Edição 1815 . 13 de agosto de 2003

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O Brasil das oportunidades


Monica Weinberg

 
Álbum de família
Marcelo Zocchio

O MINISTRO ERA CONTÍNUO
Em 1947, Mailson da Nóbrega aparece com a família na alfaiataria do pai, montada na sala da casa onde morava, em Cruz do Espírito Santo, na Paraíba. Abaixo, o registro da visita recente do ex-ministro aos pais e aos nove irmãos. Ele foi o único do clã que conseguiu o diploma universitário.

Maíto nasceu em Cruz do Espírito Santo, cidade que compõe o cinturão pobre de João Pessoa, na Paraíba, em 1942. Seu pai, Wilson da Nóbrega, hoje com 82 anos e aposentado, trabalhava como alfaiate na sala da casa da família, que tinha dois quartos. Num deles dormia o casal, e no outro dez crianças dividiam quatro camas. Embora Maíto reforçasse o orçamento doméstico vendendo amendoim, o pai decidiu abrir mão da receita extra e mandar o garoto concluir os estudos na capital. "Diziam para mim: 'Você é louco. Para que deixá-lo estudar? Põe ele para trabalhar na mercearia'", recorda-se Wilson, o alfaiate, pai de Maíto, apelido do economista Mailson da Nóbrega, 61 anos, ex-ministro da Fazenda no governo de José Sarney. Em João Pessoa, onde estudou e trabalhou como contínuo, Mailson disputou o concurso do Banco do Brasil, passou e foi parar numa agência do interior do Estado. Tempos depois acabou sendo transferido para Brasília, onde se formou em economia aos 32 anos. Começava assim uma das carreiras mais bem-sucedidas da burocracia nacional, hoje referência obrigatória sobre os rumos da economia brasileira. Por qualquer critério que se observe a trajetória do ex-ministro, ele deixou para trás uma vida de privações e passou a pertencer à elite. É interessante notar que tal percurso profissional fez dele um vencedor, mas não o tornou uma exceção – pelo menos não no Brasil, que o tempo transformou num dos países campeões de mobilidade social.

Três de cada quatro brasileiros são miseráveis, pobres ou emergentes, uma denominação técnica para definir o grupamento imediatamente abaixo da classe média. (Nada a ver, portanto, com os chamados "emergentes" das colunas sociais.) E apenas um pertence à classe média ou à classe alta. No caso do ex-ministro, seus nove irmãos continuam na Paraíba e se dividem entre emergentes e integrantes da classe média. Há uma vendedora de cosméticos, um taxista, uma costureira e uma cabeleireira. A pirâmide social brasileira é larga demais embaixo e mais fina do que deveria em cima. Como esse panorama se arrasta há muito tempo, o Brasil autoriza leituras pessimistas a respeito do futuro das camadas mais modestas da sociedade e mesmo da possibilidade de ascensão da classe média. As previsões se tornam mais ácidas em fases de estagnação econômica como a atual. Nessas circunstâncias, o nível de atividade econômica cai, o volume de investimento nacional e estrangeiro desaba, a taxa de desemprego aumenta e as chances de o Brasil voltar a crescer parecem remotas. Este é o retrato do momento. Mas, quando se observam os dados em perspectiva, ao longo dos anos, vê-se que os brasileiros vêm conseguindo se movimentar na pirâmide mesmo em época de crise. Essa movimentação se dá em bloco, com a melhoria de todos os segmentos, ainda que discreta, e também individualmente.

 
Marcelo Zocchio
Álbum de família

A LANCHONETE VIROU UMA REDE DE 204 LOJAS

Na década de 70 (foto à dir.), os irmãos Saraiva trabalhavam com os pais em uma pequena padaria. Hoje são donos da segunda maior rede de fast food do Brasil, atrás apenas do McDonald's. A mãe, Júlia, que aparece nas duas fotos, vivia da agricultura em Portugal.

