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Entrevista:
Karl Josef Romer
Eles
estão errados
O
bispo brasileiro que influi hoje nas
posições da Igreja sobre a família diz
que os gays podem ter afeto sem sexo
e condena o aborto

Ronaldo
França
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Oscar Cabral

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"Há
na Igreja pessoas que estão sonolentas. Cristãos que
não sofrem com a dor do próximo" Ronaldo França
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O
bispo suíço naturalizado brasileiro Karl Josef Romer,
71 anos, é, desde o ano passado, o segundo homem na hierarquia
do Conselho Pontifício para a Família, em Roma. Entre
suas tarefas, está reunir os especialistas ao redor do mundo
para discutir os temas que desafiam a doutrina católica no
que diz respeito à vida e à família. Esses
estudos embasam as manifestações públicas da
Igreja Católica justamente naqueles temas que costumam incendiar
o debate toda vez que são tratados pela Cúria Romana.
Entre eles, estão a homossexualidade, o casamento entre pessoas
do mesmo sexo, a contracepção e o aborto. Dom Romer
foi missionário no Brasil por 37 anos. Passou 26 deles como
bispo auxiliar do Rio de Janeiro. Uma de suas obras foi a criação
do Instituto Superior de Direito Canônico.
Veja Há duas semanas, a Igreja Católica
divulgou um documento no qual condena o casamento entre homossexuais.
As reações ao redor do mundo foram furiosas. Não
seria o caso de a Igreja ouvir o que eles dizem?
Romer
Ouvi muitas palavras soltas. Nós devemos nos ater
aos argumentos. O homossexual deve ser integralmente respeitado
em seus direitos como pessoa e em sua dignidade. Se o Estado diz
que numa amizade entre duas pessoas, mesmo que homossexuais, pode
haver um contrato sobre direito de herança, eu não
vou entrar nisso. Ninguém pode negar que há pessoas
com tendências homossexuais de grandíssimo valor moral
e cultural. Mas equiparar a união dos homossexuais ao matrimônio
é uma distorção. Homossexuais não têm,
nem podem ter, os mesmos compromissos, mas querem ter os mesmos
privilégios. Eles falam em discriminação. Essa
palavra é usada de modo muito amplo. Quando trato desigualmente
coisas iguais, eu discrimino. Mas é bom lembrar que tratar
igualmente coisas desiguais também é discriminação.
Veja
Uma das maiores queixas é que esse documento se
refere à homossexualidade como uma anomalia. O senhor não
acha o termo um pouco forte demais?
Romer
Com todo o respeito pela pessoa que tem essa tendência,
a anomalia é uma palavra que significa que na homossexualidade
a expressão sexual, genital, não consegue realizar
aquilo que é a ordem fundamental do sexo: a complementaridade
e a abertura a uma vida nova. Acho que no caso desse termo seria
correta uma interpretação mais serena. Não
uma interpretação que queira insinuar algo de desprezo,
de ódio. Nada disso.
Veja
Mas o mesmo documento, citando as escrituras sagradas,
classifica a homossexualidade como depravação. Isso
não é uma depreciação?
Romer
A Carta de São Paulo aos Romanos, citada no documento,
fala justamente dos homens que deixam de lado o relacionamento natural
com a mulher, ardem de paixão uns pelos outros e cometem
atos ignominiosos ou depravados. É o próprio texto
bíblico que diz isso. Claro que se pode dizer isso de diversas
formas. A verdade central é que Paulo certamente diz que
o homossexualismo é uma coisa oposta àquilo que Deus
no fundo quer com o sexo.
Veja
O senhor não considera que o casamento entre homossexuais
pode ser dotado dos mesmos valores de respeito, amor e fidelidade?
Nesse sentido, não seria igual ao matrimônio entre
homem e mulher?
Romer
Não sou médico nem psiquiatra. O que sei
é que pode até haver reciprocidade afetiva forte entre
homossexuais, mas a entrega e a complementaridade são extremamente
problemáticas para eles mesmos. Pela própria estrutura
natural. Não quero nem preciso entrar em pormenores, mas
a coisa não é tão simples. Uma relação
homossexual é extremamente parcial e fragmentada. Não
é uma união aberta para a vida. O matrimônio
entre homem e mulher é aberto para a vida, para uma prole.
Veja
Quando morreu a cantora Cássia Eller, estabeleceu-se
uma discussão em torno da guarda do filho, que acabou ficando
com a mulher com quem ela vivia maritalmente, Maria Eugênia
Martins. A Igreja não se pronunciou a respeito. Por quê?
Romer
A Igreja foi prudente. Há situações
complexas em que qualquer solução prática deve
permanecer incompleta. O que é melhor quando o filho não
tem pai ou mãe? Isso é muito difícil de dizer.
