,
no entanto, apresentam um problema de origem. O dinheiro público
é bem utilizado no varejo, mas não no atacado. Num
artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, o economista
José Márcio Camargo mostra que o Brasil gasta um volume
admirável de despesas na área social, algo como 20%
do PIB. Só que os recursos são gastos de forma injusta.
As universidades públicas ficam com 1 de cada 6 reais destinados
pelo governo ao ensino. Camargo mostra que 93% dos estudantes das
universidades estatais pertencem à camada dos 40% mais ricos
da população, sendo que 73% deles formam entre os
20% mais ricos. É um dinheiro que sai do bolso de toda a
sociedade e acaba nas mãos da elite. "Apesar disso, a universidade
pública é gratuita. Ou seja, os pobres pagam pelo
menos parte dos custos dos estudos dos filhos dos ricos", conclui
Camargo. O Brasil promoveu o casamento entre uma virtude social
desejável, a mobilidade, e um defeito pavoroso, a iniqüidade.
O desafio é eliminar o defeito sem comprometer a virtude.
Sucesso
e ascensão
Soren
Mork
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Álbum de família
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A
MODELO JÁ ENTREGOU MARMITA
O
sonho da mãe de Fernanda Tavares era
ver
a filha na carreira de modelo. Na infância
(à
dir.), a família vivia com orçamento
apertado e a moça precisou vender marmitas
de porta em porta na cidade de Natal. É
hoje uma das mais bem-sucedidas modelos brasileiras
no exterior, só perdendo em faturamento
para Gisele Bündchen. Já
desfilou grifes estreladas como Versace e Dolce
& Gabbana.
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Fernanda
Tavares, essa moça linda que aparece na fotografia
grande acima, tornou-se uma das modelos mais bem pagas
no mundo. Natural de Natal, no Rio Grande do Norte,
chegou a entregar marmitas para reforçar o orçamento
familiar. Bonita, convencida de que "levava jeito para
a coisa" e estimulada pela mãe, bateu à
porta das principais agências em São Paulo
até conseguir uma chance. O mercado reconheceu
em Fernanda qualidades raras, entre as quais a habilidade
de encarnar tipos variados na passarela.
Marcelo Zocchio
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Álbum de família
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O
SALTO PELA MÚSICA
Os
pais dos irmãos sertanejos Zezé
Di Camargo e Luciano deixaram a roça para
tentar emplacar os filhos no mundo da música
de Goiânia. Na juventude, Zezé (na
foto à dir.) trabalhou de contínuo
e fez bicos como cantor na rádio local.
Atualmente, forma com o irmão a dupla sertaneja
de maior sucesso no Brasil, com 25 milhões
de discos vendidos. Hoje enviam mesada para os
pais, com quem aparecem na foto à esquerda.
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A
dupla sertaneja que mais vende discos no Brasil, Zezé
Di Camargo e Luciano, também é oriunda
de família humilde. Eram sitiantes em Goiás.
O pai, Francisco, achava que havia apenas duas maneiras
de livrar a família da pobreza: estimular que
alguém se tornasse jogador de futebol ou integrasse
uma dupla sertaneja. "Filho meu é bola ou viola",
dizia. Até fazer sucesso, Zezé e Luciano
trabalharam como contínuo e engraxate. Embora
Fernanda e a dupla Zezé Di Camargo e Luciano
tenham partido da parte baixa da pirâmide e atingido
o topo, ninguém está autorizado a fazer
confusões. A moda e a música, bem como
os esportes, proporcionam uma das formas mais conhecidas
de ascensão social, mas essa movimentação
nada tem a ver com o Brasil, propriamente.
Explica-se:
em todo o mundo há casos de mobilidade justamente
nessas áreas. A cantora canadense Celine Dion
era pobre, o craque da seleção francesa
Zinedine Zidane era pobre, a modelo inglesa Naomi Campbell
era pobre. Nesses campos, a mobilidade e o sucesso decorrem
de um predicado individual apenas, não das oportunidades
oferecidas pelo país onde as pessoas nasceram.
Trata-se de uma vitória da genética, não
de uma característica positiva ligada à
sociedade. Para os estudiosos, essa é uma diferença
conceitual significativa. Para as famílias dos
que chegaram ao topo, naturalmente, isso não
faz a menor diferença.
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Com reportagem de José Eduardo
Costa e Felipe Patury
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