O austríaco Joseph Schumpeter, um dos pensadores que moldaram a economia moderna, comparava a estrutura social de um país a um hotel que oferece aos hóspedes suítes luxuosas, apartamentos-padrão e quartos modestos. Quem passa em frente ao hotel mas o vê lá do outro lado da rua conclui que nada muda naquele edifício. Há os mais ricos, ocupantes das suítes, e os mais pobres, habitantes da ala mais modesta. Ano após ano permanece a distribuição desigual dos quartos. Se alguém atravessar a rua, entrar no saguão e se interessar pela história dos hóspedes, verá que muitos deles trocaram o quarto pelo apartamento, este pela suíte, e vice-versa. Assim são as sociedades, dizia Schumpeter. O empresário gaúcho Lírio Parisotto é um dos que, ao longo da vida, já ocuparam todos os quartos do hotel, e atualmente mora na cobertura. Aos 49 anos, Parisotto se tornou o maior fabricante brasileiro de fitas de videocassete, virgens e gravadas, CDs, DVDs e disquetes, além de produzir a matéria-prima para tudo isso numa fábrica de poliestireno que montou em Manaus. Seu grupo, a Videolar, faturou 600 milhões de reais no ano passado, e deve chegar a 1 bilhão até 2004. Há quarenta anos, Lírio vivia numa casa de madeira em Nova Bassano, no interior do Rio Grande do Sul, por cujas frestas entrava o vento gelado no inverno. Estudava em uma escola para onde ia descalço com o objetivo de não gastar calçado. Ele e os nove irmãos ajudavam os pais nas atividades da roça, de onde tiravam o sustento produzindo vinho e criando suínos. Lírio começou a reescrever sua história quando se tornou sócio de uma pequena loja de instalação de som em automóveis, há 22 anos.

A observação do "hotel Brasil" confirma a imagem de Schumpeter. O sociólogo José Pastore, professor da Universidade de São Paulo, estuda há trinta anos a composição da sociedade brasileira. Num de seus trabalhos, ele concentrou a atenção sobre um pedaço específico da população, justamente aquele que ocupa as suítes luxuosas. Trata-se da fatia dos 5% mais ricos. Entre eles estão as pessoas com maior renda e o mais alto nível educacional, a maioria com ensino superior completo. São empresários, gerentes em empresas financeiras, engenheiros, médicos, advogados e grandes proprietários rurais. Pastore descobriu que apenas 18% dos que formam o topo da sociedade segundo esse critério pertencem a famílias cujos antepassados já compunham a elite. Os outros 82% são recém-chegados. Algumas das curiosidades a respeito dos forasteiros: 20% são filhos de agricultores, na maioria analfabetos. E 16% nasceram num lar sustentado por profissionais como serventes e pedreiros. No total, mais da metade da elite é integrada por filhos de trabalhadores manuais, como Mailson e Parisotto. "A mobilidade social brasileira impressiona meus colegas sociólogos do mundo todo", comenta José Pastore.

 
Claudia Martins
Álbum de família

QUEBROU CINCO VEZES ATÉ FAZER SUCESSO

O empresário Alexandre Accioly aos 10 anos, no Rio de Janeiro (na foto em preto e branco), quando a família era sustentada pela aposentadoria da avó. Accioly deslanchou aos 29 anos, depois de cinco tentativas fracassadas. Hoje possui um patrimônio estimado em 200 milhões de reais.

Em muitos países se registram trajetórias como a do carioca Alexandre Accioly, 41 anos, dono de um patrimônio estimado em 200 milhões de reais. Mas a maneira fulminante como ele encontrou seu caminho rumo ao topo da pirâmide guarda uma relação próxima com o fenômeno tipicamente brasileiro apontado por Pastore. Na adolescência, Accioly morava com a mãe e duas irmãs num apartamento de quarto e sala no Rio de Janeiro depois que o pai saiu de casa. A família se sustentava com o dinheiro que a avó materna recebia como aposentadoria. Aos 17 anos, Accioly abriu seu primeiro negócio, uma agência de figurantes. Não deu certo. Montou uma agência de publicidade. Quebrou. Quebraria mais três vezes com um restaurante, um jornal de esportes e um jornal de classificados. Em 1991, aos 29 anos, abriu uma empresa de telemarketing, a Quatro/A. Em 1999, a Telefônica comprou a companhia por 140 milhões de reais. Atualmente, Accioly tem participação em onze empresas. É amigo de empresários, banqueiros, políticos e colunáveis, e namorou celebridades como Adriane Galisteu e Carolina Ferraz.