A vida tantas vezes é complexa e fragmentária. Nesse
caso em que os pressupostos já eram resultado de algo que,
em vista do filho, não é normal, a única coisa
que a Igreja poderia ter dito é que se deve sempre procurar
o maior bem para a criança. Esse é o pressuposto absoluto.
Mesmo que a solução não fosse nem pudesse ser
a mais perfeita. Se essa senhora que ficou com o menino o protege
de toda sorte de unilateralismo ou de fixações afetivas,
inclusive homossexuais, então ela pode ficar com a criança.
Veja O senhor conhece padres que já tiveram
experiência sexual? Qual é o depoimento deles?
Romer Essa é uma pergunta que o senhor pode
fazer, mas à qual eu não respondo porque, se eu soubesse,
saberia por confidências através do sacramento. Se
não sei, não posso falar.
Veja Tem-se visto uma repetição de casos
de filhos assassinando pais e pais matando filhos. Os valores da
família estão se dissolvendo no Brasil?
Romer
Isso é conseqüência do clima de violência,
da desestruturação da sociedade e da vida individual.
A família brasileira está em grande transformação.
Muitas encontraram mais possibilidades devido ao processo de industrialização
do Brasil. Muitas que antes não podiam pensar que um filho
chegasse ao 2º grau ou à universidade e hoje vêem
que é possível. Agora, será que ao nos livrarmos
de formas ultrapassadas de macrofamílias e de família
patriarcal, com seus valores e contravalores, a família no
Brasil está encontrando sua forma mais humana? Um pouco mais
de dinheiro e menos filhos, com a ajuda da pílula, não
humaniza a vida. Muitas famílias são arrastadas para
esse fluxo de consumismo apregoado pela televisão e pela
vida hoje. A família é uma das primeiras vítimas
desse mal-estar social. Todavia, há ainda na família
brasileira valores humanos que talvez no Primeiro Mundo já
não se encontrem tanto.
Veja
O que nos diferencia?
Romer
O brasileiro é por natureza mais sensível aos valores
espirituais. Não quero com isso negar a afetividade na família
européia, mas acho que se podem encontrar esses valores no
brasileiro com mais facilidade do que na Europa, onde se é
racional demais. Isso é parte da grandeza do caráter
brasileiro. Agora, mesmo os valores têm seus limites e seus
perigos. A afetividade deve ser acompanhada de uma racionalidade
responsável, que só pode nascer de uma verdadeira
espiritualidade. O homem pleno estrutura sua vida sobre princípios
éticos que são superiores ao desejo imediato. Ser
pai e ser mãe é uma coisa maravilhosa, mas deve ter
um lastro espiritual. Caso contrário, não se resistirá
aos ídolos modernos do consumismo, do sexismo desenfreado
e da violência. Conheço muitos homens brasileiros que
são pais admiráveis, porém conheço muito
sofrimento no Brasil por causa da falta do pai. É uma coisa
muito grave que precisa de uma solução urgente.
Veja
Essa é uma das razões pelas quais se defende
o direito da mulher à contracepção. É
uma forma de evitar a gravidez de um relacionamento fadado ao fracasso.
Romer
O homem é capaz de superar a si mesmo. Conheci no Brasil
e na Europa crianças que nasceram de mãe solteira,
tiveram seus sofrimentos e não poucos , mas
foram apoiadas. Mas, justamente porque esse é um problema
tão grande e complexo, não quero propor uma solução
simplória. O aborto é um colapso do ser humano. A
pílula é uma solução simplória.
O que não se deve é dizer: "Vamos tomar pílulas
para não ter filhos". Dessa forma as pessoas querem resolver
um problema profundamente humano com um martelo ou com fogo e faca.
Essa pílula do dia seguinte também é, normalmente,
uma matança de um ser concebido. Deve-se promover a paternidade
responsável. O problema é que querem ter o prazer,
mas nenhum dever. Em muitas escolas se ensina que sexo é
para usar. Sexo é aberto para uma profunda responsabilidade
para com o outro e para com a vida. Pode e deve ser fonte de felicidade.
O egoísmo do sexo não só degrada e esvazia
a pessoa como ameaça a existência de um povo. Não
se quer ter dois ou três filhos. Eventualmente se quer um.
E é sabido que, abaixo de 2,2 filhos por casal, se caminha
para a morte da humanidade.
Veja
O problema é que ter dois filhos é muito
dispendioso para a imensa maioria dos casais. Muitos acabam optando
pelo aborto.
Romer
Sim, isso mostra a complexidade da questão. Muitas mães
não têm o mínimo necessário para assumir
uma criança. Nesses casos, acho que o Estado, a sociedade
e muitas forças na Igreja têm de fazer mais por elas.
