Edição 1815 . 13 de agosto de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Guia
Artes e Espetáculos
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Arc
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Entrevista: Karl Josef Romer
Eles estão errados

O bispo brasileiro que influi hoje nas
posições da Igreja sobre a família diz
que os gays podem ter afeto sem sexo
e condena o aborto


Ronaldo França

 

Oscar Cabral

"Há na Igreja pessoas que estão sonolentas. Cristãos que não sofrem com a dor do próximo" Ronaldo França

O bispo suíço naturalizado brasileiro Karl Josef Romer, 71 anos, é, desde o ano passado, o segundo homem na hierarquia do Conselho Pontifício para a Família, em Roma. Entre suas tarefas, está reunir os especialistas ao redor do mundo para discutir os temas que desafiam a doutrina católica no que diz respeito à vida e à família. Esses estudos embasam as manifestações públicas da Igreja Católica justamente naqueles temas que costumam incendiar o debate toda vez que são tratados pela Cúria Romana. Entre eles, estão a homossexualidade, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a contracepção e o aborto. Dom Romer foi missionário no Brasil por 37 anos. Passou 26 deles como bispo auxiliar do Rio de Janeiro. Uma de suas obras foi a criação do Instituto Superior de Direito Canônico.

Veja – Há duas semanas, a Igreja Católica divulgou um documento no qual condena o casamento entre homossexuais. As reações ao redor do mundo foram furiosas. Não seria o caso de a Igreja ouvir o que eles dizem?
Romer – Ouvi muitas palavras soltas. Nós devemos nos ater aos argumentos. O homossexual deve ser integralmente respeitado em seus direitos como pessoa e em sua dignidade. Se o Estado diz que numa amizade entre duas pessoas, mesmo que homossexuais, pode haver um contrato sobre direito de herança, eu não vou entrar nisso. Ninguém pode negar que há pessoas com tendências homossexuais de grandíssimo valor moral e cultural. Mas equiparar a união dos homossexuais ao matrimônio é uma distorção. Homossexuais não têm, nem podem ter, os mesmos compromissos, mas querem ter os mesmos privilégios. Eles falam em discriminação. Essa palavra é usada de modo muito amplo. Quando trato desigualmente coisas iguais, eu discrimino. Mas é bom lembrar que tratar igualmente coisas desiguais também é discriminação.

Veja – Uma das maiores queixas é que esse documento se refere à homossexualidade como uma anomalia. O senhor não acha o termo um pouco forte demais?
Romer – Com todo o respeito pela pessoa que tem essa tendência, a anomalia é uma palavra que significa que na homossexualidade a expressão sexual, genital, não consegue realizar aquilo que é a ordem fundamental do sexo: a complementaridade e a abertura a uma vida nova. Acho que no caso desse termo seria correta uma interpretação mais serena. Não uma interpretação que queira insinuar algo de desprezo, de ódio. Nada disso.

Veja – Mas o mesmo documento, citando as escrituras sagradas, classifica a homossexualidade como depravação. Isso não é uma depreciação?
Romer – A Carta de São Paulo aos Romanos, citada no documento, fala justamente dos homens que deixam de lado o relacionamento natural com a mulher, ardem de paixão uns pelos outros e cometem atos ignominiosos ou depravados. É o próprio texto bíblico que diz isso. Claro que se pode dizer isso de diversas formas. A verdade central é que Paulo certamente diz que o homossexualismo é uma coisa oposta àquilo que Deus no fundo quer com o sexo.

Veja – O senhor não considera que o casamento entre homossexuais pode ser dotado dos mesmos valores de respeito, amor e fidelidade? Nesse sentido, não seria igual ao matrimônio entre homem e mulher?
Romer – Não sou médico nem psiquiatra. O que sei é que pode até haver reciprocidade afetiva forte entre homossexuais, mas a entrega e a complementaridade são extremamente problemáticas para eles mesmos. Pela própria estrutura natural. Não quero nem preciso entrar em pormenores, mas a coisa não é tão simples. Uma relação homossexual é extremamente parcial e fragmentada. Não é uma união aberta para a vida. O matrimônio entre homem e mulher é aberto para a vida, para uma prole.

Veja – Quando morreu a cantora Cássia Eller, estabeleceu-se uma discussão em torno da guarda do filho, que acabou ficando com a mulher com quem ela vivia maritalmente, Maria Eugênia Martins. A Igreja não se pronunciou a respeito. Por quê?
Romer – A Igreja foi prudente. Há situações complexas em que qualquer solução prática deve permanecer incompleta. O que é melhor quando o filho não tem pai ou mãe? Isso é muito difícil de dizer. A vida tantas vezes é complexa e fragmentária. Nesse caso em que os pressupostos já eram resultado de algo que, em vista do filho, não é normal, a única coisa que a Igreja poderia ter dito é que se deve sempre procurar o maior bem para a criança. Esse é o pressuposto absoluto. Mesmo que a solução não fosse nem pudesse ser a mais perfeita. Se essa senhora que ficou com o menino o protege de toda sorte de unilateralismo ou de fixações afetivas, inclusive homossexuais, então ela pode ficar com a criança.