A maior parte dos brasileiros não dá saltos tão largos em tão pouco tempo. Mas os dados mostram que um contingente expressivo, muito mais numeroso do que as crises freqüentes da economia permitiriam imaginar, vem progredindo em ramos e graus variados. No maior trabalho já publicado sobre o assunto, resultado de uma parceria de José Pastore com o também sociólogo Nelson do Valle Silva, foram entrevistados 42.000 chefes de família, homens com idade entre 20 e 64 anos. Os números pertencem à Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE e foram atualizados até 1996. Muita coisa mudou nos últimos sete anos, principalmente o quadro econômico, mas Pastore informa que, como se trata de estatísticas que retratam movimentos de longo prazo, a tendência captada na pesquisa original continua válida. Os indicadores daquele estudo mostram que cinco de cada dez brasileiros vivem melhor do que viviam seus pais. Outros quatro possuem padrão de vida semelhante ao dos pais. Apenas um está pior. O trabalho catalogou 259 profissões, divididas em seis grupos segundo uma certa hierarquia. Ocupações manuais como lavrador e pescador foram colocadas no pé da lista e lá no topo estão as atividades liberais, como medicina e advocacia. Numa comparação feita com dezenove países, entre os quais Espanha, França, Estados Unidos, Itália, Canadá e Japão, o Brasil foi apontado naquele ano como o país de maior mobilidade social do mundo.

José Pastore se interessou recentemente pelas transformações sociais ocorridas na política após a vitória de Lula. Ele colocou números naquilo que apenas se supunha: 95% dos ocupantes de cargos do primeiro escalão do governo federal vêm de famílias cujos pais possuem educação rudimentar, a maioria sem diploma de ensino fundamental, alguns deles até analfabetos. Isso sem falar do próprio presidente Lula e do vice, José Alencar, dois que vieram de baixo. A cúpula petista é formada por brasileiros nascidos em famílias de lavradores e pequenos comerciantes, atividades de rendimento baixo e pouco horizonte profissional. Ingressaram na elite por meio da atuação política. "A política brasileira é a mais porosa do mundo", afirma o cientista político Hélio Jaguaribe, que estuda o sistema de outros países.

 
Álbum de família
Marcelo Zocchio

SALVA PELA DOENÇA

A chance de estudar surgiu só aos 17 anos, quando Marina Silva deixou o seringal no interior do Acre para tratar de uma doença em Rio Branco. À esquerda, em 1986, ela marcha contra a derrubada de árvores. Em Brasília, já como ministra do Meio Ambiente, posa ao lado do pai, Pedro.

Tome-se o caso da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que tem 45 anos. Ela e dez irmãos nasceram num seringal a 75 quilômetros de Rio Branco, no Acre. Três deles não sobreviveram aos primeiros anos de vida. Os sete restantes perderam a conta de quantas vezes contraíram malária, doença típica da região. Marina foi infectada cinco vezes. Além disso, sofreu de hepatite e leishmaniose, doença que lhe deixou uma marca permanente no nariz. Com a saúde debilitada, Marina largou o seringal para se tratar em Rio Branco. Tinha 17 anos. Na cidade, aonde chegou analfabeta, trabalhou como empregada doméstica e começou a estudar. Fez supletivo, ingressou na faculdade de história e mais tarde se envolveu com política sindical. Os irmãos de Marina continuam no Acre, e nenhum deles concluiu o ensino fundamental. Marina tem quatro filhos, dois deles já na universidade. "Sei que no seringal a oportunidade que tive de estudar e crescer na vida é coisa rara", diz a ministra.

Países não são mais ou menos móveis socialmente porque assim decidiram seus governantes de forma arbitrária. Foi a história de cada um e os avanços sociais e econômicos que levaram a isso. De modo geral, nações "novas" são socialmente mais mutáveis que as "antigas". Em países como Estados Unidos, México e Canadá pertencer a uma linhagem familiar com raízes na nobreza conta pouco – quase nada, em comparação a países monárquicos, como a Inglaterra, ou repúblicas ainda fortemente marcadas pelas dinastias hieráticas do passado, como a França. Além da importância secundária reservada à tradição familiar, certos hábitos dos países novos promovem a mobilidade. Um deles é a cultura do consumo. O americano médio compra mais que o europeu médio, e se endivida mais. Aproveitando-se dos estímulos de mercado, entre os quais os juros baixos, o consumidor americano abre oportunidades a empreendedores, aquece a economia e alarga as vias de ascensão social. Na Índia, a mobilidade tende a zero. Apesar de alguma melhora recente, o país ainda é engessado por sua milenar cultura de castas. O choque interno entre etnias, religiões e idiomas diferentes cria ambiente fértil a violência grupal e desconfianças. Tudo isso desestimula o empreendedorismo.

