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EM
FOCO: Sérgio Abranches
Dois
pesos, duas medidas
"A
Previdência para os informais pobres é uma decisão
que redistribui
renda para os mais fracos.
O subsídio aos automóveis redistribui renda
para
os mais fortes"
Ilustração Ale Setti
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O governo
tomou na semana passada duas decisões importantes. Ambas
terão custo fiscal. Uma, por reduzir a arrecadação.
A outra, por instituir benefício sem cobertura suficiente.
Uma é temporária, mas reincidente. A outra, durável
e inédita. Uma concentra a renda, a outra é redistributiva.
Falo
da isenção de IPI para as montadoras, a ser repassada
aos preços, supostamente um mecanismo anticíclico,
que permitiria reaquecer a economia. E da introdução,
na reforma da Previdência, de uma nova modalidade de aposentadoria
especial, para pessoas na informalidade que passariam a ter acesso
à rede de proteção previdenciária, mediante
módica contribuição. É uma abertura
aos mais pobres, aos que não têm cobertura social alguma.
É
um retrato sugestivamente representativo das contradições
do Brasil e do governo Luiz Inácio. Ao capitular à
pressão das montadoras, o governo atende a dois setores perfeitamente
integrados econômica, social e politicamente. As empresas
e seus trabalhadores. Eles têm representação,
renda garantida, os trabalhadores têm acesso à rede
de proteção social estatal e à cobertura adicional
dada pelas empresas, por força de convenções
coletivas e da lei. Das empresas, o que é necessário
dizer? Nem sequer estão entre os segmentos do capital que
poderiam, eventualmente, requerer, com alguma razoabilidade, proteção
contra situações de emergência.
Essa
coalizão particularíssima justifica o privilégio
da isenção tributária não importa
o prazo dela, mas o princípio em si em nome de uma
idéia genérica, o combate ao desemprego e o crescimento,
a que qualquer um adere. Mas é falsa. As montadoras jamais
reduzem preços. Ao contrário, elas os elevam nos períodos
de queda de demanda. Falam em repassar o subsídio integralmente
aos preços, como se fosse um favor. Até com alguma
irritação, diante da justa insistência da imprensa.
Concordam em não demitir mais, na antevéspera da retomada
do crescimento, prevista em oito de cada dez análises de
consultores econômicos. A queda dos juros, que continuará,
atua com alguma defasagem na economia. Mas já é possível
ver sinais de melhora próxima. Em suma, não farão
sacrifício algum.
Esse
tem sido um comportamento recorrente de certos setores empresariais
(há setores que nasceram, cresceram e estão se virando,
sem nenhum favor estatal): sempre transferir o ônus para o
público e se apropriar privadamente de todo o bônus.
Faz sentido, da perspectiva do negócio.
Não
faz sentido é da perspectiva do distinto público e,
certamente, não na visão de governos progressistas,
socialmente orientados. Nessa lógica, todo o sacrifício
será do Tesouro, da viúva, despudoradamente cercada
pelos que desejam sacar-lhe a renda para benefício próprio.
E quem é o Tesouro? O governo? O secretário do Tesouro?
O Estado? Não, o Tesouro somos nós, pagadores de impostos.
Especialmente os de menor renda, que pagam uma parte desproporcional
dela em tributos. Ou seja, o que parece estar sendo dado com uma
mão não passa de uma forma de tirar, de verdade, com
a outra. Quem vai pagar essa conta de agora? Quem não comprar
carros e pagar impostos. Vai aparecer alguém dizendo que
esse raciocínio não faz sentido, porque o imposto
que está sendo objeto de isenção é pago
pelos consumidores de carro. Outro truque. O caixa é único,
não existe uma "conta IPI automóveis", na qual fica
o imposto pago por compradores de carro, para custear apenas os
serviços públicos fornecidos a eles. Não. O
cobertor é um só e é curto.
E
a aposentadoria especial, não é gasto? É. A
diferença não vai ser suprida pelos pagadores de impostos?
Vai. O governo não tem de fazer superávit fiscal?
Tem. Mas condená-la seria um excesso fiscalista, tão
pouco razoável quanto a idéia de que déficit
fiscal não é problema.
Eu
preferiria uma ampla reforma dos programas sociais, para constituição
de uma verdadeira rede social de proteção, universal,
que amparasse a todos os destituídos de meios, com redução
dos gastos com os remediados, as classes médias e as classes
altas. Eu trocaria todos os subsídios ao capital pela criação
de componentes dessa rede. A Previdência para os informais
pobres que de qualquer forma ainda contribuirão
é uma decisão que redistribui renda para os mais fracos.
O subsídio aos automóveis redistribui renda para os
mais fortes. A Previdência ainda levará tempo para
ser regulamentada. Se for. A isenção é em tempo
real. E será executada com eficiência empresarial.
Duas
decisões: uma, promessa para os pobres; outra, benefício
imediato para os ricos. Uma é coisa da direita velha. A outra,
da esquerda moderna.
Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)
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