|
|
Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Nhô
Lula e a tentativa do último milagre Algo
de trágico se insinuou na pele
desse presidente que tanto acreditou
em si mesmo Primeiro, a boa notícia:
pelo que até agora aflorou do mar de denúncias que cerca o governo,
o presidente Lula parece realmente não ter tomado conhecimento das embrulhadas
e falcatruas praticadas em seu entorno, ou, se tomou, foi por notícia vaga
e inconsistente. Agora, a má notícia: pelo que até agora
aflorou do mar de denúncias que cerca o governo, o presidente Lula parece
realmente não ter tomado conhecimento das embrulhadas e falcatruas praticadas
em seu entorno, ou, se tomou, foi por notícia vaga e inconsistente.
A boa notícia conforta quem não quer ver o país mergulhado
num impasse que conduza, de novo, à destituição do presidente,
com toda a dor e o traumático sacolejo nas instituições que
isso significa. A má notícia decepciona os que acreditavam haver
um presidente a ocupar a Presidência. Os últimos acontecimentos confirmam
a impressão, já antiga, de que Lula, como executivo, preferiu refugiar-se
nas artes da levitação. Ele não governa. Prefere flutuar
acima dos desagradáveis assuntos do dia-a-dia. Não lhe agrada ter
as mãos sobre o leme da administração. Prefere pairar acima,
como gaivota. O pecado original desta Presidência
é ter confundido o começo com o fim. Ao se consagrar nas urnas,
na histórica eleição que levou um antigo metalúrgico
ao posto máximo do país, Lula ficou tão feliz, mas tão
feliz, que a partir de então fez da existência um moto-contínuo
de comemorações. Realmente não foi pouco, para "o menino
que vendia amendoim e laranja no cais de Santos", como ele lembrou no discurso
de posse, ter chegado aonde chegou. Para qualquer um, na verdade, e não
apenas para quem viveu infância de retirante e adolescência de favelado,
chegar à Presidência é uma proeza de gloriosas proporções.
Só que não é um fim em si mesma. É, ao mesmo tempo,
um começo o começo do desafio de, por meio de ações
diárias, minuciosas e persistentes, transformar o mandato em algo profícuo.
Lula ignorou que a vitória era um começo. Achou que era só
um fim. Nesse engano, ele se perdeu. A agenda presidencial
se constituiu, ao longo desses dois anos e meio de governo, mais à feição
das festividades que do trabalho. Os compromissos com astros da TV, do samba ou
da música caipira mereceram nela lugar privilegiado. O presidente, nessas
ocasiões, sentia-se em seu elemento. "Morram de inveja", disse aos jornalistas,
ao posar para foto ao lado da dançarina do É o Tchan!. As reuniões
ministeriais eram ocasião para copiosas churrascadas. E, para culminar,
havia as viagens internacionais, meia centena, em dois anos e meio expressões
de uma política externa que se queria tão revolucionária
que ia mudar as relações entre os povos. Enquanto se mendigava,
nos quatro cantos do mundo, um lugar no Conselho de Segurança, bom mesmo
era receber dos estrangeiros os louros devidos ao espécime raro do operário
tornado presidente. De quebra, as viagens proporcionavam os prazeres do turismo,
Paris, Roma, o Taj Mahal, os palácios chineses eh, mundão
grande e cheio de coisa linda para ver! Quanto à chatice de traçar
rumos e decidir, para que se incomodar, se ele tinha formado "o melhor ministério
que o país já teve"? Na hora em que não havia outro jeito
e a batata quente lhe estourava nas próprias mãos, o sofrimento
era grande. Que o diga a história aflitiva, tortuosa e sem rumo daquilo
que, há quase um ano, vem sendo chamado de "reforma ministerial".
A vitória eleitoral fez um grande mal ao presidente. Ele passou a acreditar
em si mesmo muito além do que seria razoável. Se tinha conseguido
a façanha suprema de chegar à Presidência, o que não
conseguiria? Se o milagre maior tinha se dado, por que não acreditar que
outros se seguiriam? Não precisaria mais se mexer, já dominava o
segredo da varinha de condão. "Faça-se o Fome Zero", e o Fome Zero
se faria. "Faça-se o maior programa social já visto neste país",
e o programa se faria. Faça-se a retomada do crescimento, a distribuição
de renda, o respeito pelo Brasil no mundo. "Nunca se fez tanta coisa", dizia,
e o pior é que acreditava nisso. Enquanto o presidente confiava na infalibilidade
de suas mágicas, a devassidão e a esbórnia corroíam
as entranhas de seu governo. E assim chegamos à
festa de São João celebrada no Rancho do Torto enquanto Brasília
ardia na fogueira dos escândalos. Não, não foi uma nova edição
do baile da Ilha Fiscal. Na Ilha Fiscal, o governo imperial ofereceu uma faustosa
recepção aos chilenos em visita ao país, e os grandes do
regime dançaram até 5 da manhã, sem saber que a conspirata
republicana estava na iminência de dar o bote. No Torto, dançou-se
o forró sabendo que a República ardia em chamas. Foi uma
tentativa de perpetrar o último milagre: o de fazer crer que a vida seguia,
e no mesmo ambiente de celebração de sempre. Nhô Lula era
no entanto um rei nu, sob os farrapos de caipira. Algo não só de
patético, mas de trágico, se insinuou, com o veneno dos escândalos,
na pele desse presidente que acreditou tanto em si mesmo. |