 
Raul Junior
Álbum de família

O EXECUTIVO QUE VENDIA FLORES

Aos 15 anos, o administrador de empresas Manoel Horácio vestiu sua roupa de ir à missa e foi a um estúdio fotográfico, com a mãe e os dois irmãos, tirar o único retrato que tem da infância (foto em preto e branco). Depois de vender flores e ser entregador de armazém, entrou para a universidade e tornou-se um dos mais bem-sucedidos executivos da atualidade. Hoje é diretor da holding do Banco Fator.

Na Europa, a mobilidade pode ser definida como uma conta de soma zero. Para que um indivíduo ascenda, outro precisa cair. Uma promoção no trabalho quase sempre é decorrência de uma demissão ou aposentadoria. Não se abrem postos de trabalho novos, não se criam oportunidades de emprego. Observe-se a pirâmide social da Suécia, símbolo do bem-estar europeu e uma das nações mais igualitárias e invejadas do planeta. Os suecos, que possuem renda per capita de 26.000 dólares (dez vezes a renda brasileira), adaptaram-se a um patamar de vida tão elevado que praticamente não têm estímulos para enfrentar projetos muito desafiadores. Na Inglaterra, dependendo do desempenho do aluno no ensino médio, ele já sabe em que tipo de escola de ensino superior poderá estudar. As instituições técnicas estão reservadas aos alunos de pior desempenho, as faculdades absorvem os estudantes medianos e um seleto grupo de universidades ultra-elitizadas, às quais o acesso é dificílimo, recruta os melhores da turma. Os estudos apontam para uma relação de causa e efeito notável entre a renda familiar dos estudantes e a escola superior em que ingressam. Os mais pobres são maioria nas escolas técnicas, e os mais ricos ficam com as vagas das universidades de elite. Uma explicação adicional para a baixa mobilidade na Europa é também a principal virtude do continente: a excelente distribuição de renda existente na região. Se tudo está mais ou menos dividido fraternalmente, como e para que melhorar de vida? Por ironia, a mesma explicação vale para compreender a estabilidade social de alguns dos países mais miseráveis do mundo, como a Etiópia, a Tanzânia, o Camboja e o Nepal. A miséria está em toda parte, muito "bem" distribuída. Como contornar a situação? Como progredir?

Nos países africanos, as pessoas nascem lá embaixo e não chegam lá em cima (até porque não há "lá em cima"). Será que na África Subsaariana o filho de um jardineiro com uma empregada doméstica chegaria aos postos mais altos do mundo dos negócios? Provavelmente não. E é essa a trajetória do administrador de empresas Manoel Horácio Francisco da Silva, 58 anos, um dos mais bem-sucedidos executivos da atualidade. Manoel Horácio trabalhou na Ericsson, na Sharp, na Vale do Rio Doce e presidiu a Telemar. Atualmente, dirige a holding do Banco Fator. Seu pai nunca entrou numa sala de aula e se estabeleceu como jardineiro em São Paulo. A mãe trabalhava como empregada doméstica. Para ajudar no orçamento, Manoel vendia flores, foi contínuo e entregador de armazém. A família morava numa casa com quarto e sala. O único banheiro do imóvel era também usado pelos vizinhos. Quando chegou à idade de entrar na universidade, arranjou uma bolsa de estudos num cursinho pré-vestibular, onde trabalhava na secretaria. Passou para administração de empresas numa universidade particular. Pagava as mensalidades com o salário de gerente de malharia. "Estudar era uma questão de honra lá em casa. Não podia decepcionar meus pais, pois eles deram o sangue para que melhorássemos de vida", diz Manoel Horácio.

 
Claudio Rossi
Álbum de família

ELE COMEÇOU NA ROÇA

À esquerda, o empresário Lírio Parisotto, o maior fabricante brasileiro de fitas de videocassete, DVD e CD. Acima, Lírio aos 3 anos, durante procissão em Nova Bassano, no Rio Grande do Sul, onde vivia na roça.

Nos países ricos, as pessoas chegam lá em cima, só que, em geral, ninguém parte de um ponto tão baixo como acontece muitas vezes no Brasil (até porque não existe um ponto "tão baixo"). Bill Gates é filho de um advogado e estudava em Harvard quando montou a Microsoft. Sua família situava-se num ponto elevado da pirâmide. O primeiro-ministro Silvio Berlusconi, a um só tempo a maior força política e econômica da Itália, foi outro que começou de cima. Seu pai, Luigi, era diretor de banco. O Brasil conseguiu uma mistura estranha. Juntou o ponto de partida próprio das nações mais pobres ao ponto de chegada das nações mais ricas. No caso brasileiro, há ingredientes adicionais para explicar a mobilidade social, e um dos mais importantes foi o processo de urbanização. Quando as pessoas trocaram o campo pela cidade, elas foram apresentadas aos serviços públicos, tiveram acesso a saúde, água limpa e esgoto tratado, além de um mundo de oportunidades de trabalho próprias da industrialização: salário, vale-transporte, auxílio-maternidade, plano de saúde, tíquete-refeição. Num passo seguinte, a industrialização dá lugar aos empregos na área de serviços, ocupação de perfil menos manual, que exige um aprendizado maior. A migração do campo para a cidade não acabou. Um quinto dos brasileiros ainda se mantém no campo, contra apenas 3% da força de trabalho americana.