Veja – O senhor conhece padres que já tiveram experiência sexual? Qual é o depoimento deles?
Romer – Essa é uma pergunta que o senhor pode fazer, mas à qual eu não respondo porque, se eu soubesse, saberia por confidências através do sacramento. Se não sei, não posso falar.

Veja – Tem-se visto uma repetição de casos de filhos assassinando pais e pais matando filhos. Os valores da família estão se dissolvendo no Brasil?
Romer – Isso é conseqüência do clima de violência, da desestruturação da sociedade e da vida individual. A família brasileira está em grande transformação. Muitas encontraram mais possibilidades devido ao processo de industrialização do Brasil. Muitas que antes não podiam pensar que um filho chegasse ao 2º grau ou à universidade e hoje vêem que é possível. Agora, será que ao nos livrarmos de formas ultrapassadas de macrofamílias e de família patriarcal, com seus valores e contravalores, a família no Brasil está encontrando sua forma mais humana? Um pouco mais de dinheiro e menos filhos, com a ajuda da pílula, não humaniza a vida. Muitas famílias são arrastadas para esse fluxo de consumismo apregoado pela televisão e pela vida hoje. A família é uma das primeiras vítimas desse mal-estar social. Todavia, há ainda na família brasileira valores humanos que talvez no Primeiro Mundo já não se encontrem tanto.

Veja – O que nos diferencia?
Romer – O brasileiro é por natureza mais sensível aos valores espirituais. Não quero com isso negar a afetividade na família européia, mas acho que se podem encontrar esses valores no brasileiro com mais facilidade do que na Europa, onde se é racional demais. Isso é parte da grandeza do caráter brasileiro. Agora, mesmo os valores têm seus limites e seus perigos. A afetividade deve ser acompanhada de uma racionalidade responsável, que só pode nascer de uma verdadeira espiritualidade. O homem pleno estrutura sua vida sobre princípios éticos que são superiores ao desejo imediato. Ser pai e ser mãe é uma coisa maravilhosa, mas deve ter um lastro espiritual. Caso contrário, não se resistirá aos ídolos modernos do consumismo, do sexismo desenfreado e da violência. Conheço muitos homens brasileiros que são pais admiráveis, porém conheço muito sofrimento no Brasil por causa da falta do pai. É uma coisa muito grave que precisa de uma solução urgente.

Veja – Essa é uma das razões pelas quais se defende o direito da mulher à contracepção. É uma forma de evitar a gravidez de um relacionamento fadado ao fracasso.
Romer – O homem é capaz de superar a si mesmo. Conheci no Brasil e na Europa crianças que nasceram de mãe solteira, tiveram seus sofrimentos – e não poucos –, mas foram apoiadas. Mas, justamente porque esse é um problema tão grande e complexo, não quero propor uma solução simplória. O aborto é um colapso do ser humano. A pílula é uma solução simplória. O que não se deve é dizer: "Vamos tomar pílulas para não ter filhos". Dessa forma as pessoas querem resolver um problema profundamente humano com um martelo ou com fogo e faca. Essa pílula do dia seguinte também é, normalmente, uma matança de um ser concebido. Deve-se promover a paternidade responsável. O problema é que querem ter o prazer, mas nenhum dever. Em muitas escolas se ensina que sexo é para usar. Sexo é aberto para uma profunda responsabilidade para com o outro e para com a vida. Pode e deve ser fonte de felicidade. O egoísmo do sexo não só degrada e esvazia a pessoa como ameaça a existência de um povo. Não se quer ter dois ou três filhos. Eventualmente se quer um. E é sabido que, abaixo de 2,2 filhos por casal, se caminha para a morte da humanidade.

Veja – O problema é que ter dois filhos é muito dispendioso para a imensa maioria dos casais. Muitos acabam optando pelo aborto.
Romer – Sim, isso mostra a complexidade da questão. Muitas mães não têm o mínimo necessário para assumir uma criança. Nesses casos, acho que o Estado, a sociedade e muitas forças na Igreja têm de fazer mais por elas. Agora, o aborto é um problema emocional, humano, muito maior que a maior pobreza. Tantas mulheres que cometeram esse ato continuam sofrendo depois de décadas, e esse sofrimento não se curará facilmente. A sociedade pode, deve dar sua contribuição para que elas não precisem chegar a isso. Se os países investissem mais na família, economizariam centenas de milhões de dólares em outros setores. Não precisariam, por exemplo, manter tantas prisões com gente estragada pela sociedade, pela vida. Muita gente que, por não ter um dia as mínimas condições de viver, de se formar, caiu no banditismo. Diversos países descobriram, por exemplo, que é melhor destinar diretamente às mães uma parte do dinheiro que seria gasto com a construção de creches. Assim elas podem ficar em casa e educar seus filhos.