Agora, o aborto é um problema emocional, humano, muito maior
que a maior pobreza. Tantas mulheres que cometeram esse ato continuam
sofrendo depois de décadas, e esse sofrimento não
se curará facilmente. A sociedade pode, deve dar sua contribuição
para que elas não precisem chegar a isso. Se os países
investissem mais na família, economizariam centenas de milhões
de dólares em outros setores. Não precisariam, por
exemplo, manter tantas prisões com gente estragada pela sociedade,
pela vida. Muita gente que, por não ter um dia as mínimas
condições de viver, de se formar, caiu no banditismo.
Diversos países descobriram, por exemplo, que é melhor
destinar diretamente às mães uma parte do dinheiro
que seria gasto com a construção de creches. Assim
elas podem ficar em casa e educar seus filhos.
Veja
Um dos problemas da falta de planejamento familiar é
justamente que os países não têm mais condições
de suportar esse ônus financeiro e social.
Romer
Infelizmente, o planejamento familiar é identificado pela
opinião pública unicamente com contracepção.
O homem usou o avanço tecnológico de forma egoísta.
Abusou dos progressos da ciência. Até bem pouco tempo
atrás, apregoava-se o iminente perigo de uma superpopulação
na Terra. Várias entidades, com bilhões de dólares,
passaram a trabalhar para diminuir a natalidade em todo o mundo.
Agora, países tradicionalmente vigorosos estão perdendo
população. Alemanha, Itália e Espanha, nações
de uma vitalidade admirável há poucas décadas,
com uma taxa de natalidade boa, estão vivendo uma angústia.
Políticos da Alemanha têm dito que daqui a 45 anos
faltarão 16 milhões de alemães para compor
o mercado de trabalho se não houver uma mudança drástica
nas tendências. Se continuar assim, continentes inteiros terão
um inverno demográfico assustador.
Veja Nas últimas décadas também
se acentuou o número de casamentos desfeitos. A que o senhor
atribui isso?
Romer
Houve uma mudança cultural no mundo. Há cinqüenta
anos, uma pessoa que aprendia a ser carpinteiro não mudava
de profissão. O indivíduo era feliz de ter chegado
a esse pequeno porto para amarrar sua barca. Hoje, o sujeito estuda
medicina, mas é capaz de mudar para biologia, para pesquisa
pura. Por um lado isso é bom, mas gera outros problemas.
A questão é que, com a multiplicação
de ofertas a que o homem se acostumou, ele perdeu o hábito
de fazer uma opção para sempre. Os motivos podem ser
mais profundos, claro. Mas o fato é que antigamente, quando
alguém se casava e chegava o momento da crise, não
era fácil descasar-se. Hoje muita gente já nem se
comove com a ruína do casamento. O que se perde nesse processo
não são apenas os valores eternos, mas a capacidade
de a pessoa se autoquestionar. O próprio homem se tornou,
ao mesmo tempo, sujeito e objeto de consumo.
Veja Um dos fenômenos que mais têm chamado
atenção na Igreja Católica é a perda
de fiéis para as religiões protestantes. Quanto isso
preocupa?
Romer
Eu diria, muito humildemente, que existe essa preocupação
na Igreja, mas nas confissões luteranas e protestantes tradicionais
também. Por um lado, nós precisamos nos perguntar
se temos pregado o suficiente. Claro que essa pergunta se impõe.
Mas devemos entender que o que tem acontecido não é
exatamente uma opção religiosa. Há uma infeliz
proliferação de coisas que não merecem nome
de igreja, que são uma espécie de empresa com etiqueta
religiosa. Eu não digo que não façam algum
bem. Também fazem. Mas eles deturpam o Evangelho. Não
se pode inventar o Evangelho.
Veja
A Igreja Católica continua viva ou está
decadente?
Romer
A Igreja deve enveredar para um futuro que ela não conhece
e se confrontar com sua própria história. Para isso,
pode encontrar no passado forças que eventualmente estavam
mais vivas do que hoje. No século IV, por exemplo, a Igreja
acabara de sair das perseguições. Muitas pessoas haviam
sobrevivido a torturas violentas, produzidas pelos imperadores romanos.
Sobreviviam mutiladas. Nessa vivência radical da fé
e da fidelidade a Jesus Cristo, não faltavam aqueles que
ensinassem radicalismos alheios ao Evangelho. Diziam que uma pessoa
que pecasse gravemente uma única vez não poderia merecer
o perdão. Viver sem a mínima mácula não
é comum entre os homens. Mas a Igreja tinha então
apenas 300 anos. Nos sínodos e concílios posteriores
esses radicais foram censurados.
Veja
A Igreja Católica está perdendo força?
Romer
Há muita gente que dorme ou que, pelo menos, está
sonolenta. Há na Igreja pessoas muito contentes por ser cristãs
e por conhecer Jesus Cristo, mas que não sofrem com a falta
de fé de tantos nem com a dor do próximo. Não
sofrem com o fato de que o outro não tem uma mesa, mesmo
que humilde, mas dignamente preparada para comer. Se todos acordassem
e todos vibrassem mais, evidentemente uma parte do problema social
poderia ser resolvida.
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