Existem vários conceitos embutidos no termo "mobilidade social". Um deles, aquele estudado por Pastore, não dá atenção à melhoria coletiva dos indicadores nacionais. Analisa a movimentação das pessoas pelas classes sociais. Estudos assim se interessam por casos como o dos agricultores portugueses Antônio Saraiva e Júlia, que se mudaram para o Brasil na década de 50 trazendo no colo o filho Alberto, de apenas 6 meses. Trocaram uma vida modesta num povoado onde criavam ovelhas e plantavam uva por uma vida modesta no interior do Paraná. Semi-analfabeto, Saraiva só conseguiu trabalhar como vendedor. Comercializava balas e doces de porta em porta. Em 1970, a família, já ampliada com o nascimento de mais duas crianças, mudou-se para São Paulo, onde Saraiva comprou uma padaria. Alberto tinha 17 anos e um infortúnio o obrigou a assumir o negócio. Seu pai foi assassinado durante um assalto. Estudando no turno da manhã e tocando o negócio de pães até tarde da noite, Alberto chegou a se formar em medicina, mas não exerceu a profissão. Manteve-se à frente da padaria, comprou meia dúzia de bares, uma pastelaria e uma pizzaria. Em 1988, abriu uma lanchonete com dez mesinhas, onde vendia três esfihas pelo preço de um cafezinho. O nome: Habib's. Começava assim a segunda maior rede de fast food do Brasil, só perdendo em faturamento para o McDonald's. Alberto tem hoje 50 anos e a Habib's, quinze. São 204 lojas, seis delas no México, com faturamento de 500 milhões de reais por ano.

Há um segundo conceito, que se preocupa com os benefícios coletivos que melhorem a qualidade de vida, tais como a educação e a saúde. Recentemente, a ONU divulgou que o Brasil foi o país onde as pessoas mais melhoraram de vida nos últimos 28 anos – isso coletivamente. Os indicadores utilizados são a taxa de analfabetismo, a taxa de matrícula no ensino fundamental, a longevidade da população, o produto interno bruto e a renda per capita dos países, números apropriados para o monitoramento da chamada mobilidade coletiva. Não há na lista um único indicador destinado a diferenciar as pessoas, a medir a competição na sociedade, o sucesso individual. Os dois estudos são importantes e têm objetivos distintos. Pastore preocupa-se em apontar as chances de alguém progredir contornando as limitações sociais impostas pela renda familiar, pela escolaridade dos pais e pelas condições macroeconômicas. A ONU quer saber se o conjunto dos habitantes de um país está vivendo melhor, em condições mais dignas.

Os estudos a respeito da mobilidade brasileira chamam a atenção para uma característica nacional lamentável: a desigualdade na partida. No Brasil, nem todos competem em pé de igualdade por uma vaga na escola e no trabalho. Até alguns anos atrás, homens e mulheres eram tratados de forma diferente, e eles levavam vantagem quando disputavam uma oportunidade profissional com elas. Após uma luta intensa, a distância diminuiu significativamente e há estudiosos dizendo até mesmo que desapareceu. A briga brasileira se inspirou na batalha das grandes lideranças feministas mundiais e surtiu efeito. No caso da diferença racial, que também vem sendo combatida a partir de exemplos estrangeiros, os avanços parecem mais lentos. Um branco e um negro com origem social idêntica não têm a mesma oportunidade de progredir na vida. Negros e pardos, que representam 46% da sociedade, ocupam apenas 21% dos bancos universitários. Um levantamento recente realizado no Rio de Janeiro e em São Paulo mostra que, enquanto a pobreza atinge 30% dos brancos, ela vitima 45% dos negros.