Veja – Um dos problemas da falta de planejamento familiar é justamente que os países não têm mais condições de suportar esse ônus financeiro e social.
Romer – Infelizmente, o planejamento familiar é identificado pela opinião pública unicamente com contracepção. O homem usou o avanço tecnológico de forma egoísta. Abusou dos progressos da ciência. Até bem pouco tempo atrás, apregoava-se o iminente perigo de uma superpopulação na Terra. Várias entidades, com bilhões de dólares, passaram a trabalhar para diminuir a natalidade em todo o mundo. Agora, países tradicionalmente vigorosos estão perdendo população. Alemanha, Itália e Espanha, nações de uma vitalidade admirável há poucas décadas, com uma taxa de natalidade boa, estão vivendo uma angústia. Políticos da Alemanha têm dito que daqui a 45 anos faltarão 16 milhões de alemães para compor o mercado de trabalho se não houver uma mudança drástica nas tendências. Se continuar assim, continentes inteiros terão um inverno demográfico assustador.

Veja – Nas últimas décadas também se acentuou o número de casamentos desfeitos. A que o senhor atribui isso?
Romer – Houve uma mudança cultural no mundo. Há cinqüenta anos, uma pessoa que aprendia a ser carpinteiro não mudava de profissão. O indivíduo era feliz de ter chegado a esse pequeno porto para amarrar sua barca. Hoje, o sujeito estuda medicina, mas é capaz de mudar para biologia, para pesquisa pura. Por um lado isso é bom, mas gera outros problemas. A questão é que, com a multiplicação de ofertas a que o homem se acostumou, ele perdeu o hábito de fazer uma opção para sempre. Os motivos podem ser mais profundos, claro. Mas o fato é que antigamente, quando alguém se casava e chegava o momento da crise, não era fácil descasar-se. Hoje muita gente já nem se comove com a ruína do casamento. O que se perde nesse processo não são apenas os valores eternos, mas a capacidade de a pessoa se autoquestionar. O próprio homem se tornou, ao mesmo tempo, sujeito e objeto de consumo.

Veja – Um dos fenômenos que mais têm chamado atenção na Igreja Católica é a perda de fiéis para as religiões protestantes. Quanto isso preocupa?
Romer – Eu diria, muito humildemente, que existe essa preocupação na Igreja, mas nas confissões luteranas e protestantes tradicionais também. Por um lado, nós precisamos nos perguntar se temos pregado o suficiente. Claro que essa pergunta se impõe. Mas devemos entender que o que tem acontecido não é exatamente uma opção religiosa. Há uma infeliz proliferação de coisas que não merecem nome de igreja, que são uma espécie de empresa com etiqueta religiosa. Eu não digo que não façam algum bem. Também fazem. Mas eles deturpam o Evangelho. Não se pode inventar o Evangelho.

Veja – A Igreja Católica continua viva ou está decadente?
Romer – A Igreja deve enveredar para um futuro que ela não conhece e se confrontar com sua própria história. Para isso, pode encontrar no passado forças que eventualmente estavam mais vivas do que hoje. No século IV, por exemplo, a Igreja acabara de sair das perseguições. Muitas pessoas haviam sobrevivido a torturas violentas, produzidas pelos imperadores romanos. Sobreviviam mutiladas. Nessa vivência radical da fé e da fidelidade a Jesus Cristo, não faltavam aqueles que ensinassem radicalismos alheios ao Evangelho. Diziam que uma pessoa que pecasse gravemente uma única vez não poderia merecer o perdão. Viver sem a mínima mácula não é comum entre os homens. Mas a Igreja tinha então apenas 300 anos. Nos sínodos e concílios posteriores esses radicais foram censurados.

Veja – A Igreja Católica está perdendo força?
Romer – Há muita gente que dorme ou que, pelo menos, está sonolenta. Há na Igreja pessoas muito contentes por ser cristãs e por conhecer Jesus Cristo, mas que não sofrem com a falta de fé de tantos nem com a dor do próximo. Não sofrem com o fato de que o outro não tem uma mesa, mesmo que humilde, mas dignamente preparada para comer. Se todos acordassem e todos vibrassem mais, evidentemente uma parte do problema social poderia ser resolvida.

 
 
 
 
topo voltar