Um país justo não é aquele cujo governo garante a todos um padrão de vida único, como prometiam os utópicos de todos os matizes ideológicos. O destino de cada um deve estar ligado às virtudes individuais, ao preparo, ao talento e até mesmo à sorte. Compete às autoridades zelar para que a disputa seja justa. Quando o governo cria programas que estimulam os mais pobres a manter o filho em sala de aula, está contribuindo para que as próximas gerações tenham condições de brigar por trabalhos mais dignos. As ações governamentais, no entanto, apresentam um problema de origem. O dinheiro público é bem utilizado no varejo, mas não no atacado. Num artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, o economista José Márcio Camargo mostra que o Brasil gasta um volume admirável de despesas na área social, algo como 20% do PIB. Só que os recursos são gastos de forma injusta. As universidades públicas ficam com 1 de cada 6 reais destinados pelo governo ao ensino. Camargo mostra que 93% dos estudantes das universidades estatais pertencem à camada dos 40% mais ricos da população, sendo que 73% deles formam entre os 20% mais ricos. É um dinheiro que sai do bolso de toda a sociedade e acaba nas mãos da elite. "Apesar disso, a universidade pública é gratuita. Ou seja, os pobres pagam pelo menos parte dos custos dos estudos dos filhos dos ricos", conclui Camargo. O Brasil promoveu o casamento entre uma virtude social desejável, a mobilidade, e um defeito pavoroso, a iniqüidade. O desafio é eliminar o defeito sem comprometer a virtude.

 
Sucesso e ascensão


Soren Mork
Álbum de família

A MODELO JÁ ENTREGOU MARMITA

O sonho da mãe de Fernanda Tavares era ver a filha na carreira de modelo. Na infância (à dir.), a família vivia com orçamento apertado e a moça precisou vender marmitas de porta em porta na cidade de Natal. É hoje uma das mais bem-sucedidas modelos brasileiras no exterior, só perdendo em faturamento para Gisele Bündchen. Já desfilou grifes estreladas como Versace e Dolce & Gabbana.

Fernanda Tavares, essa moça linda que aparece na fotografia grande acima, tornou-se uma das modelos mais bem pagas no mundo. Natural de Natal, no Rio Grande do Norte, chegou a entregar marmitas para reforçar o orçamento familiar. Bonita, convencida de que "levava jeito para a coisa" e estimulada pela mãe, bateu à porta das principais agências em São Paulo até conseguir uma chance. O mercado reconheceu em Fernanda qualidades raras, entre as quais a habilidade de encarnar tipos variados na passarela.

 

Marcelo Zocchio
Álbum de família

O SALTO PELA MÚSICA

Os pais dos irmãos sertanejos Zezé Di Camargo e Luciano deixaram a roça para tentar emplacar os filhos no mundo da música de Goiânia. Na juventude, Zezé (na foto à dir.) trabalhou de contínuo e fez bicos como cantor na rádio local. Atualmente, forma com o irmão a dupla sertaneja de maior sucesso no Brasil, com 25 milhões de discos vendidos. Hoje enviam mesada para os pais, com quem aparecem na foto à esquerda.

A dupla sertaneja que mais vende discos no Brasil, Zezé Di Camargo e Luciano, também é oriunda de família humilde. Eram sitiantes em Goiás. O pai, Francisco, achava que havia apenas duas maneiras de livrar a família da pobreza: estimular que alguém se tornasse jogador de futebol ou integrasse uma dupla sertaneja. "Filho meu é bola ou viola", dizia. Até fazer sucesso, Zezé e Luciano trabalharam como contínuo e engraxate. Embora Fernanda e a dupla Zezé Di Camargo e Luciano tenham partido da parte baixa da pirâmide e atingido o topo, ninguém está autorizado a fazer confusões. A moda e a música, bem como os esportes, proporcionam uma das formas mais conhecidas de ascensão social, mas essa movimentação nada tem a ver com o Brasil, propriamente.

Explica-se: em todo o mundo há casos de mobilidade justamente nessas áreas. A cantora canadense Celine Dion era pobre, o craque da seleção francesa Zinedine Zidane era pobre, a modelo inglesa Naomi Campbell era pobre. Nesses campos, a mobilidade e o sucesso decorrem de um predicado individual apenas, não das oportunidades oferecidas pelo país onde as pessoas nasceram. Trata-se de uma vitória da genética, não de uma característica positiva ligada à sociedade. Para os estudiosos, essa é uma diferença conceitual significativa. Para as famílias dos que chegaram ao topo, naturalmente, isso não faz a menor diferença.


Com reportagem de
José Eduardo Costa e Felipe Patury

 
 
 
 
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